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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

A ligação da revista chegou cerca de três meses depois.

Eu estava numa reunião quando o celular vibrou, então só retornei no fim da tarde.

A editora explicou que preparavam uma edição sobre novos nomes do design de interiores fora dos grandes escritórios tradicionais. A matéria que tinham feito comigo havia recebido boa resposta, e o conselho editorial queria usar meu retrato na capa regional daquela edição.

Por alguns segundos, achei que tinha entendido errado.

— Na capa?

Ela riu.

— Na capa.

Aceitei.

Depois desliguei e permaneci sentada diante do computador sem tocar em nada.

Não pensei em Caio.

Não pensei em provar alguma coisa para ninguém.

Pensei em mim mesma dois anos antes, perguntando quanto tempo levaria para concluir um pequeno projeto de três dias enquanto tentava não deixar a casa perceber que eu estava voltando a existir profissionalmente.

Contei a Nina naquela noite.

Ela pulou no sofá.

— Agora você ficou famosa?

— Ainda não.

— Mas vai aparecer na capa.

— Isso não significa ser famosa.

Ela franziu a testa.

— Então para que serve a capa?

Ri.

— Para vender revista.

Nina pareceu satisfeita com a explicação.

A sessão de fotos aconteceu em um dos espaços da pousada.

A equipe escolheu roupas simples, pediu que eu segurasse alguns materiais de projeto e fez dezenas de fotografias.

Eu me senti estranha no começo.

Sempre tinha preferido ficar atrás do trabalho.

Mas, quando vi uma das imagens no monitor, reconheci a mulher da fotografia.

Não porque estivesse especialmente bonita.

Reconheci a postura.

O jeito de olhar.

A tranquilidade de alguém que já não pedia desculpas por ocupar espaço.

A edição foi lançada numa segunda-feira.

Pela manhã, recebi mensagens de colegas, clientes e pessoas do curso.

Minha professora escreveu:

“Eu disse que você já tinha voltado.”

Guardei a mensagem.

Caio não falou nada naquele dia.

Nem no seguinte.

Na quarta-feira, ele apareceu para buscar Nina.

Eu estava fechando o notebook quando ouvi a campainha.

Nina correu para abrir.

Caio entrou carregando a mochila que ela havia esquecido no apartamento dele.

Quando me viu, percebi imediatamente que havia alguma coisa diferente.

Os olhos estavam vermelhos.

Não parecia que tivesse acabado de chorar naquele instante.

Parecia alguém que tinha dormido mal.

Nina começou a falar sobre um trabalho da escola, e ele respondeu normalmente.

Esperamos que ela entrasse no quarto para buscar um casaco.

Então Caio tirou algo de dentro da bolsa.

Era a revista.

Colocou-a sobre a mesa.

Minha fotografia ocupava quase toda a capa.

Ele passou a mão pela borda.

— Vi isso ontem.

Fiquei em silêncio.

— Um colega levou para o escritório. Não fazia ideia de que era você até colocar na mesa.

— Entendi.

Caio soltou uma risada curta e cansada.

— Eu fiquei olhando para a capa e lembrei daquela noite.

Sabia exatamente de qual noite ele falava.

— Eu disse que, sem a Nina, talvez nem lembrasse seu sobrenome.

Minha garganta apertou levemente.

— Disse.

Ele passou a mão pelo rosto.

— Hoje eu percebo como aquilo era absurdo.

— Você já pediu desculpas.

— Não estou tentando pedir de novo.

Olhei para ele.

Caio continuou:

— Só queria dizer uma coisa sem esperar que você faça nada com isso.

Assenti.

— Pode falar.

— Eu achava que conhecia você porque sabia como gostava do café, quais remédios tomava quando estava gripada, o que comprava no mercado e qual lado da cama preferia. Mas eu não sabia o que você queria para sua vida. E pior: eu não percebi que não sabia.

Ele respirou fundo.

— Quando você começou a trabalhar, eu achei desnecessário porque não precisávamos do dinheiro. Eu realmente pensei assim. Como se qualquer coisa que você fizesse precisasse primeiro justificar utilidade para a nossa casa.

As palavras foram entrando devagar.

Não havia nada novo nelas.

Ainda assim, ouvi-las daquela forma era diferente.

— Eu não te impedi — ele continuou. — E durante muito tempo usei isso como defesa. Pensava: “Eu nunca proibi nada”. Só que não proibir não significa apoiar. E não perceber uma pessoa também é uma forma de deixá-la sozinha.

Olhei para a capa da revista.

— Por que está me dizendo isso agora?

Caio demorou a responder.

— Porque ontem eu percebi que fiquei emocionado vendo sua fotografia, e no começo achei que fosse porque tinha perdido você. Depois entendi que não era só isso.

— O que era?

— Eu fiquei orgulhoso. E fiquei com vergonha de só conseguir enxergar claramente depois que você já não era mais minha esposa.

Meus olhos arderam.

Não porque eu quisesse voltar.

Talvez porque uma parte antiga de mim tivesse esperado aquelas palavras durante muito tempo.

Nina apareceu no corredor.

Caio pegou a mochila.

Antes de sair, olhou para mim.

— Eu sei que não tenho direito de pedir nada.

Parei.

— Mas tem uma pergunta que ainda penso às vezes.

Eu já sabia.

Mesmo assim, deixei que ele dissesse.

— Se eu tivesse entendido tudo antes… teria existido alguma chance de nós dois?

Olhei para ele por alguns segundos.

— Talvez.

Caio baixou os olhos.

— Mas nós nunca vamos saber.

— Não.

Nina segurou a mão dele.

Os dois foram embora.

Fechei a porta e fiquei encostada nela por um instante.

A antiga versão de mim talvez tivesse transformado aquele “talvez” numa porta aberta.

Eu não.

Porque casamento não era um problema matemático em que uma mudança tardia podia alterar retroativamente todos os anos anteriores.

Caio tinha mudado.

Eu também.

E as nossas mudanças haviam nos levado para lugares diferentes.

Naquela noite, coloquei a revista sobre a estante.

Não em um lugar de destaque.

Apenas entre alguns livros e catálogos de trabalho.

Quando Nina voltou no dia seguinte, encontrou-a ali e perguntou:

— Você não vai colocar numa moldura?

— Talvez um dia.

— Eu colocaria.

Sorri.

— Eu sei.

Mais tarde, enquanto preparava o jantar, recebi uma mensagem de Caio.

“Obrigado por me ouvir ontem.”

Respondi:

“De nada.”

Depois ele enviou outra.

“Eu não vou perguntar de novo.”

Fiquei olhando para a frase por alguns segundos.

Digitei:

“Tudo bem.”

Não havia raiva.

Não havia alívio dramático.

Havia apenas uma espécie de encerramento.

Durante muito tempo, eu tinha imaginado que, se um dia Caio entendesse completamente o que havia feito comigo, talvez aquilo consertasse alguma coisa.

Agora eu sabia que compreensão e reconciliação não eram a mesma coisa.

Às vezes, compreender servia apenas para permitir que duas pessoas finalmente deixassem o passado no lugar certo.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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