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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

A conclusão definitiva da venda foi comunicada formalmente aos acionistas e à equipe da Vértice numa segunda-feira pela manhã.

Eu participei da reunião geral por escolha própria.

Queria me despedir olhando para as pessoas que haviam construído aquela empresa comigo, não por meio de um comunicado redigido por advogados.

Quando subi ao pequeno palco do auditório, reconheci rostos de diferentes fases da minha vida.

Alguns funcionários estavam comigo desde os primeiros anos.

Outros haviam chegado poucos meses antes.

Respirei fundo.

— Quando comecei a Vértice, aos vinte e seis anos, achei que ser fundadora significava precisar ficar para sempre.

Algumas pessoas sorriram.

— Depois aprendi que construir também significa saber quando entregar.

Eu não falei sobre Rafael.

Não falei sobre Camila.

Não contei detalhes do divórcio.

Aquela despedida pertencia à empresa.

Agradeci ao time, reconheci erros, lembrei conquistas e disse que confiava na capacidade deles de continuar sem mim.

Quando terminei, fui aplaudida de pé.

Não chorei no palco.

Chorei sozinha dentro do carro, vinte minutos depois.

Era uma tristeza limpa.

Sem traição.

Sem raiva.

Apenas despedida.

Naquela mesma semana, Rafael e eu voltamos à mesa de negociação.

Restavam poucos pontos.

Os advogados haviam conseguido organizar quase tudo.

A divergência principal dizia respeito à forma de calcular determinados valores acumulados ao longo do casamento e ligados aos resultados da empresa.

Em outro momento, eu talvez tivesse transformado aquilo em uma batalha de princípios.

Rafael talvez tivesse feito o mesmo.

Mas ambos parecíamos cansados de pagar emocionalmente por cada desacordo.

Pedi um intervalo.

Encontramo-nos numa sala menor, acompanhados apenas pelos advogados principais.

— Eu aceito uma perícia contábil independente sobre esse ponto — falei. — O que ela concluir dentro dos critérios jurídicos aplicáveis, eu não vou tentar distorcer.

Rafael assentiu.

— Eu também.

Foi uma decisão simples.

Mas eliminou semanas de discussão.

Ao fim daquela reunião, o Dr. Henrique comentou comigo no corredor:

— Isso provavelmente acelera bastante o acordo.

— Ótimo.

— Você não quer levar nenhuma questão até o limite?

Pensei um pouco.

— Quero levar até o limite aquilo que protege meus direitos. Não quero levar meu orgulho.

Ele sorriu discretamente.

Rafael ouviu apenas a última frase.

Mais tarde, recebi uma mensagem dele:

“Eu devia ter aprendido isso antes.”

Não respondi.

Não porque estivesse irritada.

Simplesmente não havia nada a acrescentar.

Com a Vértice fora da minha rotina, meus dias ficaram estranhamente silenciosos.

Pela primeira vez em anos, eu tomava café sem abrir relatórios.

Passei a caminhar pela manhã.

Voltei a cozinhar algumas refeições.

Visitei uma amiga que eu adiava havia meses.

Coisas pequenas começaram a ocupar espaços que antes pareciam proibidos.

Também comecei a avaliar projetos de empreendedores que me procuravam.

Sem pressa, sem contrato imediato, sem necessidade de transformar tudo em negócio.

Um deles era uma plataforma voltada para gestão de pequenas empresas.

Outro, uma solução para logística urbana.

Eu fazia perguntas e percebia algo familiar.

Minha curiosidade ainda estava ali.

A diferença era que agora eu podia decidir até onde ir.

Certa tarde, Rafael me ligou.

Atendi porque já não havia motivo para fugir de uma ligação dele.

— Recebi uma proposta de trabalho — disse.

— Que bom.

— É numa empresa menor.

— Isso é um problema?

Ele riu.

— Há alguns meses, eu diria que sim.

Ficamos em silêncio.

— Acho que vou aceitar.

— Então aceite se for o que você quer.

— Você fala como se fosse simples.

— Não é simples. Só não é mais uma decisão minha.

Ele respirou fundo.

— Helena, eu passei anos achando que precisava sair da sua sombra.

Não respondi.

— E, no fim, percebi que muitas vezes fui eu quem escolheu ficar nela porque era confortável.

Aquilo era a primeira vez que ele assumia a própria contradição sem tentar colocar parte da responsabilidade em mim.

— Espero que você faça diferente agora — falei.

— Eu também.

Antes de desligar, ele acrescentou:

— Eu não espero que isso mude nada entre nós.

— Não muda.

— Eu sei.

A conversa terminou.

Não me deixou triste.

Também não me deixou esperançosa.

Deixou apenas a sensação de que, talvez, Rafael finalmente estivesse começando a assumir uma vida que antes tentara construir em torno da minha.

E eu já não precisava acompanhar esse processo.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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