
PARTE 4
Durante as semanas seguintes, nossa casa continuou funcionando. Talvez fosse isso que mais confundisse Caio. Não havia gritos diários, portas batendo ou ameaças. Nina ia para a escola, nós pagávamos as contas, jantávamos na mesma mesa quando os horários coincidiam e conversávamos sobre assuntos práticos. Por fora, parecíamos uma família atravessando apenas uma fase mais ocupada.
Por dentro, eu sentia que algo essencial tinha se deslocado.
Certa sexta-feira, Caio chegou cedo e encontrou Nina e eu colocando casacos. — Vocês vão sair? — Vamos jantar com duas pessoas do meu curso. Elas também vão levar os filhos. — E eu? A pergunta saiu tão espontânea que precisei conter um sorriso triste.
— Você pode ir, se quiser. Só não pensei que teria interesse. Ele pareceu ofendido. — Por que não teria? — Porque, nos últimos anos, quase todas as vezes que convidei você para alguma coisa minha, sua resposta foi que estava cansado ou tinha trabalho.
Caio pegou a chave do carro. — Vou com vocês.
O jantar foi simples. Ninguém ali conhecia Caio como executivo, ninguém perguntou sobre o cargo dele ou sobre negócios. A conversa girou em torno de projetos, fornecedores, dificuldades com clientes e ideias para espaços pequenos. Pela primeira vez em muito tempo, eu estava no centro de uma conversa profissional, e Caio era apenas o acompanhante.
No caminho de volta, ele permaneceu calado. Depois perguntou: — Você fala com essas pessoas todos os dias? — Algumas vezes. — Você parece diferente com elas. Virei o rosto para a janela. — Talvez porque elas conheçam uma parte de mim que você parou de conhecer.
Ele ficou alguns segundos sem falar. — Eu nunca impedi você de trabalhar. — Não. Você só se acostumou tanto comigo deixando tudo de lado que passou a achar que aquela versão era a única que existia.
A conversa terminou ali, mas o desconforto não.
Alguns dias mais tarde, Caio teve uma semana especialmente difícil no escritório. Na quarta-feira, avisou que chegaria tarde. Não perguntou sobre Nina nem sobre o jantar. Às onze e vinte, abriu a porta e encontrou a sala apagada. Quando entrou no quarto, eu ainda estava acordada lendo mensagens de fornecedores.
— Você não perguntou se eu vinha jantar — disse.
Coloquei o celular sobre o criado-mudo. — Você disse que chegaria tarde. — Antes você perguntava. — Sim.
Caio esperou que eu continuasse.
Eu não continuei.
— Então acabou? — perguntou de repente.
A pergunta me pegou de surpresa. — O quê? — Essa coisa de cuidar de mim. Parece que você decidiu parar.
Respirei fundo antes de responder. — Caio, eu não parei de me importar se você está bem. Parei de administrar sua vida. Você é adulto. Sabe quando está com fome, sabe abrir a geladeira e sabe mandar uma mensagem se precisar de alguma coisa.
Ele soltou uma risada sem humor. — É impressionante. Você começa a ganhar algum dinheiro e muda completamente.
Aquilo finalmente me irritou. Sentei-me na cama. — Você realmente acha que é sobre dinheiro? — Então é sobre o quê? — Sobre eu descobrir que passei anos tornando sua vida confortável enquanto você mal percebia o esforço necessário para isso.
Caio cruzou os braços. — Eu trabalhei igual um condenado para dar conforto para vocês. — E eu reconheço isso. Mas sempre que fala da nossa família, você descreve o que pagou. Nunca descreve o que construiu com a gente.
O silêncio tomou conta do quarto.
Pela primeira vez, fiz a pergunta que estava evitando desde a noite em que ele bebeu demais.
— Você ainda me enxerga como sua esposa?
Caio franziu a testa. — Que pergunta é essa?
— Uma pergunta simples.
— Claro que enxergo.
— Então me diga alguma coisa sobre mim que não tenha relação com Nina, com a casa ou com o que faço para você.
Ele abriu a boca.
Fechou.
Depois desviou os olhos.
Eu senti uma dor estranha, menos aguda do que imaginava. Talvez porque aquela resposta já existisse havia muito tempo.
— Você está fazendo um drama enorme por causa de uma frase? — perguntou ele.
Meu corpo ficou imóvel.
— Que frase?
Caio percebeu o erro imediatamente.
— Nada.
Olhei para ele por alguns segundos. — Você lembra daquela noite?
Ele passou a mão pelo rosto. — Eu estava bêbado.
— Mas lembra.
— Lembro de algumas coisas.
Foi a primeira confirmação de que sua pergunta na manhã seguinte talvez não tivesse sido tão inocente quanto eu pensava.
— Você disse que, se não fosse por Nina, nem lembraria meu sobrenome.
— Eu estava bêbado. Falei besteira.
— E no dia seguinte perguntou se tinha falado alguma coisa.
— Porque eu sabia que tinha bebido demais.
— Caio, eu respondi que não. Você ficou aliviado.
Ele se sentou na ponta da cama. — O que você quer que eu diga agora? Que me arrependo? Eu me arrependo.
— Não estou procurando uma frase certa.
— Então o que você quer?
Pensei antes de responder.
— Quero entender se existe um casamento aqui além da rotina que nós dois aprendemos a manter.
Caio ficou olhando para o chão.
Naquela noite, ele dormiu virado para o outro lado. Eu permaneci acordada por muito tempo, mas não chorei. O que eu sentia era mais parecido com uma clareza dolorosa do que com desespero.
Nos dias seguintes, não retomamos aquela conversa. Caio ficou mais atencioso com Nina e passou a perguntar sobre meus projetos, mas eu percebia o esforço quase mecânico em suas perguntas. Era como se tentasse recuperar rapidamente alguma coisa sem entender exatamente o que tinha sido perdido.
Enquanto isso, o hotel se aproximava da conclusão. Os móveis chegaram, as luminárias foram instaladas e, pela primeira vez, eu consegui caminhar pelos ambientes quase exatamente como existiam nos desenhos que havia feito meses antes.
O proprietário parou ao meu lado na recepção.
— Ficou melhor do que eu imaginava.
Passei a mão pela lateral do balcão, verificando um acabamento.
— Ainda faltam alguns ajustes.
Ele riu.
— Você sempre encontra mais alguma coisa.
Naquele momento, percebi que tinha conseguido transformar uma ideia em algo concreto. Não era apenas uma transferência bancária entrando no celular. Era um espaço real que existia porque eu havia tomado centenas de pequenas decisões.
Voltei para casa naquela noite com uma pasta de amostras debaixo do braço.
Caio estava na cozinha tentando preparar omelete para Nina.
Ela ria porque ele tinha quebrado um ovo fora da tigela.
Fiquei observando os dois da porta por alguns segundos.
Ele estava aprendendo a ser mais presente como pai.
E, estranhamente, essa constatação não me fez desejar mais nosso casamento.
Ao contrário.
Pela primeira vez, consegui separar duas coisas que durante anos haviam estado misturadas dentro de mim: Caio podia se tornar um pai melhor sem que isso significasse que nós precisávamos continuar sendo marido e mulher.
Essa compreensão mudou tudo.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














