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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

A entrevista aconteceu numa terça-feira de manhã.

A jornalista chegou ao hotel acompanhada por um fotógrafo e pediu que eu mostrasse o espaço enquanto explicava algumas escolhas do projeto. Não havia glamour. Em vários momentos precisei esperar hóspedes passarem, funcionários terminarem uma limpeza ou alguém afastar uma mala do enquadramento.

Mesmo assim, eu estava nervosa.

Durante anos, tinha falado sobre a carreira sempre no passado.

“Eu trabalhava com isso.”

“Eu estudava aquilo.”

“Antes de ter Nina, eu fazia projetos.”

Na entrevista, todas as perguntas estavam no presente.

“O que você procura quando entra em um espaço novo?”

“Como equilibra estética e orçamento?”

“Que tipo de projeto quer fazer daqui para frente?”

Percebi o efeito dessas perguntas em mim.

Elas me obrigavam a me enxergar como alguém que continuava construindo uma trajetória, e não como uma pessoa tentando recuperar uma versão antiga de si mesma.

A jornalista perguntou sobre o período em que fiquei afastada do mercado.

Respondi com cuidado.

— Eu passei alguns anos muito concentrada na minha família e na criação da minha filha. Quando voltei, achei que estava recomeçando do zero, mas depois percebi que aquela fase também tinha me ensinado coisas sobre rotina, funcionalidade e sobre como as pessoas realmente vivem dentro dos espaços.

Ela sorriu.

— Então você não considera aqueles anos perdidos?

— Não. Só não quero que sejam os únicos anos pelos quais eu seja definida.

Foi a frase mais pessoal da entrevista.

E foi verdade.

Quando a matéria saiu na edição digital, mostrei primeiro para Nina.

Ela ainda lia devagar, então apontou para minha fotografia e perguntou:

— Está escrito que você é famosa?

Eu ri.

— Não.

— Então está escrito o quê?

— Que eu trabalho com design.

Ela pensou um pouco.

— Eu já sabia.

A resposta dela me fez rir mais ainda.

Para Nina, minha vida profissional nunca tinha sido uma surpresa. Ela tinha crescido me vendo abrir o computador, sair para visitar obras, estudar, voltar cansada e falar de cores, móveis e medidas.

A imagem limitada que Caio tinha de mim não precisaria se tornar a imagem que minha filha teria.

Poucos dias depois, a revista me procurou novamente.

A matéria impressa seria maior do que o previsto e eles queriam incluir meu projeto da pousada, que já estava em fase final. Perguntaram se eu aceitava fazer novas fotos e participar de um especial sobre profissionais que estavam ganhando espaço no setor.

Aceitei.

Não interpretei aquilo como uma transformação milagrosa.

Eu sabia exatamente quantas noites de revisão, quantos orçamentos refeitos e quantas decisões difíceis havia por trás daquela oportunidade.

Quando contei a Caio, foi porque precisava ajustar um fim de semana com Nina em razão das fotografias.

— Sem problema — respondeu ele. — Eu fico com ela.

Depois de alguns segundos, acrescentou:

— Parabéns.

— Obrigada.

Foi tudo.

A nossa comunicação havia ficado assim: mais limpa, menos carregada de significados ocultos.

Algumas semanas depois, Caio apareceu para buscar Nina no início da noite.

Enquanto ela terminava de arrumar a mochila, ele viu a edição impressa da revista sobre minha mesa.

Pegou-a.

Folheou.

Parou na matéria.

Eu estava na cozinha, mas conseguia vê-lo pelo vão da porta.

Ele leu em silêncio por alguns minutos.

Quando fechou a revista, perguntou:

— Você disse isso mesmo?

— O quê?

Ele abriu novamente e apontou para um trecho.

Era a frase sobre não considerar os anos dedicados à família como anos perdidos, mas não querer ser definida apenas por eles.

— Disse.

Caio assentiu.

— Eu achei que você tivesse raiva de tudo o que viveu comigo.

— Não tenho.

— Nem dos anos em que ficou em casa?

— Também não.

Ele pareceu confuso.

— Então por que…

Interrompi antes que concluísse.

— Porque uma coisa pode ter valor e ainda assim chegar ao fim.

Ele ficou em silêncio.

Nina apareceu correndo com a mochila.

— Pai, olha, a mamãe está numa revista.

— Eu vi.

Ela abriu um sorriso enorme.

— Ela desenhou aquele hotel.

Caio olhou para mim.

— Eu sei.

Havia tristeza em seu rosto, mas também alguma coisa mais tranquila do que antes.

Ele já não parecia esperar que meu crescimento fosse uma mensagem dirigida a ele.

Era apenas a minha vida.

Naquele período, a pousada foi concluída.

O projeto me trouxe novos contatos, inclusive um escritório maior que precisava de apoio externo para desenvolver interiores de dois pequenos empreendimentos.

Eu aceitei apenas um.

Essa foi outra mudança importante.

Meses antes, eu teria aceitado qualquer proposta por medo de que as oportunidades desaparecessem.

Agora sabia que trabalhar até a exaustão para provar meu valor seria apenas trocar um tipo de apagamento por outro.

Contratei ajuda para tarefas técnicas e reservei duas tardes por semana para buscar Nina pessoalmente.

Não porque fosse obrigação exclusiva minha.

Porque eu queria.

Essa diferença passou a importar muito.

No aniversário de seis anos dela, fizemos uma comemoração pequena.

Caio chegou cedo para ajudar.

Nós dois organizamos as mesas, recebemos as crianças e cantamos parabéns lado a lado.

Uma das mães da escola, que ainda não sabia que tínhamos nos divorciado, comentou:

— Vocês formam uma família bonita.

Caio e eu nos olhamos.

Ele respondeu primeiro.

— Somos pais da Nina.

Não corrigiu com amargura.

Não tentou fingir.

Mais tarde, quando todos foram embora, ele me ajudou a recolher copos e pratos.

— Obrigado por não transformar tudo isso numa guerra — disse.

— Você também não transformou.

— Eu quase fiz isso algumas vezes.

— Eu também.

Ele sorriu de leve.

Antes de sair, parou junto à porta.

— Acho que finalmente entendi uma coisa.

Esperei.

— Quando você começou a trabalhar de novo, eu pensei que você estivesse se afastando porque tinha encontrado uma vida melhor.

— E agora?

— Agora acho que você se afastou porque percebeu que já tinha uma vida própria e eu não sabia enxergar.

Não respondi imediatamente.

Depois assenti.

— É mais ou menos isso.

Ele foi embora.

Fechei a porta e encontrei Nina dormindo no sofá, ainda usando a coroa de papel da festa.

Peguei-a no colo.

Enquanto caminhava até o quarto, pensei que Caio finalmente conseguia colocar em palavras uma parte do que havia acontecido.

Mas compreender depois não mudava o que tinha sido vivido antes.

E, pela primeira vez, essa constatação não me deixou triste.

Ela apenas parecia verdadeira.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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