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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

Sete dias depois de enterrar meu pai, entreguei à minha tia os documentos do imóvel de R$ 5 milhões — naquela noite, ouvi o que ela pretendia fazer

PARTE 1

O imóvel de cerca de R$ 5 milhões que meu pai deixou para mim quase saiu das minhas mãos, e eu não fiz escândalo.

Na manhã seguinte, antes mesmo de o dia clarear por completo, fui direto ao cartório responsável pelo registro do imóvel.

Coloquei meus documentos no balcão e pedi uma certidão atualizada da matrícula e uma nova via dos documentos que pudesse obter legalmente.

Naquela mesma tarde, eu já tinha em mãos tudo o que precisava para proteger meus direitos.

Minha tia ainda nem tinha conseguido fazer o que pretendia.

No dia seguinte, minha prima começou a me ligar como se tivesse perdido a cabeça.

Uma chamada terminava e outra começava. Quando parei de contar, já eram quase cem.

Mas, sete dias antes disso, eu ainda estava sentada na sala do apartamento que meu pai deixara, segurando nas mãos os documentos que ele guardara durante anos.

O cheiro de incenso e das flores do velório ainda parecia preso às paredes. A sala estava cheia de parentes, todos falando em voz baixa, como se aumentar o tom fosse uma falta de respeito. Mesmo assim, vez ou outra, eu percebia os olhos deles desviando para o escritório do meu pai.

Lá dentro havia um pequeno cofre.

Era onde ele guardava os documentos do apartamento de três quartos e duas salas, localizado numa região valorizada de São Paulo. O imóvel valia em torno de R$ 5 milhões e representava praticamente tudo o que meu pai tinha construído ao longo da vida.

Enquanto estava vivo, ele repetira a mesma frase mais de uma vez.

— Clara, não importa em quem você confie. Tome cuidado com este imóvel. Não deixe que ninguém decida por você o que fazer com ele.

Na época, eu achava que meu pai estava apenas sendo excessivamente cauteloso.

Eu tinha vinte e dois anos.

Minha mãe morrera quando eu ainda era pequena, e meu pai me criara sozinho. Nossa família nunca fora especialmente próxima. Havia encontros em datas comemorativas, telefonemas ocasionais e aquela cordialidade que existia mais por obrigação do que por intimidade.

Tudo mudou depois da morte dele.

Minha tia Sônia, irmã do meu pai, foi a primeira a aparecer e também a pessoa que mais permaneceu por perto nos dias seguintes.

Ela recebeu parentes, fez café, falou com a funerária, organizou algumas despesas e ficou responsável até por receber parte das contribuições que familiares e conhecidos entregavam para ajudar com o funeral.

Os vizinhos diziam que eu tinha sorte de ter uma tia tão dedicada.

Naquele sétimo dia, Sônia se aproximou de mim com os olhos avermelhados.

Sentou-se ao meu lado e segurou minhas mãos.

— Clara, seu pai foi embora cedo demais.

Sua voz ficou embargada.

— A pessoa com quem ele mais se preocupava era você.

Eu não respondi.

Sônia olhou para os papéis que estavam sobre minhas pernas.

— Você tem só vinte e dois anos. É muito nova para lidar sozinha com inventário, cartório, banco, imóvel… essas coisas são complicadas até para quem tem experiência.

Ela respirou fundo antes de continuar.

— Deixa os documentos do apartamento comigo por enquanto. Eu guardo para você. Quando sua vida estiver mais organizada, eu devolvo tudo intacto.

Alguns parentes ouviram e imediatamente concordaram.

— É sua tia de sangue, Clara. Ela jamais faria mal a você.

— Seu pai morreu. Agora você precisa aceitar ajuda dos mais velhos.

— Um patrimônio desse tamanho nas mãos de uma menina tão nova pode atrair gente mal-intencionada.

Eu permanecia no sofá com os dedos apertados em torno da pasta transparente onde meu pai guardara tudo.

Até os cantos dos documentos estavam perfeitamente conservados.

Ele sempre fora cuidadoso com aquilo.

Talvez por isso entregar a pasta tenha me provocado uma sensação estranha, como se eu estivesse soltando alguma coisa que ainda me ligava a ele.

Olhei para Sônia.

Ela chorava de maneira convincente.

Durante toda aquela semana, estivera tão presente que eu quase me senti culpada por desconfiar.

Por fim, estendi a pasta.

No instante em que seus dedos tocaram nela, percebi um pequeno tremor em sua mão.

Naquele momento, interpretei como emoção.

Só depois entendi que era ansiedade.

Sônia puxou a pasta imediatamente e a colocou dentro da bolsa preta que estava ao seu lado. O movimento foi rápido demais, como se temesse que eu mudasse de ideia.

— Fica tranquila — disse ela, dando leves tapinhas no dorso da minha mão. — Vou cuidar muito bem disso.

Baixei os olhos.

Do outro lado da sala, perto da varanda, minha prima Júlia soltou uma risadinha.

Foi um som discreto.

Mesmo assim, eu ouvi.

Por volta das dez da noite, os últimos parentes foram embora.

Sônia insistiu em ficar.

— Não vou deixar você passar a noite sozinha neste estado.

Ela se acomodou no sofá com o celular nas mãos enquanto eu fui até a cozinha buscar água.

Quando passei novamente pela sala, a tela do aparelho dela acendeu.

O nome de Júlia apareceu.

A mensagem era curta.

“Conseguiu?”

Vi o polegar da minha tia se mover rapidamente.

“Consegui.”

Parei por menos de um segundo.

Sônia imediatamente virou o celular com a tela para baixo.

— Clara? Ainda não foi dormir?

— Vim beber água.

Ela sorriu.

— Bebe e tenta descansar. Amanhã posso levar você ao banco para vermos o que precisa ser resolvido com o dinheiro que seu pai deixou.

“Resolver.”

A palavra ficou presa na minha cabeça.

Voltei para o quarto e fechei a porta, mas não completamente.

Eu não conseguia dormir.

Em algum momento da madrugada, ouvi um ruído vindo da sala.

Era a voz de Sônia.

Ela estava na varanda, falando ao telefone tão baixo que provavelmente acreditava que eu estivesse dormindo.

— Os documentos estão comigo.

Meu corpo ficou imóvel.

— Amanhã vou ao cartório perguntar o que dá para fazer e se existe alguma maneira de passar o imóvel para outro nome.

Fiquei sentada na beirada da cama.

Minhas mãos começaram a esfriar.

Não ouvi o que disseram do outro lado.

Sônia soltou uma pequena risada.

— Ela é só uma garota. O que ela entende dessas coisas?

Houve outra pausa.

— O pai dela morreu. Quem vai ficar do lado dela agora?

Peguei meu celular devagar.

Abri o gravador.

Do lado de fora do quarto, o relógio da sala marcava cada segundo.

Tic.

Tac.

Tic.

Tac.

Então ouvi novamente a voz dela.

— Para de ter pressa. Enquanto esses documentos estiverem comigo, ela vai ter que nos ouvir.

Fechei os olhos.

E me lembrei da voz do meu pai.

“Clara, não deixe ninguém decidir por você o que fazer com este imóvel.”

Olhei para a faixa estreita de luz que entrava pela fresta da porta e continuei gravando.

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