
PARTE 5
A inauguração do hotel aconteceu numa quinta-feira à noite.
Eu quase não fui.
Durante semanas, tinha tratado aquela data como o encerramento de um trabalho: conferir os últimos detalhes, entregar documentos, responder dúvidas e seguir para o próximo projeto. Foi o proprietário quem insistiu.
— Você precisa estar lá. Metade do que as pessoas vão elogiar hoje saiu da sua cabeça.
Nina ouviu a conversa e decidiu por mim.
— Eu quero ver o hotel que a mamãe desenhou.
Então fomos.
Caio também apareceu, embora eu não tivesse pedido. Disse que queria levar Nina e conhecer o resultado. Não discuti. Naquele momento, eu já não precisava interpretar cada gesto dele como sinal de alguma coisa entre nós.
Quando entramos, Nina segurou minha mão e arregalou os olhos.
— Foi você que fez tudo isso?
Eu ri.
— Eu fiz o projeto. Muita gente trabalhou para ficar pronto.
Ela apontou para uma luminária grande no centro do salão.
— Você escolheu essa também?
— Escolhi.
Nina sorriu com uma espécie de orgulho tão puro que tive vontade de guardar aquele momento inteiro.
Caio caminhava alguns passos atrás.
Durante a primeira hora, várias pessoas vieram falar comigo. Fornecedores, funcionários do hotel, dois clientes com quem eu já estava negociando e algumas pessoas que tinham acompanhado o projeto pelas redes sociais do estabelecimento. Pela primeira vez, Caio me viu sendo procurada não porque eu era esposa dele ou mãe de Nina, mas porque meu nome significava alguma coisa naquele ambiente.
Em determinado momento, ouvi um homem perguntar a ele:
— Você trabalha com design também?
Caio respondeu:
— Não. Sou marido dela.
Foi uma frase simples.
Mesmo assim, quando ouvi, senti algo estranho.
Durante anos, eu tinha sido “a esposa de Caio” em tantos ambientes que nunca percebi quanto aquilo tinha se tornado automático. Naquela noite, pela primeira vez, a posição estava invertida.
No carro, Nina adormeceu no banco de trás.
Caio dirigiu vários minutos sem falar.
— Eu não sabia que o projeto era desse tamanho — disse finalmente.
— Você nunca perguntou.
Ele segurou o volante com mais força.
— Eu perguntei algumas vezes.
— Perguntou quanto eu ganhava. Não perguntou o que eu estava fazendo.
Ele não respondeu.
Dois dias depois, uma página regional de arquitetura e decoração publicou fotografias do hotel. O texto citava meu nome como responsável pelo projeto de interiores e destacava algumas soluções que eu tinha criado para reduzir custos sem perder a identidade do espaço.
Não era uma grande revista.
Não fiquei famosa.
Mas aquele texto trouxe três novos contatos profissionais em menos de uma semana.
Comecei a perceber que, se continuasse trabalhando naquele ritmo, precisaria escolher melhor os projetos. Aceitar tudo já não era possível.
Também terminei o curso.
Na última aula, recebemos os certificados e tiramos uma fotografia em grupo. Quando cheguei em casa, Nina pediu para segurar o meu.
— Então agora você já aprendeu tudo?
— Não. Ninguém aprende tudo.
— Vai continuar estudando?
— Provavelmente.
Ela assentiu como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
Caio, encostado no batente da porta, ouviu a conversa.
Mais tarde, enquanto guardávamos a louça, ele perguntou:
— Você pretende continuar trabalhando assim?
Olhei para ele.
— Assim como?
— Levando a sério. Pegando projetos grandes.
— Sim.
Ele respirou fundo.
— Então talvez a gente precise reorganizar algumas coisas.
Foi a primeira vez que usou “a gente” sem significar que eu deveria reorganizar tudo.
Sentamos à mesa e fizemos uma lista.
Quem buscaria Nina em cada dia.
Quem faria compras.
Como dividiríamos algumas tarefas da casa.
Em quais noites cada um teria compromissos.
Caio parecia desconfortável, mas participou.
Por algumas semanas, nossa convivência melhorou.
Justamente por isso, comecei a questionar se eu não estava sendo injusta ao pensar em separação.
Ele estava tentando.
Participava mais da vida de Nina.
Não reclamava quando precisava sair cedo do escritório.
Às vezes perguntava como tinha sido meu dia.
Mas havia uma diferença entre melhorar a convivência e recuperar a intimidade.
Eu não sentia vontade de contar minhas inseguranças a ele.
Não sentia saudade quando passávamos muitas horas separados.
Quando Caio me tocava, eu não recuava, mas também não sentia vontade de me aproximar.
Uma noite, ele tentou me abraçar na cozinha.
Meu corpo ficou rígido antes mesmo que eu percebesse.
Caio soltou os braços.
— Você não consegue mais ficar perto de mim?
A pergunta não tinha raiva.
Talvez por isso tenha sido tão difícil responder.
— Eu não sei.
— Você ainda me ama?
Fechei os olhos por um instante.
— Eu não sei como responder isso sem mentir para você ou para mim.
Caio se afastou.
Durante alguns segundos, apenas ouvimos o barulho da máquina de lavar louça.
— Você está pensando em se separar?
Desta vez, não desviei.
— Estou.
O rosto dele mudou.
Não houve grito.
Não houve acusação imediata.
Apenas um silêncio pesado.
— Desde quando?
— Talvez desde antes de eu admitir para mim mesma.
Ele puxou uma cadeira e se sentou.
— Por causa daquela noite?
— Aquela noite abriu meus olhos. Mas não criou tudo sozinha.
Expliquei que a frase tinha doído porque encontrara um terreno já preparado. Durante anos, eu havia me sentido necessária, mas não verdadeiramente vista. Importante para o funcionamento da casa, importante para Nina, importante para facilitar a vida dele. Só não sabia se era importante simplesmente por ser eu.
Caio esfregou o rosto com as duas mãos.
— Eu posso mudar.
— Talvez possa.
Ele levantou os olhos, surpreso.
— Então me dá uma chance.
— Você precisa mudar porque quer ser um marido e um pai diferente, não porque está com medo de me perder.
— Qual é a diferença?
— A diferença é que, se eu decidir ir embora, a mudança ainda precisa fazer sentido para você.
Nos dias seguintes, a palavra “separação” permaneceu entre nós mesmo quando ninguém a dizia.
Caio sugeriu terapia de casal.
Eu aceitei.
Não porque tivesse decidido permanecer, mas porque precisava ter certeza de que estava tomando uma decisão olhando para a realidade inteira, e não apenas para a dor de uma noite.
A primeira sessão foi desconfortável.
A terapeuta perguntou quando tínhamos começado a viver mais como administradores de uma casa do que como casal.
Caio respondeu que não sabia.
Eu respondi que talvez tivesse sido gradual.
Depois ela perguntou o que cada um entendia como demonstração de amor.
Caio falou em segurança financeira, responsabilidade e fidelidade.
Eu falei em presença, curiosidade pelo outro e parceria.
Nenhuma das respostas era errada.
O problema era que, durante anos, tínhamos vivido dentro de definições diferentes sem perceber.
Na volta para casa, Caio dirigiu em silêncio.
Antes de descer do carro, falou:
— Eu realmente achava que estava fazendo tudo certo.
Olhei para ele.
— Eu sei.
E aquela era talvez a parte mais triste.
Ele não tinha acordado todas as manhãs decidido a me diminuir.
Apenas tinha se acostumado a receber tanto de mim que parou de perceber o valor de quem entregava.
Compreender isso reduziu minha raiva.
Mas não trouxe de volta o que eu havia perdido.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














