Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

PARTE 10

Bruno chegou alguns minutos antes do horário marcado.

Não estava atrasado.

Não trouxe flores.

Não tentou transformar aquele dia numa última cena romântica.

Apenas cumprimentou meu advogado, falou brevemente com o profissional que o acompanhava e depois olhou para mim.

— Oi.

— Oi.

Entramos.

A formalização não teve nada de cinematográfico.

Havia documentos para conferir, orientações para ouvir e assinaturas para fazer.

Os termos patrimoniais que tínhamos negociado ao longo das últimas semanas estavam organizados.

Os prazos continuariam existindo depois dali para o cumprimento de algumas obrigações.

O divórcio não apagaria magicamente toda ligação prática em cinco minutos.

Mas encerraria o casamento.

Quando colocaram os papéis diante de mim, li novamente.

Meu advogado já tinha revisado tudo comigo.

Ainda assim, percorri as linhas devagar.

Bruno esperou em silêncio.

Então peguei a caneta.

Por um instante, lembrei da primeira assinatura que tinha feito naquele acordo em casa.

Naquela época, Bruno estava diante de mim acreditando que eu fazia birra.

Agora ele sabia que não.

Assinei.

A caneta passou para ele.

Bruno ficou olhando o espaço reservado ao próprio nome por alguns segundos.

Depois assinou também.

Nenhum trovão caiu.

Nenhuma música tocou.

Ninguém venceu.

O que aconteceu foi mais simples.

Nosso casamento terminou.

Na saída, ficamos alguns minutos do lado de fora enquanto os advogados conversavam sobre providências finais.

Bruno colocou as mãos nos bolsos.

— Então acabou.

— Acabou.

Ele olhou para a rua.

— Eu imaginava esse momento de outro jeito.

— Eu também.

— Quando a gente casou, quero dizer.

Entendi.

— Eu sei.

Bruno respirou fundo.

— Eu queria pedir desculpas uma última vez.

Não falei nada.

Ele prosseguiu:

— Sem explicar. Sem falar que você entendeu errado. Sem culpar a passagem, o trabalho, o contrato ou qualquer outra coisa.

Eu o encarei.

— Eu te traí antes de admitir para mim mesmo o que estava fazendo. Mentia para você enquanto dizia que estava exagerando. Depois usei os anos que passamos juntos como se eles obrigassem você a ficar.

A voz dele ficou mais baixa.

— E quando você foi embora, eu ainda achei que era você quem estava destruindo tudo.

Durante meses, eu tinha esperado que Bruno entendesse aquilo.

Agora que ele finalmente dizia, a sensação não era de vitória.

Era apenas silêncio.

— Eu sinto muito, Lívia.

Respirei devagar.

— Eu acredito que você sente.

Ele levantou os olhos.

— Isso muda alguma coisa?

Eu sabia o que ele estava perguntando.

— Muda o jeito como eu vou lembrar dessa última conversa.

Ele esperou.

— Mas não muda minha decisão.

Bruno assentiu.

Desta vez, não discutiu.

— Eu entendo.

E talvez entendesse mesmo.

Perguntei:

— E a Júlia?

Ele pareceu surpreso por eu tocar no assunto.

— Está morando perto da mãe. Está procurando trabalho. A gravidez está seguindo.

— E você?

— Estou acompanhando as consultas quando ela permite e organizando o que vai ser necessário para o bebê.

Assenti.

— Faça isso direito.

— Vou fazer.

Ele soltou uma risada pequena, triste.

— Você ainda fala comigo como se eu precisasse que alguém me lembre do óbvio.

— Durante bastante tempo, precisou.

Bruno não negou.

— A gente não vai ficar junto — disse. — Eu e ela.

— Isso é decisão de vocês.

— Eu sei.

— Só não use o que aconteceu comigo para fugir da responsabilidade que você tem com seu filho.

A expressão dele ficou séria.

— Não vou.

Acreditei que, pelo menos naquele momento, ele queria cumprir.

Não era mais minha função garantir.

Os advogados se aproximaram.

Meu advogado confirmou que ainda acompanharíamos o cumprimento dos itens restantes do acordo, mas que a parte principal estava formalizada.

Agradeci.

Bruno fez o mesmo.

Chegou a hora de ir.

Ficamos frente a frente pela última vez como duas pessoas que tinham acabado de deixar de ser marido e mulher.

— Cuida de você — Bruno disse.

— Você também.

Ele hesitou.

— Lívia…

Esperei.

— Eu espero que você seja feliz.

Dessa vez, sorri.

— Eu também.

Não acrescentei “com outra pessoa”.

Minha felicidade já não precisava ser imaginada necessariamente ao lado de alguém.

Virei e caminhei até meu carro.

Quando sentei no banco do motorista, não liguei o motor imediatamente.

Fiquei com as mãos apoiadas no volante.

Então comecei a chorar.

Não era um choro desesperado.

Também não era alívio puro.

Oito anos tinham acabado oficialmente naquele dia.

Eu havia amado Bruno.

Tinha planejado envelhecer com ele.

Tinha decorado uma casa para nós.

Tinha acreditado num casamento que mal chegou a começar.

Nada disso precisava ser negado para que eu pudesse seguir.

Depois de alguns minutos, enxuguei o rosto e fui embora.

Voltei ao escritório.

Minha colega me viu entrando e perguntou:

— Deu tudo certo?

Coloquei a bolsa sobre a mesa.

— Deu.

Ela percebeu meus olhos vermelhos, mas não fez perguntas.

Só empurrou uma xícara de café na minha direção.

— Tem reunião em vinte minutos.

Eu ri.

— Perfeito.

E era.

A vida não tinha preparado uma pausa solene para o fim do meu casamento.

Havia trabalho.

E-mails.

Planilhas.

Gente perguntando coisas.

Trânsito.

Conta para pagar.

Roupa para lavar.

Essa normalidade, que meses antes poderia parecer pequena demais diante do drama que eu vivia, agora era exatamente o que eu queria.

Nos meses seguintes, o restante do acordo foi sendo cumprido.

A parte financeira ligada à casa foi resolvida dentro do prazo acertado.

Outras pendências também foram encerradas.

Quando a última delas terminou, recebi uma mensagem do advogado informando que não restava mais nada relevante a tratar.

Li e arquivei.

Não mandei mensagem para Bruno.

Não havia necessidade.

No trabalho, fui efetivada numa posição de maior responsabilidade.

O aumento foi bom, mas o que mais me deixou feliz foi ouvir meu gerente dizer que confiava em mim para conduzir um projeto sem supervisão constante.

Três anos fora do mercado não tinham desaparecido.

Eu ainda tinha coisas para recuperar.

Mas já não me definia pelo intervalo.

Definia-me pelo que estava fazendo agora.

Também aprendi a viver no meu apartamento sem tratá-lo como uma estação temporária.

Troquei as cortinas.

Comprei uma mesa maior.

Pendurei dois quadros que gostei sem perguntar se combinavam com o gosto de outra pessoa.

Um domingo, enquanto organizava livros na estante, encontrei uma das fotos antigas que tinha decidido guardar.

Bruno e eu aparecíamos muito jovens, sorrindo num restaurante barato.

Olhei para aquela imagem por alguns minutos.

Não rasguei.

Também não coloquei de volta na estante.

Guardei numa caixa.

O passado podia existir sem ocupar a parede da minha sala.

Soube, de vez em quando, notícias indiretas de Bruno.

Nada extraordinário.

Ele continuava trabalhando.

Preparava-se para a chegada do filho.

Júlia seguia a própria vida longe da empresa.

Eu não procurei detalhes.

Não queria saber se eles voltariam.

Não queria saber se algum deles se arrependia.

As consequências das escolhas deles pertenciam a eles.

As minhas, a mim.

Quase um ano depois do dia em que Bruno viajou para aquela ilha sem mim, tirei alguns dias de férias.

Escolhi um lugar tranquilo.

Comprei minha própria passagem.

Reservei meu próprio quarto.

Quando a atendente da companhia aérea perguntou se eu viajava sozinha, respondi:

— Sim.

A palavra saiu leve.

Durante o embarque, pensei por um instante naquela primeira ligação.

Júlia dizendo que tinha comprado a passagem errada.

Bruno dizendo que o voo do dia seguinte dava no mesmo.

Na época, eu acreditava que tinha perdido uma lua de mel.

Só depois entendi que tinha descoberto, da maneira mais dolorosa possível, uma verdade que eu vinha adiando havia meses.

Entrei no avião e sentei perto da janela.

Meu celular vibrou.

Era uma mensagem de uma colega desejando boas férias.

Respondi, desliguei o aparelho e olhei para fora.

Eu não sabia exatamente como seriam os próximos anos.

Não tinha um casamento para me proteger da solidão.

Não tinha um homem prometendo que estaria sempre ali.

Mas tinha algo que, durante muito tempo, eu havia colocado nas mãos de outra pessoa.

A decisão sobre a minha própria vida.

Quando o avião começou a se mover, encostei a cabeça no banco e sorri.

Desta vez, ninguém estava ocupando o meu lugar.

E, mais importante, eu também nunca mais deixaria de ocupá-lo.

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