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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

Dois meses depois, o laudo contábil independente resolveu o último grande ponto financeiro do divórcio.

Nenhum de nós recebeu exatamente tudo o que desejava.

Talvez esse fosse um bom sinal.

Os advogados transformaram as conclusões em uma proposta final de acordo, com divisão dos bens aplicáveis, responsabilidades, prazos e encerramento das pendências relacionadas ao casamento.

Li o documento em casa, sozinha.

Não senti vontade de comemorar.

Também não senti vontade de rasgar as páginas.

Vi apenas o fim de um processo que começara para mim numa fresta de porta.

Na manhã da assinatura, cheguei cedo.

Rafael apareceu alguns minutos depois.

Vestia uma camisa simples e não carregava a antiga postura de diretor da Vértice.

Soube, por ele mesmo, que havia aceitado o novo emprego.

Estava trabalhando numa companhia muito menor, com uma equipe que não sabia quase nada sobre meu nome.

— Estranho — disse ele enquanto esperávamos os advogados. — Pela primeira vez em muitos anos, ninguém me apresenta como seu marido.

— E como é?

Ele pensou.

— Assustador.

Depois sorriu de leve.

— Mas talvez seja bom.

Assenti.

Não havia razão para desejar o fracasso dele.

O sucesso de Rafael também não mudaria o que havia feito comigo.

Nossos caminhos já podiam existir sem competir.

Os advogados chegaram.

Passamos horas revisando cláusulas.

Houve ajustes.

Datas foram corrigidas.

Valores foram conferidos.

Quando finalmente chegamos ao fim, colocaram a caneta diante de mim.

Rafael me observou.

— Posso pedir cinco minutos antes?

Olhei para o Dr. Henrique.

Ele fez um gesto discreto de que ficaria do lado de fora.

Concordei.

Quando ficamos sozinhos, Rafael não se aproximou.

— Eu não quero impedir você de assinar.

— Certo.

— Só não queria que nosso último momento como marido e mulher fosse uma assinatura sem eu dizer uma coisa.

Esperei.

— Eu fui covarde.

Não havia enfeite.

— Não por querer sair do casamento. Talvez casamentos acabem. Talvez pessoas mudem. Fui covarde por decidir tudo sozinho, esconder de você e continuar usando a vida que construímos enquanto preparava minha saída.

Meus olhos arderam, mas não desviei o rosto.

Rafael continuou:

— E fui covarde com a Camila também. Fiz aquela relação parecer uma solução para coisas que eu não tinha coragem de enfrentar em mim mesmo.

Ele respirou fundo.

— Eu sei que pedir desculpas não conserta.

— Não conserta.

— Mas eu sinto muito.

Fiquei em silêncio.

Durante meses, eu imaginara como seria ouvir aquela frase.

Em algumas versões, eu gritava.

Em outras, chorava.

Em outras, perdoava e ele parecia entender que isso significava voltar.

A realidade era muito mais simples.

— Eu acredito que você sente muito — respondi.

Ele levantou os olhos.

— E eu aceito o pedido de desculpas.

A esperança surgiu por um instante no rosto dele.

Levantei a mão antes que ele dissesse qualquer coisa.

— Aceitar não significa voltar.

A esperança desapareceu.

Mas Rafael assentiu.

— Eu sei.

— Não quero passar o resto da minha vida carregando raiva. Só que também não quero passar o resto dela tentando reconstruir uma confiança que você escolheu quebrar enquanto eu ainda achava que estávamos do mesmo lado.

Ele fechou os olhos.

Quando abriu novamente, havia lágrimas.

— Entendo.

Dessa vez, eu acreditava que realmente entendia.

Chamamos os advogados de volta.

Assinamos.

O documento ainda seguiria os trâmites formais necessários até a conclusão jurídica definitiva do divórcio.

Não houve música.

Não houve cena dramática.

Apenas canetas, papéis e quatro pessoas verificando assinaturas.

Quando saímos do edifício, Rafael caminhou comigo até a calçada.

— Então é isso.

— É.

— Cuida de você, Helena.

— Você também.

Ele foi para a direita.

Eu, para a esquerda.

Depois de alguns passos, percebi que não tinha olhado para trás.

Naquela tarde, recebi um e-mail de um dos empreendedores com quem eu vinha conversando.

Ele queria saber se eu teria interesse em participar como investidora e mentora do projeto.

Meses antes, minha resposta teria sido baseada no tamanho da oportunidade.

Naquela tarde, pensei primeiro no tipo de vida que eu queria construir.

Então respondi pedindo uma reunião.

Não era um novo império.

Não era uma tentativa de substituir a Vértice.

Era apenas o primeiro compromisso profissional que eu assumia porque queria, e não porque acreditava que precisava provar alguma coisa.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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