
No terceiro dia de casamento, meu marido levou a secretária para a nossa lua de mel — e eu mandei o divórcio para a ilha
PARTE 1
No terceiro dia depois do nosso casamento, meu marido levou a própria secretária para a ilha onde nós dois deveríamos passar a lua de mel.
Quando Bruno Bittencourt me ligou para avisar que estavam prestes a embarcar, eu apenas respondi, com calma:
— Tá bom.
Do outro lado da linha, porém, ouvi a voz manhosa de Júlia Vieira, a secretária dele, misturada a alguns soluços.
— Sra. Bittencourt, a culpa foi toda minha. Eu comprei as passagens erradas. Por favor, não fique brava com o Bruno. Foi erro meu.
Bruno passou um bom tempo falando baixo com ela, tentando acalmá-la. Só depois voltou a falar comigo, já com um traço de impaciência na voz.
— Lívia, para de fazer tempestade em copo d’água. Você pode pegar o voo de amanhã. Dá no mesmo.
No dia seguinte, porém, a única coisa que chegou àquela ilha no meu lugar foi um acordo de divórcio.
— Você quer mesmo se divorciar por uma coisa tão pequena?
— Quero. Por uma coisa tão pequena.
Só voltei a encontrar Bruno duas semanas depois.
Assim que entrou em casa, ele franziu a testa por hábito e começou a me questionar com aquela expressão fria de sempre.
Parecia que eu não era sua esposa recém-casada, mas uma sócia sentada do outro lado de uma mesa de negociação. Ou, pior, uma funcionária que devia satisfações a ele.
— Lívia, você está há três anos sem trabalhar. Se me deixar, vai viver de quê?
Bruno caminhou até mim e me olhou de cima, tentando esconder a irritação.
— Lívia — disse ele, suavizando um pouco a voz —, se você ainda está ressentida por causa da lua de mel, eu peço desculpas. Você sabe que o diretor do Grupo Horizonte também estava passando uns dias naquela ilha. Eu não voltei antes porque estava tentando fechar aquele contrato. Não fiz isso de propósito para te machucar.
Ele soltou um suspiro e continuou:
— Além disso, a Júlia comprou uma passagem para você no dia seguinte. Foi você que decidiu não ir e começou com essa história de divórcio só para me punir.
Bruno explicou tudo com uma paciência que, na cabeça dele, parecia enorme.
Do começo ao fim, continuava acreditando que o problema era apenas aquela passagem de avião.
Achava até que eu estava fazendo birra.
O que ele não sabia era que, no dia em que descobri que Júlia havia comprado as passagens erradas, ele chegou a me prometer que faria a troca.
Só que, por acaso, eu vi no celular dele uma conversa entre os dois.
Júlia havia escrito:
“Bruno, se você trocar sua passagem, eu não vou conseguir viajar com você.”
Depois veio outra mensagem:
“Eu nunca fiquei tantas horas sozinha num avião. Estou com medo.”
A resposta de Bruno tinha sido curta.
“Não tem problema. Eu vou com você.”
Era impressionante como as palavras dele ainda conseguiam transmitir aquela segurança firme que eu conhecia havia tantos anos.
A única diferença era que, daquela vez, aquela segurança não era para mim.
Eu não tive vontade de discutir.
Apenas me abaixei, abri uma gaveta, peguei outra via do acordo de divórcio, assinei e estendi o papel para ele.
— Já deixei tudo com meu advogado. A divisão dos bens pode ser tratada diretamente entre os advogados.
Fiz uma pequena pausa antes de completar:
— A empresa chegou até onde chegou também graças ao seu esforço. Quanto à parte financeira, você não precisa se preocupar.
Bruno baixou os olhos para o documento e depois voltou a me encarar.
— Lívia, você pensou direito? A gente nem completou um mês de casamento e você já quer o divórcio?
Ele parecia sinceramente incomodado.
— Então por que você quis casar comigo?
Por que eu quis casar?
Na verdade, essa era uma pergunta que Bruno deveria fazer a si mesmo.
Seis meses antes, eu já tinha terminado nosso relacionamento por causa de Júlia.
Naquela época, foi Bruno quem me abraçou chorando e implorou para que eu não fosse embora.
— Eu e a Júlia não temos nada.
— É só uma relação entre chefe e funcionária.
— Naquele dia estava chovendo demais. Eu fiquei com pena dela e só dei uma carona para casa.
— Eu juro que isso nunca mais vai acontecer. Lívia, não me deixa. Eu te amo.
Para provar que estava falando sério, Bruno transferiu Júlia para uma empresa do grupo e colocou um secretário homem no lugar dela.
A mudança virou assunto nos corredores da empresa por algum tempo.
Nos cinco meses seguintes, Bruno fez tudo com uma pressa quase desesperada.
Pedido de casamento.
Noivado.
Casamento.
Ele organizou cada etapa com cuidado e conseguiu me fazer acreditar que nossa vida de casados seria exatamente aquilo que eu tinha imaginado durante tantos anos.
Bonita.
Tranquila.
Doce.
Foi por isso que, duas semanas antes, eu tinha entrado naquele casamento.
Eu admitia que oito anos juntos não podiam ser apagados de uma hora para outra.
Eu também sentia dificuldade em abandonar tudo o que havíamos construído.
Bruno deveria se considerar sortudo.
Todo mundo guarda algum apego pelo passado.
Só que ele já tinha usado essa vantagem uma vez.
Não teria uma segunda.
Olhei ao redor para a casa que eu mesma tinha decorado.
Por alguns minutos, nem soube por onde começar.
Cada objeto parecia abrir uma lembrança diferente.
Um móvel escolhido juntos.
Uma luminária que demorei semanas para encontrar.
Uma cor que eu tinha insistido em colocar naquela parede porque acreditava que veríamos muitos anos passarem ali.
Fiquei sentada em silêncio por algum tempo.
Depois me levantei, coloquei algumas roupas numa mala e fui até a porta.
Bruno estava parado ali.
O rosto continuava frio.
— Você precisa mesmo fazer esse teatro?
Não respondi.
Ele prosseguiu:
— Eu acabei de chegar e você já está saindo. Você só fica satisfeita quando transforma tudo numa confusão, Lívia?
Naquele momento, só senti cansaço.
Bruno ainda acreditava que eu era uma criança usando a ameaça de ir embora para conseguir atenção.
— Pensa o que quiser.
Segurei a alça da mala.
— Só não esquece de assinar o divórcio.
Então passei por ele e fui embora.
A casa que eu havia decorado com tanta dedicação, eu não queria mais.
O relacionamento de oito anos que eu tinha protegido com tanto cuidado, também não.
Bruno achava que eu não sabia que, já no segundo dia depois do casamento, ele tinha se apressado em trazer Júlia de volta para trabalhar diretamente com ele.
Achava que eu nunca tinha visto o volume de mensagens trocadas pelos dois durante o último ano.
Mensagens que havia muito tempo tinham ultrapassado os limites normais entre chefe e secretária.
Ele também achava que eu não sabia que o dia da viagem para a ilha era o aniversário de Júlia.
E que naquela noite os dois tinham ficado na mesma suíte.
Ah, sim.
Havia mais uma coisa.
Naquela noite, Júlia tinha me mandado uma foto de Bruno com marcas de beijos pelo corpo.
A viagem de lua de mel que deveria ter sido minha tinha sido vivida por outra mulher.
E, como se não bastasse, ela praticamente transmitiu tudo em tempo real pelas redes sociais para que eu acompanhasse.
Era uma oportunidade boa demais para me provocar.
Júlia tinha aproveitado muito bem.
Mas tudo bem.
Era apenas um homem que já tinha mudado de coração.
Ela podia ficar com ele.
Só que, aparentemente, Júlia não pretendia me deixar em paz.
Alguns dias depois, encontrei-a por acaso em um hospital.
Assim que me viu, ela abriu um sorriso.
— Lívia? Que coincidência. Nunca imaginei encontrar você aqui. Você e o Bruno andam brigando tanto… ficou doente de raiva?
Enquanto falava, ela levantou de propósito uma folha de ultrassom que carregava na mão.
— O Bruno também exagera. Eu mal descobri a gravidez e ele já insistiu para eu vir fazer exame. Disse que não quer que aconteça nada com o bebê.
Eu não respondi.
Talvez por interpretar meu silêncio como fraqueza, Júlia ganhou ainda mais confiança.
— Ah, e eu também tenho que agradecer a você. Você deixou a casa tão bonita, tão organizada… Depois que me mudei para lá, até meu humor melhorou.
Ergui os olhos.
— Terminou?
Ela pareceu surpresa.
Talvez todas as provocações anteriores às quais eu tinha me recusado a responder tivessem feito Júlia acreditar que estava por cima.
O problema é que eu nunca fui alguém fácil de esmagar.
Eu não tinha ido atrás dela simplesmente porque não queria desperdiçar meu tempo nem me rebaixar.
Mas, se ela fazia tanta questão de vir até mim, eu também não tinha motivo para continuar tolerando.
Dei um tapa no rosto dela.
O estalo ecoou no corredor.
Júlia ficou parada por alguns segundos, completamente atordoada.
Então levou a mão ao rosto.
— Você me bateu?
A voz dela subiu.
— Com que direito?
Olhei para ela sem desviar os olhos.
— Com um direito bem simples. Enquanto a divisão dos bens não estiver resolvida, legalmente eu continuo sendo a esposa do Bruno.
Ela abriu a boca, mas não conseguiu responder.
Eu continuei:
— Você nem conseguiu ocupar oficialmente o lugar de esposa e já está tão orgulhosa de ter se oferecido para um homem casado?
O rosto dela ficou vermelho.
— Toma cuidado. Se eu ficar enojada o bastante para desistir do divórcio, você pode passar o resto da vida sem conseguir ocupar esse lugar. E do mesmo jeito que entrou naquela casa, pode acabar tendo que sair.
Júlia permaneceu imóvel.
Eu olhei para a bolsa de grife que ela carregava e depois para os sapatos caros nos pés dela.
— Ah, outra coisa.
Ela me encarou.
— Essa bolsa que você está usando, esses sapatos… até o dinheiro que você gastou para vir fazer o pré-natal provavelmente saiu do Bruno, não foi?
Inclinei levemente a cabeça.
— Então é melhor lembrar que, enquanto nosso casamento não terminar, esse dinheiro também entra na discussão sobre o patrimônio do casal.
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