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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

PARTE 7

As primeiras semanas de separação foram muito menos elegantes do que eu imaginara.

Havia horários esquecidos, roupas de Nina que ficavam na casa errada, materiais da escola que precisavam atravessar a cidade e mensagens enviadas às pressas perguntando onde estava determinado brinquedo. Algumas noites eu sentia falta da antiga rotina simplesmente porque ela era conhecida.

Mas sentir falta do conhecido não era o mesmo que desejar voltar.

Caio ficou com Nina em fins de semana alternados e também duas noites durante a semana.

No primeiro fim de semana completo, ele me mandou uma mensagem às sete da manhã:

“Como você faz a panqueca que ela gosta?”

Olhei para a tela e quase respondi com uma receita detalhada.

Depois parei.

Escrevi apenas:

“Ela sabe ajudar. Pergunta para ela.”

Horas depois, recebi uma foto.

A panqueca tinha uma forma irreconhecível.

Nina aparecia ao lado fazendo sinal de positivo.

Sorri.

Era exatamente aquilo que eu queria desde o começo: não ser o manual de instruções permanente da relação entre pai e filha.

Caio começou a construir seus próprios hábitos com ela.

Descobriu que Nina gostava de escolher frutas na feira.

Aprendeu a fazer arroz sem deixar queimar.

Criou um ritual de ler duas histórias antes de dormir.

Uma tarde, quando fui buscá-la, ela me contou animada:

— O papai sabe fazer trança agora.

Olhei para Caio.

Ele deu de ombros.

— Vi um vídeo.

Não senti ciúme nem tristeza.

Senti alívio.

Ele estava aprendendo a ser pai sem precisar que eu permanecesse como esposa.

Enquanto isso, eu também precisei aprender a ficar sozinha.

Nos fins de semana em que Nina estava com Caio, o apartamento parecia grande demais.

No primeiro, trabalhei do sábado de manhã até quase meia-noite apenas para não pensar.

No segundo, percebi o que estava fazendo e fechei o computador às quatro da tarde.

Fiz café.

Li um livro.

Andei pelo bairro.

Ninguém precisava de mim.

No começo, aquela sensação me deixou inquieta.

Depois começou a parecer liberdade.

O processo de divórcio avançava de forma negociada.

Havia pontos difíceis, principalmente sobre o apartamento e a divisão de algumas despesas, mas nenhum de nós queria transformar cada item numa batalha.

A advogada me lembrava constantemente:

— Um acordo razoável é aquele que você consegue sustentar depois que a raiva passar.

Eu guardei essa frase.

Caio fez o mesmo do lado dele.

Concordamos com uma divisão de despesas de Nina proporcional às nossas rendas e com uma rotina de convivência flexível, desde que mudanças fossem combinadas com antecedência.

O apartamento seria colocado à venda quando as condições do financiamento permitissem uma saída melhor para ambos. Até lá, eu arcaria com uma parte maior do uso cotidiano, enquanto as obrigações patrimoniais permaneceriam divididas conforme o acordo.

Nada aconteceu em uma tarde.

Foram semanas de documentos, conversas e ajustes.

Talvez justamente por isso tudo parecesse real.

No trabalho, a pousada exigiu muito mais de mim que o hotel.

Havia orçamento apertado, quartos pequenos e proprietários que mudavam de opinião a cada nova referência que viam na internet.

Aprendi a dizer não.

Aprendi a explicar por que uma decisão precisava permanecer.

Aprendi também a assumir quando uma ideia minha não funcionava e precisava ser refeita.

A mesma firmeza começou a aparecer na minha vida pessoal.

Quando Caio pediu para trocar um fim de semana porque surgira uma reunião de trabalho, respondi:

— Posso trocar desta vez. Mas não quero que sua convivência com Nina volte a ser a primeira coisa sacrificada quando aparece um compromisso.

Ele ficou em silêncio.

— Você tem razão.

E reorganizou o mês seguinte para que aquilo não se repetisse.

Pouco a pouco, nossa relação deixou de ser a de duas pessoas tentando descobrir se o casamento poderia ser salvo.

Viramos dois pais tentando construir um sistema novo.

Ainda havia feridas.

Às vezes Caio me olhava por tempo demais quando entregava Nina.

Às vezes eu via no rosto dele a vontade de dizer alguma coisa.

Mas começamos a respeitar o espaço que existia entre nós.

Cerca de cinco meses depois da separação, tivemos a audiência necessária para concluir as etapas finais do divórcio consensual.

Quando saímos do prédio, Caio ficou parado ao meu lado na calçada.

O céu estava nublado.

Ele segurava uma pasta de documentos contra o peito.

— Então é isso.

— É.

— Agora, oficialmente.

— Sim.

Ele soltou o ar devagar.

— Posso te perguntar uma coisa?

Assenti.

— Em algum momento você pensou em desistir disso?

Pensei antes de responder.

— Pensei muitas vezes se eu estava exagerando. Se deveria esperar mais. Se o fato de você estar tentando significava que eu tinha obrigação de tentar ficar.

— E o que fez você continuar?

Olhei para o movimento dos carros.

— Entender que reconhecer sua mudança não me obrigava a voltar a ser sua esposa.

Caio abaixou a cabeça.

— Eu demorei muito para entender isso.

— Eu também.

Ele estendeu a mão.

Por um momento, achei estranho.

Depois apertei.

Não éramos inimigos.

Também não éramos mais marido e mulher.

Naquela noite, Nina estava comigo.

Ela fez um desenho das duas casas.

Na esquerda, desenhou meu apartamento.

Na direita, o prédio de Caio.

No meio, colocou a si mesma com braços compridos demais alcançando os dois lados.

— Sou eu indo de uma casa para outra.

Beijei sua testa.

— Ficou lindo.

Ela apontou para um pequeno círculo amarelo sobre nós.

— Esse é o sol. Tem um só para as duas casas.

Senti meus olhos arderem.

Guardei o desenho.

Algumas coisas terminavam sem que todo o afeto precisasse terminar junto.

Na semana seguinte, recebi um e-mail da página de arquitetura que havia publicado o hotel meses antes.

Eles preparavam uma edição especial impressa sobre pequenos projetos de hospitalidade e queriam entrevistar profissionais que tinham trabalhado em espaços recentes da região.

Meu projeto estava entre os selecionados.

Li a mensagem duas vezes.

Depois respondi:

“Tenho interesse.”

Foi apenas uma entrevista.

Mas, quando cliquei em enviar, percebi que meu nome continuava caminhando para lugares que eu nunca teria imaginado naquela noite em que sentei diante de um prato de manga escurecendo sobre a mesa.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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