Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

A data para a formalização final foi marcada para algumas semanas depois. Até lá, ainda havia providências práticas a cumprir, mas os principais pontos estavam encerrados. Pela primeira vez desde que mandei o acordo de divórcio para a ilha, eu conseguia enxergar uma linha de chegada concreta.

Bruno também parecia perceber isso.

Ele parou de falar em reconciliação.

As mensagens passaram a ser objetivas.

Documentos.

Horários.

Confirmações.

Era quase estranho ver nosso relacionamento de oito anos reduzido a comunicações tão formais, mas havia uma paz inesperada naquela objetividade.

Júlia, por outro lado, parecia viver o momento oposto.

Quanto mais o divórcio se aproximava, mais ela esperava que a vida com Bruno finalmente ganhasse uma forma definida.

Eu não recebia informações diretas sobre os dois, mas certa tarde Bruno pediu para alterar o horário de uma reunião porque precisava acompanhar uma consulta relacionada à gravidez.

Concordei sem problema.

Depois, ele escreveu:

“Obrigado por não complicar.”

A frase me incomodou.

Respondi:

“Cumprir sua responsabilidade com o bebê não é um favor que eu esteja permitindo.”

Ele demorou algum tempo.

“Você tem razão.”

Foi uma resposta simples.

Meses antes, ele provavelmente teria discutido.

Na empresa, eu comecei a assumir uma função um pouco mais ampla dentro da equipe.

Ainda não era uma promoção formal, mas meu gerente passou a me incluir em decisões que antes ficavam com pessoas mais antigas.

Uma tarde, depois de uma reunião, ele comentou:

— Você ficou muito tempo afastada, mas tem boa leitura de problema.

Aquilo me acompanhou até em casa.

Durante três anos, eu tinha permitido que a ausência do mercado virasse uma espécie de sentença sobre quem eu era profissionalmente.

Bruno apenas verbalizara uma insegurança que eu já carregava.

Agora eu começava a substituí-la por fatos novos.

Eu estava trabalhando.

Estava aprendendo.

Estava contribuindo.

Não precisava provar que voltaria exatamente ao lugar de antes.

Podia construir outro.

Nessa mesma semana, fui ao antigo imóvel pela última vez.

Ainda havia alguns documentos pessoais guardados numa gaveta que ninguém tinha encontrado durante minha mudança.

Bruno estava em casa.

Júlia não.

Entrei, peguei o que precisava e caminhei pelos cômodos devagar.

A casa parecia diferente.

Não porque os móveis tivessem mudado muito.

Porque ela já não parecia minha.

Na cozinha, Bruno me observou guardar os papéis na bolsa.

— Você não sente falta daqui?

Pensei antes de responder.

— Do que eu imaginava viver aqui, sim.

Ele engoliu em seco.

— E de mim?

— Às vezes sinto falta de quem eu achava que você era.

A resposta doeu nele.

Eu vi.

Mas era a mais verdadeira que eu tinha.

Bruno apoiou as duas mãos na bancada.

— Eu estraguei tudo.

Não respondi imediatamente.

— Você fez escolhas.

— É a mesma coisa.

— Não exatamente. “Estraguei” parece acidente. Não foi.

Ele assentiu devagar.

— Eu sei.

Houve um silêncio.

Então ele disse:

— A Júlia saiu daqui.

Aquilo me surpreendeu, mas não demonstrei muito.

— Por quê?

— Ela achou que, quando você saiu, as coisas entre nós iam se resolver automaticamente. Que eu ia querer casar com ela assim que o divórcio terminasse.

— E você não quer.

— Eu não sei o que eu quero.

— Então ela fez bem em não esperar dentro da minha antiga casa enquanto você descobre.

Bruno ergueu os olhos.

Talvez esperasse raiva ou satisfação.

Eu não sentia nenhuma das duas.

Júlia tinha feito escolhas que me machucaram.

Eu não precisava gostar dela.

Mas também não precisava desejar que passasse a vida esperando por um homem indeciso.

— Ela alugou um lugar perto da mãe — Bruno explicou. — Eu continuo acompanhando as coisas da gravidez.

— É o mínimo.

Ele concordou.

Antes de eu sair, Bruno perguntou:

— Você odeia ela?

Segurei a bolsa no ombro.

— Já odiei o que ela fez. Hoje eu só não quero ela na minha vida.

— E eu?

Olhei para ele.

— Você ainda está nela por causa do divórcio. Depois disso, vamos descobrir qual distância faz sentido.

Bruno respirou fundo.

Eu me despedi.

Naquela foi a última vez que entrei naquela casa.

Quando a porta se fechou atrás de mim, não olhei para trás.

Poucos dias depois, meu advogado confirmou que a compensação referente ao imóvel estava sendo encaminhada conforme o acordo e que os demais itens estavam sendo executados dentro dos prazos combinados.

Nada aconteceu de uma vez.

Mas aconteceu.

Etapa por etapa.

No trabalho, recebi meu primeiro aumento desde que voltei ao mercado.

Não era enorme.

Mesmo assim, comprei uma garrafa de vinho para comemorar com minhas colegas.

Sentamos no meu apartamento simples, comemos comida pedida pelo celular e rimos até tarde.

Uma delas perguntou por que eu parecia tão feliz com um aumento relativamente pequeno.

Eu pensei antes de responder.

— Porque não é só dinheiro.

Ela não insistiu.

Na manhã seguinte, acordei com dor de cabeça e encontrei três taças ainda sobre a mesa.

Sorri.

Aquele apartamento tinha começado vazio.

Agora tinha livros na estante.

Canecas no armário.

Uma planta torta na janela.

Amigas sentadas no sofá.

Vida.

Na segunda-feira, recebi a confirmação definitiva da data no cartório.

Olhei para o calendário.

Faltavam oito dias.

Oito anos de relacionamento.

Oito dias para a última assinatura.

A coincidência me fez rir sozinha.

Desta vez, porém, eu não estava contando o tempo que tinha passado.

Estava contando o tempo que faltava para seguir em frente oficialmente.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1