
Meu marido voltou de viagem e empalideceu quando contei que uma jovem de casaco bege havia morrido em um acidente diante do nosso prédio
PARTE 1
Meu marido tinha acabado de voltar de uma viagem a trabalho quando, durante o jantar, eu disse com toda a calma:
— Acabou de acontecer um acidente de carro aqui embaixo. Uma moça morreu na hora.
A mão de Ricardo parou no ar.
Os hashis que ele acabara de pegar ficaram suspensos antes mesmo de tocar no pedaço de lombo agridoce que eu havia colocado no prato.
Por um instante muito curto, o rosto dele perdeu completamente a cor.
Mas logo ele abaixou a cabeça, como se nada tivesse acontecido.
— Acidentes acontecem todos os dias.
A voz continuava aparentemente tranquila, mas a mão apoiada na borda da mesa estava tão apertada que as veias ficaram salientes.
Olhei para aquela mão e, por algum motivo, senti vontade de rir.
Depois de sete anos de casamento, eu acreditava conhecer profundamente aquele homem.
Sabia que ele gostava do lombo agridoce sem deixar a carne fritar demais. Sabia que detestava cebolinha na sopa de ovo. Sabia que sempre tomava um copo de água morna antes de dormir.
E sabia também que, toda vez que mentia, ele passava inconscientemente o polegar sobre a articulação do indicador.
Antes, eu achava essas pequenas manias quase adoráveis.
Naquele momento, só me davam repulsa.
Servi uma tigela de sopa e coloquei diante dele, mantendo o mesmo tom de sempre.
— Só que ela estava usando um corta-vento bege.
As pálpebras de Ricardo estremeceram.
Continuei devagar:
— E tinha margaridas bordadas no punho. Achei bem familiar.
Clac.
Os hashis escaparam da mão dele e bateram sobre a mesa.
Bia, que estava sentada ao lado tomando sopa, levantou a cabeça assustada.
— Papai, o que aconteceu?
Ricardo não respondeu à filha.
Ele ficou me encarando, e de repente seu olhar pareceu tão estranho que por um segundo tive a sensação de estar diante de outra pessoa.
— Você viu direito?
Baixei os olhos e coloquei no prato de Bia um camarão que já havia descascado.
— Não muito. Tem muita gente lá embaixo e a polícia já deve estar chegando. Mas parecia ser bem jovem.
Ricardo se levantou de repente.
A cadeira foi empurrada para trás com tanta pressa que os pés rasparam no chão e produziram um som desagradável.
Ele nem se deu ao trabalho de trocar os chinelos.
Simplesmente correu em direção à porta.
— Aonde você vai?
Ele não se virou.
— Vou descer para olhar.
Sorri de leve.
— Você acabou de dizer que acidentes acontecem todos os dias.
Os passos de Ricardo hesitaram por um segundo.
Então ele saiu e fechou a porta com força.
O apartamento ficou imediatamente silencioso.
Da sala ainda vinha o som do desenho animado que Bia estava assistindo antes do jantar. As vozes alegres dos personagens, misturadas às risadas artificiais da televisão, pareciam estranhamente deslocadas.
Bia segurou a colher pequena e me encarou sem entender.
— Mamãe, o papai não vai mais jantar?
Passei a mão sobre a cabeça dela.
— Não. O papai teve uma coisa urgente para resolver.
— E o lombo? Foi ele que pediu para você fazer.
Olhei para o prato no centro da mesa.
Cada pedaço estava no ponto certo, levemente crocante por fora e macio por dentro. O molho agridoce cobria a carne de maneira uniforme e brilhante, deixando o prato bonito como os de restaurante.
Eu tinha passado sete anos aprendendo a fazer aquilo.
Quando me casei, mal sabia acender o fogão.
Com o tempo, tornei-me capaz de preparar quatro pratos e uma sopa em duas horas.
Tudo porque, certa vez, Ricardo franziu a testa e disse:
— Helena, que tipo de esposa não sabe nem preparar uma refeição decente?
Naquela época, Bia ainda não tinha completado três meses.
A cicatriz da cesárea ainda doía. Meu leite não era suficiente e eu passava noites inteiras acordada tentando acalmar nossa filha.
Mesmo assim, por causa de uma sopa um pouco salgada demais, Ricardo passou três dias de cara fechada comigo.
Durante muito tempo, pensei que casamento significasse suportar.
Achei que, se eu fosse um pouco melhor, um pouco mais gentil e cuidasse ainda mais da casa, algum dia ele perceberia o quanto eu me esforçava.
Só mais tarde entendi.
Algumas pessoas não deixam de perceber o sacrifício dos outros.
Elas percebem perfeitamente.
Apenas passam a considerá-lo uma obrigação.
Peguei um pedaço do lombo e coloquei no prato de Bia.
— Come, filha. A mamãe não vai mais fazer esse prato para o papai.
Ela piscou algumas vezes.
— Por quê?
Sorri.
— Porque a mamãe não gosta mais.
Bia inclinou a cabeça, pensou por alguns segundos e então abriu um sorriso.
— Então depois você faz as coisas que você gosta. Eu como com você.
Meu coração amoleceu.
Baixei a cabeça para esconder a ardência que surgiu no canto dos olhos.
— Combinado.
Do lado de fora, o som de uma sirene de ambulância ficava cada vez mais próximo.
Levantei-me e abri uma pequena fresta da cortina.
A rua em frente ao prédio já estava cercada.
As luzes da polícia, da ambulância e dos bombeiros se misturavam, iluminando a noite.
No meio das pessoas, vi Ricardo.
Ele estava do lado de fora da área isolada, completamente transtornado.
Um policial tentou impedi-lo de avançar.
Não consegui ouvir o que Ricardo disse, mas, logo depois, ele tentou passar pela barreira com tanta insistência que algumas pessoas precisaram segurá-lo.
Se alguém que não conhecesse nossa família presenciasse aquela cena, provavelmente pensaria que a mulher caída no asfalto era esposa dele.
Que pena.
A esposa verdadeira estava alguns andares acima, observando tudo com absoluta calma.
Fechei a cortina.
O celular que estava sobre a mesa vibrou.
Uma mensagem de um número que eu não tinha salvo apareceu na tela.
“Dona Helena, ela morreu. A polícia já começou a verificar o local. A gravação da câmera veicular do carro branco foi preservada.”
Fiquei olhando para aquelas palavras durante vários segundos.
Então respondi apenas:
“Certo.”
Assim que enviei, meu celular começou a tocar.
Era Ricardo.
Não atendi.
Ele ligou pela segunda vez.
Também não atendi.
Só na terceira chamada passei o dedo pela tela.
Do outro lado, ouvi a respiração ofegante dele.
— Helena!
Voltei a me sentar à mesa e coloquei um pedaço de peixe no prato de Bia.
— Estou ouvindo.
— Desce aqui agora.
— A Bia ainda está jantando.
— Eu estou mandando você descer agora!
A voz dele quase virou um grito.
Coloquei os hashis sobre a mesa.
— Ricardo, você está me dando uma ordem?
Do outro lado da linha, houve um silêncio repentino.
Talvez porque, em sete anos, eu nunca tivesse falado com ele daquele jeito.
Eu sempre fora gentil.
Sempre cedera.
Sempre era a primeira a abaixar a cabeça.
Por isso, talvez ele tivesse esquecido que, antes de me tornar esposa dele, eu também fora uma filha amada pelos meus pais.
Eu também tinha temperamento.
Também sentia dor.
Também tinha dignidade.
Depois de um longo silêncio, Ricardo falou entre os dentes:
— Você viu aquela pessoa, não viu?
Respondi com outra pergunta:
— Que pessoa?
A respiração dele ficou ainda mais pesada.
— Eu não sei.
— Não sabe e mesmo assim está tão desesperado?
— Isso aconteceu em frente ao nosso prédio. Só quero que você desça para colaborar com a investigação.
Soltei uma risada quase imperceptível.
— Eu não causei o acidente.
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