
PARTE 8
Voltar para o apartamento foi mais difícil do que sair.
Na primeira noite, Bia dormiu cedo e eu fiquei andando pelos cômodos sem saber o que fazer com o silêncio.
Durante sete anos, quase todos os objetos haviam adquirido alguma ligação com Ricardo.
A poltrona onde ele lia.
A caneca que usava aos domingos.
O espaço ao lado da cama.
Mesmo sabendo que o divórcio era minha escolha, senti saudade.
Aquilo me confundiu por alguns minutos.
Depois compreendi que sentir falta de uma vida não significava querer voltar para ela.
Saudade não era voto.
Era apenas memória.
Comecei a mudar pequenas coisas.
Troquei a posição da mesa da sala.
Levei algumas roupas que quase nunca usava para doação.
Passei meus livros para uma estante maior e distribui melhor minhas coisas pelo armário.
Não fiz uma reforma completa.
Eu só precisava olhar ao redor e reconhecer que também morava ali.
Bia percebeu.
— Mamãe, você colocou suas roupas no lado do papai.
— Agora esse lado está vazio.
Ela pensou por alguns segundos.
— Então cabe mais coisa sua.
Sorri.
— Cabe.
A adaptação dela era minha maior preocupação.
Nos primeiros dias, Bia perguntava quando o pai voltaria definitivamente.
Eu e Ricardo combinamos uma resposta simples e semelhante.
Explicávamos que mamãe e papai continuavam sendo seus pais, mas morariam em casas diferentes.
Não falávamos de traição.
Uma criança não precisava carregar detalhes da falha dos adultos.
Ricardo cumpriu os horários combinados com seriedade.
Buscava Bia, devolvia no horário, participava das reuniões escolares e passou a acompanhar atividades que antes deixava quase inteiramente comigo.
Certa tarde, a professora enviou um aviso sobre um trabalho da escola.
Minha primeira reação foi encaminhar tudo para Ricardo com instruções detalhadas.
Parei antes de enviar.
Escrevi apenas:
“A atividade está na agenda. Você fica com ela hoje.”
Ele respondeu:
“Pode deixar.”
No dia seguinte, Bia voltou com o trabalho pronto.
Não estava perfeito.
Nem precisava.
Aquele pequeno episódio me mostrou o quanto eu também precisava desaprender.
Eu não podia reclamar que Ricardo não assumia responsabilidades e, ao mesmo tempo, controlar cada detalhe quando finalmente as assumia.
A polícia entrou em contato uma última vez para confirmar informações formais relacionadas à noite do acidente.
Depois, o caso deixou de ocupar o centro da nossa rotina.
Havia uma investigação concluindo que não existiam elementos de ação criminosa deliberada.
Para mim, isso encerrava a pergunta que havia pairado sobre aquela primeira noite.
Ricardo entrou em pânico porque conhecia Camila, porque tinha se relacionado com ela e porque sabia que ela pretendia encontrá-lo.
Não porque tivesse provocado fisicamente o acidente.
Era uma verdade suficiente.
Não precisei buscar teorias maiores.
Algum tempo depois, Ricardo me perguntou se eu guardava raiva de Camila.
A pergunta aconteceu quando estávamos esperando Bia sair de uma aula.
— Não penso nela desse jeito — respondi.
— Ela sabia que eu era casado.
— Sabia.
— Então você não sente nada?
— Sinto tristeza por tudo ter chegado a esse ponto.
Ricardo me olhou de lado.
— Você poderia culpá-la.
— Poderia.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
— Mas você era meu marido.
Ele baixou os olhos.
— Eu sei.
— Não vou transferir para uma mulher morta a responsabilidade que era sua comigo.
Ele não respondeu.
Quando Bia saiu correndo pelo portão, a conversa acabou.
Naquela noite, percebi que alguma coisa dentro de mim tinha mudado.
Meses antes, eu imaginava que descobrir todos os detalhes da relação de Ricardo me daria algum tipo de controle.
Queria saber onde se encontravam, o que diziam, quantas vezes ele mentira, quais restaurantes frequentavam.
Agora, aquelas respostas já não pareciam importantes.
Saber mais não mudaria minha decisão.
Eu já conhecia o essencial.
Ele havia criado uma segunda relação enquanto me mantinha dentro de um casamento que dizia estar terminado para outra pessoa.
Esse era o fato.
O restante eram fragmentos.
Meu foco começou a mudar para questões que tinham futuro.
Eu precisava reorganizar minhas próprias finanças, não apenas as do divórcio.
Durante anos, eu administrara a casa, pagamentos e orçamento doméstico, embora nunca tivesse valorizado essa experiência.
Com orientação profissional, comecei a separar o que era gasto pessoal, o que era de Bia e o que fazia parte das despesas compartilhadas.
Também retomei contatos antigos e passei a pensar em voltar gradualmente ao mercado de trabalho.
Antes do casamento, eu havia trabalhado na área administrativa e deixara o emprego quando Bia nasceu.
Não transformei a ideia em uma virada milagrosa.
Eu estava fora havia anos.
Precisaria me atualizar.
Comecei com um curso online e duas conversas com antigas colegas.
Era pouco.
Mas era meu.
Quando contei aos meus pais, minha mãe ficou animada demais.
— Você sempre foi ótima com organização.
Ri.
— Passei anos organizando a vida de todo mundo. Alguma coisa devo ter aprendido.
A primeira entrevista não resultou em emprego.
A segunda também não.
Surpreendentemente, não me senti derrotada.
Eu já não precisava provar que conseguiria reconstruir tudo em uma semana.
Aos poucos bastava.
Ricardo soube que eu estava procurando trabalho porque Bia comentou.
Ele me ligou e disse que poderia ajudar com contatos.
— Obrigada, mas quero tentar sozinha primeiro.
— Não estou tentando controlar.
— Eu sei.
Houve uma pausa.
— Se mudar de ideia, me fala.
— Falo.
A conversa durou menos de dois minutos.
Quando desliguei, fiquei olhando para o celular.
Meses antes, qualquer oferta dele teria vindo acompanhada de uma sensação de dívida.
Dessa vez, eu disse não e ele aceitou.
Era estranho perceber mudanças positivas justamente quando a relação já estava terminando.
Mas talvez algumas pessoas só percebessem a necessidade de mudar quando as velhas estruturas deixavam de protegê-las das próprias consequências.
Alguns dias depois, recebi uma proposta para trabalhar meio período em uma empresa pequena, inicialmente cuidando de rotinas administrativas.
O salário não era extraordinário.
A função também não.
Mas, quando li a mensagem, senti uma alegria que não experimentava havia muito tempo.
Contei primeiro para Bia.
Ela bateu palmas.
— Você vai trabalhar igual ao papai?
— Vou trabalhar do meu jeito.
— E quem vai fazer meu lanche?
Ri.
— Às vezes eu. Às vezes a vovó. Às vezes o papai.
Ela pensou.
— Então todo mundo trabalha.
— Exatamente.
Naquela noite, fiz jantar para nós duas.
Não preparei lombo agridoce.
Escolhi uma massa simples com molho que eu gostava e que Ricardo sempre achava “sem graça”.
Bia comeu duas porções.
— É gostoso.
Olhei para meu prato.
Era apenas massa.
Mas fazia anos que eu não escolhia uma refeição só porque eu queria.
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