
PARTE 1
A porta do escritório de Rafael Monteiro estava apenas encostada.
Eu carregava uma porção do macarrão com carne do restaurante de que ele mais gostava e tinha voltado antes da viagem justamente para fazer uma surpresa.
Mas, pela fresta da porta, vi Camila Nunes, a assistente administrativa, na ponta dos pés, ajeitando a gravata torta dele.
O gesto era íntimo demais.
Natural demais.
Natural a ponto de parecer que já havia acontecido muitas outras vezes.
Rafael abaixou os olhos para ela e soltou uma risada baixa. Havia na voz dele uma intimidade pegajosa que, em doze anos de casamento, eu nunca tinha ouvido quando ele falava comigo.
— Está bom, está bom. Para de enrolar, sua danadinha.
Camila respondeu num tom suave:
— Qual é a pressa? Não tem ninguém olhando.
Foi então que ouvi a frase que fez todo o resto desaparecer ao meu redor.
Rafael diminuiu ainda mais a voz, como se estivesse contando algo engraçado.
— Fica tranquila. Até agora, minha esposa nem sabe que os papéis do divórcio já estão prontos há muito tempo.
Por pouco a embalagem que eu segurava não caiu no chão.
Um zumbido tomou meus ouvidos.
Dei um passo para trás, depois outro, com os saltos tocando o mármore do corredor sem produzir praticamente nenhum som.
Apertei tanto a palma da mão que as unhas deixaram quatro marcas claras na pele.
Só quando entrei na escada de emergência e senti o ar frio bater no rosto percebi que ainda conseguia respirar.
Peguei o celular e liguei para meu advogado.
— Dr. Henrique, preciso que faça uma coisa por mim.
Até eu me surpreendi com a calma da minha própria voz.
— Claro, Helena. Pode falar.
— Quero transferir toda a minha participação na Vértice Tecnologia. Os 58%.
Do outro lado da linha, houve um silêncio longo.
— Helena… você tem certeza? É uma participação enorme. Uma operação desse tamanho certamente vai provocar reação entre os investidores e os outros acionistas.
— Tenho.
Minha voz não mudou.
— Encontre alguém disposto a assumir a participação ainda hoje. Rafael não pode saber, e nenhum integrante do conselho deve receber a informação antes da hora necessária.
Ele respirou fundo.
— Entendi. Vou providenciar imediatamente e manter tudo dentro dos procedimentos de confidencialidade possíveis.
Desliguei e encostei as costas na parede fria.
A Vértice Tecnologia tinha sido fundada por mim aos vinte e seis anos, usando praticamente todo o patrimônio que meus pais haviam deixado.
E Rafael…
Rafael era o homem que eu amava havia doze anos.
Doze anos de casamento.
Para mim, terminavam ali.
Na manhã seguinte, às oito e meia, entrei na empresa.
A recepcionista arregalou os olhos assim que me viu.
— Helena? Você não ia voltar da viagem só depois de amanhã?
Sorri.
— Voltei antes.
Enquanto atravessava o corredor, funcionários de vários setores me cumprimentavam.
— Bom dia, Helena.
— Bom dia.
A surpresa estava estampada no rosto de quase todos.
Então Rafael realmente havia informado à empresa uma data falsa para meu retorno.
Tudo para ter tranquilidade ao lado da pequena assistente dele.
A porta do escritório do diretor-geral estava fechada.
Não bati.
Abri diretamente.
Camila estava sentada sobre a mesa de Rafael, balançando as pernas, com um morango entre os dedos.
Ela levou a fruta até a boca dele.
O paletó de Rafael estava jogado sobre o encosto da cadeira. As mangas da camisa estavam dobradas até os cotovelos e havia em seu rosto um sorriso que eu não me lembrava de ter visto durante todos aqueles anos.
O barulho da porta fez os dois olharem para mim.
Assim que me reconheceu, Rafael empalideceu.
Levantou-se depressa e praticamente puxou Camila para fora da mesa.
O movimento atrapalhado chegou a ser ridículo.
— He… Helena? Você já voltou?
Camila ficou ainda mais nervosa. Ao descer da mesa, quase virou o pé e imediatamente abaixou a cabeça, recuando para um canto da sala.
Eu nem olhei para ela.
Caminhei até Rafael e coloquei minha bolsa sobre a mesa.
O impacto seco fez os ombros dele se contraírem.
— O que foi? — perguntei, puxando uma cadeira e cruzando as pernas. — Não ficou feliz em me ver?
— Claro que fiquei! Como você pode pensar isso?
O sorriso dele parecia mais doloroso do que um choro.
— Só fiquei surpreso. Você podia ter avisado que chegaria antes. Eu teria ido buscar você.
Enquanto falava, Rafael lançava olhares insistentes para Camila.
Ela entendeu imediatamente.
Baixou a cabeça e tentou sair.
— Pare.
Não precisei levantar a voz.
Mesmo assim, os pés dela congelaram no lugar.
— Camila, traga um copo de água para mim. Sem gelo.
O rosto dela alternou entre vermelho e pálido. Por instinto, olhou para Rafael antes de responder.
Ele se apressou:
— Helena, você acabou de viajar, deve estar cansada. Eu mesmo posso…
— Eu pedi para a Camila.
Interrompi antes que terminasse.
Olhei para ele.
— O que eu digo agora deixou de ter importância dentro desta empresa?
O escritório ficou tão silencioso que o ruído constante do ar-condicionado parecia mais alto.
Pequenas gotas de suor começaram a aparecer na testa de Rafael.
Ele sabia que eu estava irritada.
O que ele não sabia era até onde ia meu conhecimento.
Muito menos que, enquanto continuava tentando esconder tudo, a estrutura sobre a qual havia construído sua segurança já estava sendo retirada debaixo dos pés dele.
Por fim, Rafael fez um gesto impaciente para Camila.
— Você não ouviu o que a Helena pediu? Vá logo.
Camila mordeu os lábios e saiu quase correndo.
Assim que a porta se fechou, a expressão de Rafael mudou.
Ele contornou a mesa, aproximou-se de mim e tentou segurar minha mão.
— Amor, não entenda errado. Aquilo que você viu…
Retirei a mão.
Os dedos dele agarraram apenas o ar.
— O que eu vi?
Levantei os olhos para ele.
— A Camila realmente é uma assistente muito dedicada. Mesmo durante o expediente, encontra tempo para alimentar o chefe com morangos.
O rosto de Rafael travou.
— Helena, deixa eu explicar. Foi a Camila que…
Ali estava de novo.
Colocando toda a responsabilidade sobre a mulher.
Antes, talvez eu tivesse acreditado.
Mas a frase da noite anterior continuava viva dentro de mim.
“Até agora, minha esposa nem sabe que os papéis do divórcio já estão prontos.”
Aquelas palavras tinham arrancado de uma vez todas as camadas de aparência que ele construíra durante anos.
Levantei-me e caminhei até a parede de vidro.
Do trigésimo segundo andar, eu podia enxergar grande parte do polo tecnológico mais movimentado da cidade.
O edifício-sede da Vértice Tecnologia era o mais alto daquela região.
Anos antes, para garantir aquele terreno, eu havia passado três meses sem conseguir dormir uma única noite inteira.
E Rafael?
Naquela época, ele ficava em casa preparando comida para mim e dizia, preocupado:
— Helena, você não precisa se destruir assim. Eu estou aqui com você.
Eu acreditei.
Acreditei durante doze anos.
Virei-me lentamente.
— Rafael Monteiro.
Ele parou de falar.
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