Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

Os meses seguintes não apagaram o que aconteceu.

Eles fizeram algo mais útil.

Colocaram distância.

A morte de Camila deixou de ser a primeira coisa em que eu pensava ao acordar. A traição de Ricardo deixou de ocupar todas as conversas com minha mãe. O divórcio, antes uma palavra enorme, virou um processo com etapas concretas.

Minha nova rotina também ganhou forma.

Eu trabalhava meio período enquanto Bia estava na escola e conseguia organizar o restante do dia sem transformar cada minuto em prova de eficiência.

No começo, eu queria mostrar a mim mesma que poderia fazer tudo sozinha.

Depois percebi que independência não significava recusar ajuda.

Minha mãe às vezes buscava Bia.

Meu pai levava o carro para revisão quando eu não tinha tempo.

Ricardo cuidava da filha nos dias combinados.

Eu não precisava ser indispensável para continuar sendo importante.

Esse pensamento mudou muita coisa.

No processo de divórcio, a maior parte dos pontos foi sendo resolvida por consenso.

Não concordamos imediatamente sobre tudo.

Houve discussões sobre despesas, férias, horários e o uso do apartamento.

Mas as conversas deixaram de ser brigas sobre quem tinha mais razão e passaram a girar em torno de decisões práticas.

A divisão patrimonial seguiu os bens conhecidos e o regime do casamento, com orientação dos advogados.

Não apareceu fortuna escondida.

Não houve conta secreta milagrosa.

A vida que precisávamos dividir era exatamente aquela que havíamos construído.

O apartamento continuaria comigo e Bia por um período acordado, com compensações patrimoniais organizadas conforme a formalização do divórcio.

Ricardo manteve o apartamento alugado.

As despesas da filha foram distribuídas de maneira clara.

Nada parecia triunfal.

E justamente por isso parecia real.

Um domingo, Ricardo trouxe Bia depois do almoço e pediu para conversar alguns minutos.

Ficamos na varanda.

Ele estava diferente.

Não mais abatido como nas primeiras semanas, mas menos seguro de si do que antes.

— Acho que finalmente entendi uma coisa — disse.

Esperei.

— Eu passei muito tempo dizendo que amava vocês porque trabalhava, pagava coisas e voltava para casa.

Não respondi.

— Mas eu tratava tudo o que você fazia como obrigação. E quando eu me sentia frustrado, em vez de conversar, eu criava uma justificativa para procurar fora alguma coisa que nem sabia definir.

Ele respirou fundo.

— Não estou dizendo isso para você voltar.

Aquilo me fez prestar mais atenção.

— Eu sei que não vai voltar.

Ricardo olhou para a rua.

— Só queria dizer que sinto muito.

Durante meses, eu havia imaginado como seria ouvir um pedido de desculpas verdadeiro.

Achei que sentiria alívio.

Ou raiva.

Ou vontade de chorar.

Na realidade, senti uma espécie de serenidade triste.

— Eu acredito que você sente muito.

Ele me olhou.

— Mas?

— Não tem “mas”.

Ricardo pareceu confuso.

— Acreditar no seu arrependimento não muda minha decisão.

Ele assentiu lentamente.

— Entendi.

Dessa vez, acho que realmente entendeu.

Perguntou se eu o odiava.

Pensei alguns segundos.

— Não.

— Isso é bom?

— Para mim, é.

Ele sorriu de leve, triste.

— Justo.

Antes de ir embora, brincou alguns minutos com Bia na sala.

Observei os dois de longe.

A relação deles havia mudado.

Ricardo sabia agora quais professores Bia gostava, qual livro estava lendo e qual colega tinha brigado com ela na semana anterior.

Coisas que antes chegavam até ele sempre através de mim.

A perda do casamento o obrigara a construir uma relação direta com a própria filha.

Eu não sabia se aquilo duraria para sempre.

Mas, naquele momento, era real.

Na semana seguinte, recebi a data da etapa final de formalização do divórcio.

Quando li a mensagem, fiquei sentada diante do computador por alguns minutos.

Não havia dúvida.

Mesmo assim, senti medo.

Encerrar juridicamente um casamento transformava uma decisão emocional em realidade definitiva.

Naquela noite, abri uma caixa onde guardava fotografias antigas.

Havia imagens do nosso casamento, do nascimento de Bia, de viagens, aniversários e domingos comuns.

Eu não rasguei nenhuma.

Aquelas lembranças não eram falsas só porque o casamento terminou mal.

Eu tinha sido feliz em alguns daqueles dias.

Ricardo também.

Nosso erro não precisava apagar cada momento anterior para justificar o fim.

Fechei a caixa e guardei no alto do armário.

No dia seguinte, Bia perguntou por que eu tinha tirado o álbum.

— Estava lembrando de algumas coisas.

— Você e o papai eram felizes?

A pergunta me pegou desprevenida.

Sentei ao lado dela.

— Às vezes, sim.

— E agora?

— Agora a mamãe e o papai são mais felizes morando separados.

Ela franziu a testa.

— Então vocês não vão voltar?

Hesitei apenas para escolher palavras adequadas.

— Não vamos.

Bia ficou em silêncio.

Depois encostou a cabeça no meu ombro.

— Mas vocês dois vão continuar indo na minha apresentação?

Apertei-a contra mim.

— Vamos.

— Então tá.

Para ela, talvez aquilo fosse o essencial.

Naquela semana, meu trabalho também mudou.

A empresa me ofereceu ampliar um pouco a carga horária.

Não era promoção espetacular.

Mas significava que estavam satisfeitos comigo.

Aceitei com cuidado, ajustando a rotina de Bia antes.

Quando contei aos meus pais, meu pai ergueu um copo de suco.

— À nova fase.

Minha mãe riu.

— Não pressiona a menina.

Eu também ri.

— Pode brindar. Dessa vez eu gosto da frase.

Na véspera da formalização final, Ricardo me mandou uma única mensagem:

“Obrigado por não usar a Bia contra mim.”

Olhei para a tela.

Respondi:

“Ela nunca foi uma arma.”

Alguns minutos depois, ele escreveu:

“Eu sei.”

Nenhum de nós acrescentou mais nada.

Naquela noite, deitei e fiquei olhando para o teto.

Lembrei da primeira noite.

Do prato de lombo.

Do casaco bege.

Da cadeira raspando no chão.

Da maneira como Ricardo saiu correndo para a rua.

Na época, eu acreditava que aquele momento tinha destruído minha vida.

Agora entendia que ele apenas havia exposto uma rachadura que já existia.

A dor fora real.

A perda também.

Mas, pela primeira vez em muitos anos, o dia seguinte não dependia do humor de Ricardo, das necessidades de Ricardo ou das decisões de Ricardo.

O dia seguinte era meu também.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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