
PARTE 3
Na manhã seguinte, acordei antes de Ricardo. Durante anos, aquele horário tinha sido uma sequência automática: preparar o café, separar o uniforme de Bia, verificar a mochila, acordar meu marido e perguntar se ele queria ovos ou pão. Naquele dia, fiz apenas o necessário para mim e para minha filha. Quando Ricardo entrou na cozinha, viu uma xícara, dois pratos e nenhuma porção preparada para ele.
Não fiz aquilo para provocá-lo. Eu simplesmente não tinha mais disposição para manter os pequenos serviços que ele nunca enxergara como gentileza. Ricardo abriu a geladeira, ficou alguns segundos parado e pegou pão por conta própria. Nenhum de nós comentou a mudança, mas ela estava ali, tão clara quanto qualquer discussão.
Depois que Bia saiu para a escola, voltamos para a sala. Ricardo tinha olheiras profundas e parecia não ter dormido. Eu me sentei diante dele e disse que não perguntaria dez vezes. Queria saber por que Camila sabia nosso endereço e por que tinha ido até o prédio justamente no dia em que ele voltara de viagem.
Ricardo começou pela versão mais confortável. Disse que Camila era do setor comercial, que tinham trabalhado juntos em alguns projetos e que ela costumava confiar nele para problemas pessoais. Segundo ele, nas últimas semanas ela ficara “emocionalmente confusa”. Eu ouvi tudo sem interromper, até ele terminar e passar o polegar pelo indicador mais uma vez.
— E qual era o problema pessoal que ela queria discutir com você na porta da nossa casa?
Ele fechou os olhos.
— Helena, não quero falar dela assim agora.
— Eu também não quero falar mal de uma mulher que morreu. Estou perguntando sobre você.
Foi a primeira vez que Ricardo pareceu perceber a diferença.
Ele se levantou, foi até a janela e ficou de costas para mim. Depois admitiu que ele e Camila tinham ultrapassado “alguns limites”. A expressão me fez sentir um cansaço quase físico. Perguntei o que significava ultrapassar limites para um homem casado havia sete anos.
— A gente se envolveu.
Não chorei.
Talvez eu já tivesse chorado demais durante anos por motivos que julgava pequenos: uma crítica, um silêncio prolongado, uma frase cruel dita diante de outras pessoas e depois tratada como brincadeira. Naquela manhã, diante da confirmação que teria me destruído meses antes, eu senti apenas uma espécie de vazio lúcido.
— Há quanto tempo?
— Alguns meses.
— Quantos?
Ele demorou.
— Oito.
Oito meses.
Bia tinha perdido o primeiro dente oito meses antes. Eu me lembrava de Ricardo chegando tarde naquela noite, dizendo que havia reunião. Eu tinha guardado o dentinho da nossa filha em uma caixinha e esperado acordada para mostrar a ele. Quando chegou, olhou por poucos segundos e disse que estava exausto.
Não mencionei essa lembrança. Não precisava transformar cada momento passado em prova. O fato já estava diante de mim.
Perguntei se Camila sabia que ele era casado. Ricardo respondeu que sim. Perguntei se ela sabia que ele tinha uma filha. Sim. Perguntei se ele havia dito que pretendia se separar de mim. Ele abriu a boca, fechou e desviou o olhar.
— O que você prometeu a ela?
Ricardo se irritou.
— Isso importa agora?
— Importa para mim.
Ele passou as mãos pelos cabelos e confessou que dissera a Camila que o casamento estava “acabado havia muito tempo”, que vivíamos juntos apenas por causa de Bia e que, quando encontrasse o momento certo, conversaria comigo.
Por alguns segundos, tive dificuldade para respirar.
Não porque eu ainda esperasse fidelidade dele. Essa parte já tinha sido destruída. O que me atingiu foi descobrir que, enquanto eu tentava melhorar nosso casamento, meu marido contava a outra pessoa uma versão na qual eu já tinha sido praticamente apagada.
— Nosso casamento estava acabado e ninguém me avisou?
Ricardo disse que falara aquelas coisas porque estava confuso. Segundo ele, não pretendia realmente abandonar a família. A frase não me trouxe alívio algum. Na verdade, piorou tudo.
— Então você mentiu para mim para continuar casado e mentiu para ela para continuar com ela.
Ele não respondeu.
Perguntei se Camila tinha ido ao prédio para cobrar a separação. Ricardo confirmou que, durante a viagem, ela exigira uma decisão. Ele pedira que não fosse até nossa casa, mas ela insistira em conversar pessoalmente assim que ele voltasse.
Naquela noite, antes de subir para o apartamento, ele tinha recebido mensagens dela dizendo que estava nas proximidades. Ricardo alegou que não respondeu porque queria entrar em casa, jantar e pensar. Quando ouviu minha descrição do casaco, percebeu que a mulher do acidente poderia ser Camila.
Isso explicava seu pânico.
Não justificava nada.
Perguntei se ele tinha encontrado Camila antes de subir. Ricardo jurou que não. Disse que o carro de aplicativo o deixara na entrada lateral do condomínio e que subira diretamente. A gravação mencionada na mensagem, portanto, poderia confirmar parte daquela história.
Eu não queria transformar aquilo numa investigação criminal particular. Se a polícia precisasse das informações, faria seu trabalho. O meu problema era outro.
— Você ama Camila?
Ricardo levou tempo demais para responder.
— Eu não sei.
Sorri sem alegria.
Durante sete anos, ele sempre tivera respostas rápidas para dizer como eu deveria cozinhar, cuidar da casa, educar Bia, me vestir em reuniões familiares ou gastar dinheiro. Pela primeira vez, quando precisava explicar a própria escolha, só tinha “não sei”.
— E me ama?
— Claro que amo.
— Então você sabe responder rápido quando a resposta beneficia você.
Ele ficou em silêncio.
Naquela tarde, Ricardo recebeu uma ligação da polícia pedindo que comparecesse para prestar esclarecimentos, porque seu número aparecia entre os contatos recentes de Camila e porque havia mensagens indicando que ela pretendia encontrá-lo perto do condomínio. Ele desligou o telefone e ficou sentado sem se mover.
Não parecia apenas medo de ser acusado de alguma coisa.
Parecia vergonha.
Perguntei se precisava de mim. Ele respondeu que não. Antes de sair, aproximou-se e tentou tocar meu braço, mas eu recuei.
— Não faça isso.
Ricardo deixou a mão cair.
— Helena, eu errei. Mas a gente pode conversar quando tudo isso passar.
— Nós estamos conversando agora.
— Você sabe o que eu quero dizer.
Eu sabia.
Ele queria que eu esperasse. Queria que eu não tomasse decisões enquanto ele lidava com o acidente, o choque, a polícia e a própria culpa. Durante anos, eu sempre havia colocado o desconforto dele antes do meu.
Desta vez, não.
Quando ele saiu, liguei para meus pais.
Não contei todos os detalhes pelo telefone. Apenas disse que as coisas entre mim e Ricardo estavam muito ruins e perguntei se eu e Bia poderíamos ficar alguns dias com eles, caso fosse necessário.
Minha mãe não fez perguntas.
— Esta casa também é sua.
Depois da ligação, fiquei alguns minutos olhando para a cozinha. O prato de lombo agridoce da noite anterior ainda estava na geladeira. Eu o retirei, separei o que poderia ser aproveitado e descartei o restante.
Não foi um gesto dramático.
Foi apenas comida.
Mas, enquanto lavava o recipiente, percebi que havia passado anos tentando preservar coisas que já tinham perdido o sentido.
Quando Ricardo voltou da delegacia, encontrou duas malas pequenas perto do sofá.
Ele ficou parado na porta.
— O que é isso?
— Eu e Bia vamos passar alguns dias na casa dos meus pais.
— Você vai levar minha filha embora?
— Nossa filha vai ficar comigo por alguns dias, e você poderá vê-la. Não transforme isso numa acusação que eu não fiz.
Ricardo fechou os olhos.
— Helena, por favor.
Peguei minha bolsa.
— Você teve oito meses para pensar no que estava fazendo.
Dessa vez, quem precisava de tempo era eu.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














