Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

Depois de ouvir meu marido dizer que só se lembraria de mim por causa da nossa filha, comecei a reconstruir minha vida em silêncio

PARTE 1

Caio Nogueira estava bêbado.

Aproveitando aquele momento em que ele parecia estar entre a lucidez e o sono, fiz uma pergunta que nunca tinha tido coragem de fazer sóbria diante dele.

— Se existisse outra vida, você se casaria comigo de novo?

Ele estava recostado na cadeira da sala de jantar, com a gravata frouxa no pescoço e uma taça de vinho tinto inclinada entre os dedos.

— Não.

Eu ri baixinho.

— Então com quem você se casaria?

— Com ninguém.

Caio bocejou.

— Ficaria sozinho.

— Por quê?

— Porque sozinho também dá para viver bem. Eu sei pedir comida e sei usar a máquina de lavar.

Fiquei olhando para ele por alguns segundos.

— E você conseguiria buscar a Nina na escola?

O corpo dele ficou imóvel por um instante.

Então Caio disse uma coisa que, até hoje, não consegui esquecer.

— A única coisa que ainda me prende a você é o fato de você ter me dado uma filha.

Ele ergueu a taça devagar.

— A Nina é o último fio que liga nós dois.

Fez uma pequena pausa antes de completar:

— Se não fosse por ela, eu provavelmente nem lembraria qual é o seu sobrenome.

A luz amarelada da sala deixava tudo aparentemente tranquilo.

A geladeira continuava produzindo aquele ruído baixo e familiar que eu escutava todos os dias.

Sobre a mesa de centro, o prato de manga que eu tinha acabado de cortar já começava a escurecer.

Fiquei sentada diante dele, olhando para aquelas fatias durante muito tempo.

Depois me levantei.

Levei o prato até a cozinha.

E joguei tudo no lixo.

Na manhã seguinte, Caio saiu do quarto massageando a testa.

— Eu falei alguma bobagem ontem?

Eu estava prendendo o cabelo de Nina.

— Não.

— Ainda bem.

Ele sorriu, pegou a chave do carro e saiu para trabalhar.

Assim que a porta se fechou, o elástico que eu segurava arrebentou entre meus dedos.

Olhei para minha mão.

Só então percebi a força com que eu o estava apertando.

Depois daquela noite, nunca mais toquei no assunto.

Continuei cozinhando.

Continuei levando e buscando Nina na escola.

Continuei lembrando Caio de não beber tanto.

Apenas algumas coisas começaram a mudar silenciosamente.

Antes, quando ele fazia hora extra até quase onze da noite, eu sempre mandava mensagem perguntando se ele voltaria para jantar.

Parei de mandar.

Antes, quando encontrava as meias que ele largava ao lado do sofá, reclamava algumas vezes antes de colocá-las para lavar.

Depois, apenas as recolhia e colocava diretamente na máquina.

Às vezes eu tinha a impressão de que Caio percebia alguma diferença.

Em outros momentos, parecia que ele não tinha percebido absolutamente nada.

Uma noite, pouco antes da meia-noite, ele abriu a porta de casa.

A luz da sala ainda estava acesa.

Nina já dormia havia muito tempo.

Eu estava à mesa com o computador aberto diante de mim.

— Por que você ainda está acordada?

— Estou desenhando.

— Desenhando o quê?

— Um projeto pequeno que uma amiga me indicou. Estou fazendo o planejamento de um espaço para um cliente.

Ele apenas respondeu:

— Ah.

E foi direto para o banheiro.

Quando voltou, acabou olhando por acaso para a tela do computador.

Naquele exato momento, apareceu a notificação de uma transferência recebida.

R$ 1.800.

Caio parou.

— Você realmente começou a pegar trabalhos por fora?

— Sim.

— Quanto tempo você levou para ganhar R$ 1.800 com esse projeto?

— Três dias.

Enquanto enxugava o cabelo, ele comentou:

— Precisa mesmo se cansar desse jeito? A gente não está precisando desse dinheiro.

Continuei olhando para a tela.

— Só não quero perder a prática.

Ele não respondeu.

Pouco depois, virou as costas e saiu.

Na segunda semana, aceitei outro trabalho.

R$ 4 mil.

Na terceira, fui procurada pelo proprietário de um pequeno hotel-boutique.

Ele queria que eu cuidasse de todo o planejamento da decoração e dos elementos internos dos ambientes.

Meu orçamento ficou em R$ 9.500.

A partir de então, depois de deixar Nina na escola, eu levava o computador para uma cafeteria.

Passava praticamente o dia inteiro trabalhando.

Caio não fazia ideia.

Na cabeça dele, eu ainda era a mulher que passava os dias em casa assistindo alguma coisa, esperando a comida chegar e depois esperando o marido voltar do trabalho.

Um mês mais tarde, troquei meu computador por um modelo gráfico mais potente.

Caio viu o equipamento novo e perguntou sem muita atenção:

— Quando você comprou isso?

— Semana passada.

— Quanto custou?

— Um pouco mais de R$ 7 mil.

Ele imediatamente franziu a testa.

— De onde você tirou tanto dinheiro?

— Eu ganhei.

Respondi apenas isso.

Ele não fez outra pergunta.

Mas a expressão em seu rosto já dizia tudo.

Caio não acreditava.

Ou, talvez, acreditasse que nem valia a pena acreditar.

Quando entrei no segundo mês de trabalho, me matriculei em um curso de aperfeiçoamento em design de espaços e interiores.

As aulas aconteciam aos fins de semana.

Eu saía às sete e meia da manhã.

Voltava por volta das sete da noite.

Nina ficava com Caio.

No primeiro fim de semana, ele me ligou quatro vezes.

— A Nina quer comer salmão.

— A Nina não quer dormir depois do almoço.

— Ela derrubou leite. Onde você guarda os panos?

— Que horas você vai voltar, afinal?

No segundo fim de semana, ele ligou apenas uma vez.

— Que horas você chega?

— Por volta das sete.

— Certo.

E desligou.

No terceiro fim de semana, não houve nenhuma ligação.

Quando abri a porta de casa naquela noite, Nina estava sentada no sofá olhando para o tablet.

Caio permanecia recostado na poltrona, mexendo no celular.

Sobre a mesa havia três embalagens de comida por delivery.

Uma continha arroz com carne já frio, outra era uma sopa que nem tinha sido aberta, e a terceira trazia uma massa ao molho branco da qual Nina havia comido apenas duas garfadas.

Fiquei parada na entrada, tirando os sapatos devagar.

Caio levantou os olhos para mim, com uma expressão tranquila, como se não houvesse nada digno de atenção naquela cena.

— Chegou?

— Cheguei.

Coloquei a bolsa de lado e me aproximei do sofá.

Assim que me viu, Nina deixou o tablet e correu para abraçar minhas pernas.

— Mãe.

Havia um pequeno tom de tristeza na voz dela.

Abaixei-me e acariciei seus cabelos.

— Você jantou, meu amor?

Nina olhou para as três embalagens sobre a mesa.

— Jantei.

Caio soltou uma risada curta.

— Eu dei comida para ela. Não precisa chegar fazendo parecer que deixei nossa filha passar fome.

Não olhei para ele.

Perguntei apenas:

— Quanto você comeu, Nina?

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

— Duas garfadas de macarrão.

Minha mão parou sobre o ombro dela.

Caio franziu o cenho.

— Ela é enjoada para comer. Vai me culpar por isso? Você acostumou a menina mal. Tudo tem que ser exatamente do jeito que ela gosta. Criança também precisa aprender a se adaptar.

Levantei os olhos.

— Caio, ela tem cinco anos.

— E daí? — Ele colocou o celular sobre a mesa, já demonstrando impaciência. — Eu pedi as coisas mais caras do cardápio. Tinha até o salmão que ela queria. O que mais você queria que eu fizesse?

Olhei para a comida fria sobre a mesa.

Então era aquilo.

Para ele, cuidar de uma criança significava pedir o prato mais caro, colocar um tablet diante dela e deixá-la quieta durante a tarde inteira.

Não discuti.

Peguei Nina no colo, levei-a para a cozinha e preparei um arroz bem molinho com ovo para ela.

A cozinha claramente quase não tinha sido usada durante o dia. A panela pequena continuava guardada no armário de baixo, ainda havia metade do arroz no pote e os ovos eram os mesmos que eu tinha comprado três dias antes.

Lavei o arroz, coloquei a panela no fogo e, enquanto esperava, cortei um pouco de cenoura em pedaços pequenos.

Nina ficou sentada à mesa, segurando um copo de água com as duas mãos e me observando em silêncio.

— Mãe, você ainda vai estudar nos próximos fins de semana?

— Vou.

Virei-me para ela e suavizei a voz.

— A mamãe precisa aprender mais algumas coisas.

— Então eu posso ir com você?

Minha mão parou.

Nina baixou a cabeça e esfregou a pontinha do tênis na perna da cadeira.

— Ficar em casa com o papai é meio triste.

Foi uma frase muito baixa.

Mas entrou em mim como uma agulha.

Eu achava que conseguiria aguentar mais um pouco.

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