Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

PARTE 10

Um ano depois do divórcio, a rotina já não parecia provisória.

Nina sabia em quais dias dormiria comigo e em quais ficaria com Caio. Tinha roupas nas duas casas, livros repetidos, duas escovas de dentes e uma pequena coleção de objetos que atravessavam a cidade dentro da mochila porque, segundo ela, “precisavam conhecer os dois quartos”.

Caio também tinha mudado.

Não de maneira perfeita.

Às vezes esquecia alguma atividade da escola.

Em outras ocasiões, reclamava de cansaço ou precisava pedir ajuda.

A diferença era que já não tratava essas responsabilidades como uma extensão automática da minha função.

Quando esquecia, resolvia.

Quando não sabia, aprendia.

Quando precisava trocar um horário, perguntava em vez de presumir que eu reorganizaria tudo.

Essa mudança melhorou muito nossa convivência.

Mas nunca transformei isso numa prova de que o divórcio tinha sido um erro.

Certa tarde, nos encontramos na apresentação escolar de Nina.

Ela participaria de uma pequena encenação sobre as estações do ano e tinha passado duas semanas repetindo suas três frases diante de qualquer pessoa disposta a escutar.

Caio chegou antes de mim e guardou um lugar na fileira.

— Aqui.

Sentei-me ao lado dele.

Assistimos à apresentação, tiramos fotografias e rimos quando Nina esqueceu uma palavra e inventou outra.

Depois, ela correu até nós.

— Vocês viram?

— Vimos — respondemos quase ao mesmo tempo.

Ela segurou nossas mãos.

Por alguns segundos, caminhamos assim pelo corredor da escola.

Eu à esquerda.

Caio à direita.

Nina no meio.

Anos antes, eu teria pensado que aquela imagem só poderia existir se continuássemos casados.

Agora entendia que uma família podia mudar de forma sem desaparecer.

Depois deixamos Nina com uma amiga para brincar e fomos tomar um café perto da escola enquanto esperávamos.

Foi Caio quem mencionou o passado.

— Posso te contar uma coisa engraçada?

— Pode.

— Outro dia eu estava sozinho em casa e vi uma meia minha no chão ao lado do sofá.

Comecei a rir antes mesmo de ele terminar.

— E finalmente entendi quem sempre pegava.

— Demorei só alguns anos.

— Um progresso impressionante.

Ele riu também.

Depois ficou sério.

— Às vezes ainda sinto culpa.

Mexi o café devagar.

— Culpa por quê?

— Por não ter percebido antes.

— Você percebeu quando conseguiu perceber.

— Isso parece uma forma educada de dizer que fui um idiota.

— Talvez seja.

Ele riu outra vez.

A conversa poderia ter terminado ali, mas Caio continuou:

— Eu não quero voltar a te pedir outra chance.

Olhei para ele.

— Eu sei.

— Só queria que você soubesse que entendi por que você foi embora.

Pensei por alguns segundos.

— Eu não fui embora por causa de uma frase.

— Eu sei.

— Nem porque comecei a ganhar dinheiro.

— Também sei.

— E nem porque você era um pai completamente incapaz.

Ele assentiu.

— Você foi embora porque deixou de querer desaparecer dentro da vida que a gente tinha.

A frase me surpreendeu.

Depois sorri.

— É.

Ficamos em silêncio.

Dessa vez, não havia nada doloroso nele.

Quando Nina voltou, nos despedimos e cada um seguiu sua direção.

Naquele mesmo período, meu trabalho também tinha encontrado um ritmo mais saudável.

Depois da capa da revista, vieram propostas melhores, mas eu recusei várias.

Aprendi que sucesso não significava aceitar todas as oportunidades.

Mantive uma pequena rede de profissionais parceiros e passei a trabalhar principalmente com projetos de hotelaria, restaurantes pequenos e residências em que eu realmente acreditava poder contribuir.

A revista continuava na estante do meu escritório.

Algumas pessoas que entravam ali apontavam para ela.

— Você deveria colocar essa capa na parede.

Eu sempre sorria.

Talvez um dia colocasse.

Mas o objeto que mais gostava de ver na parede era outro.

O desenho de Nina com duas casas e um único sol.

Para mim, ele dizia mais sobre aquela fase da minha vida do que qualquer fotografia profissional.

Numa manhã de sábado, Nina entrou no escritório ainda de pijama.

Eu estava revisando uma planta.

— Você vai trabalhar hoje?

— Só mais meia hora.

Ela fez uma expressão desconfiada.

— Meia hora de verdade?

— De verdade.

— Depois a gente sai?

— Depois a gente sai.

— Para onde?

Fechei o computador.

— Você escolhe.

Ela arregalou os olhos.

— Eu posso escolher qualquer lugar?

— Dentro do razoável.

— Sorvete.

— Isso é um lugar?

— Para mim é.

Ri.

Fomos tomar sorvete antes do almoço.

No caminho, Nina falou sobre escola, uma amiga nova, um desenho que queria fazer e o fim de semana seguinte com Caio.

— O papai disse que vai tentar fazer panqueca de novo.

— Corajoso.

— Agora ele sabe.

— Então perdi minha vantagem.

Ela segurou minha mão.

Enquanto atravessávamos a rua, pensei em como minha vida havia mudado desde aquela noite em que Caio, bêbado, disse que Nina era o único fio que ainda nos ligava.

Durante algum tempo, eu odiei aquela frase.

Depois percebi que ela havia apenas revelado uma verdade que já existia antes de ser pronunciada.

O nosso casamento tinha se transformado numa estrutura eficiente em que cada pessoa possuía uma função.

Caio trabalhava, pagava contas e acreditava que isso era suficiente.

Eu cuidava da casa, da filha, da rotina, das necessidades invisíveis de todos e confundia ser indispensável com ser amada.

Nenhum de nós percebeu imediatamente quando deixamos de ser duas pessoas curiosas uma pela outra.

Eu poderia ter permanecido.

Talvez tivéssemos continuado funcionando durante muitos anos.

Talvez Caio nunca tivesse me traído, nunca tivesse levantado a mão para mim e nunca tivesse cometido nenhuma grande crueldade visível.

E, durante muito tempo, essa ausência de uma tragédia enorme foi justamente o que me fez acreditar que eu não tinha um motivo legítimo para ir embora.

Depois entendi que não precisava esperar uma catástrofe para admitir que eu já não queria aquela vida.

Também entendi outra coisa.

Recuperar minha profissão não tinha sido o verdadeiro final da história.

A revista, os projetos, o dinheiro e o reconhecimento tinham importância, claro.

Mas nada disso teria valor se eu apenas tivesse trocado a dependência emocional de Caio pela dependência da aprovação de clientes.

O que eu realmente havia recuperado era a capacidade de fazer escolhas.

Escolher trabalhar.

Escolher descansar.

Escolher dizer não.

Escolher pedir ajuda.

Escolher terminar uma relação sem precisar transformar o outro em vilão.

Escolher reconhecer que Caio tinha se tornado um pai melhor e ainda assim não voltar para ele.

Escolher olhar para os anos do nosso casamento sem fingir que tudo tinha sido ruim.

Houve amor.

Houve felicidade.

Houve Nina.

Também houve silêncio, acomodação e uma versão de mim mesma que foi ficando pequena sem que eu percebesse.

Todas essas coisas podiam ser verdade ao mesmo tempo.

Naquela noite, depois de colocar Nina para dormir, entrei no escritório para buscar o celular.

A revista ainda estava na estante.

Peguei-a.

Fiquei alguns segundos olhando para minha fotografia na capa.

Então percebi que já não pensava no rosto que Caio tinha feito quando a viu.

Eu pensava no caminho que me levara até ali.

Nos primeiros R$ 1.800.

No computador comprado com meu próprio trabalho.

Nos fins de semana de curso.

No hotel.

Na primeira vez que obriguei Caio a reorganizar a agenda para buscar a própria filha.

Na conversa em que admiti que estava pensando em me separar.

No dia em que ele saiu de casa.

Nas primeiras noites sozinha.

No desenho das duas casas.

Coloquei a revista de volta.

Apaguei a luz.

Antes de fechar a porta do escritório, olhei mais uma vez para o desenho de Nina na parede.

Duas casas.

Um sol.

Sorri.

Eu já não precisava ser lembrada pelo sobrenome que carregava, pelo homem com quem tinha me casado ou pelo papel que ocupava na vida de outra pessoa.

Pela primeira vez em muitos anos, o rumo da minha vida não dependia do que alguém esperava de mim.

Eu mesma escolhia para onde ir.

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