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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

PARTE 5

Nos dias seguintes, minha vida deixou de girar em torno da pergunta “por que Ricardo fez isso?” e passou a girar em torno de perguntas mais úteis. Onde Bia ficaria durante a semana? Quanto custavam nossas despesas mensais de verdade? Quais decisões eu vinha delegando simplesmente porque era mais fácil evitar discussões?

Descobri que a resposta para muitas delas estava diante de mim havia anos.

Eu conhecia o valor da escola de Bia, do condomínio, do mercado, do plano de saúde e das contas domésticas. Também sabia quanto entrava na conta usada para a casa. O que eu nunca tinha feito era olhar tudo junto e perceber quanto trabalho havia por trás da vida que Ricardo chamava de “natural”.

A doutora Renata me ajudou a transformar aquele emaranhado em informações concretas. Ela explicou que, se eu decidisse pelo divórcio, questões relacionadas à filha, despesas, convivência e patrimônio precisariam ser tratadas com calma e formalidade. Nada seria resolvido por uma frase dita durante uma briga.

Isso me tranquilizou.

Eu já não queria soluções dramáticas.

Queria soluções duráveis.

Ricardo continuava mandando mensagens diariamente. Algumas eram sobre Bia e eu respondia imediatamente. Outras eram sobre nós dois e eu respondia apenas quando havia algo realmente novo.

No começo, ele escrevia textos enormes.

Dizia que estava arrependido, que tinha sido covarde, que perder Camila daquela forma o fizera perceber a dimensão das decisões que vinha evitando. Também dizia que não suportaria perder a família.

Uma noite, respondi:

“Você não perdeu sua família porque uma mulher morreu. Nosso casamento entrou em crise porque você escolheu mentir durante oito meses.”

Ele não escreveu mais nada até a manhã seguinte.

Aquilo era importante para mim.

Eu me recusava a permitir que a tragédia de Camila reescrevesse a origem do nosso problema. O acidente era terrível, mas a traição já existia antes dele.

Quando Ricardo veio buscar Bia no sábado, pediu alguns minutos para conversar.

Fomos até uma cafeteria perto da casa dos meus pais enquanto meu pai brincava com a neta.

Ricardo parecia mais calmo. Disse que havia procurado acompanhamento psicológico porque não estava conseguindo dormir e porque percebeu que passara anos evitando qualquer desconforto.

Não o parabenizei.

Também não desprezei a decisão.

— Espero que faça bem para você.

Ele pareceu decepcionado com a neutralidade.

— Só isso?

— O que você esperava?

— Não sei. Talvez que você entendesse que estou tentando.

— Eu entendo. Mas tentar melhorar não apaga o que aconteceu nem cria uma obrigação para eu voltar.

Ricardo abaixou os olhos.

Pela primeira vez, não discutiu.

Depois contou que a empresa também havia sido informada sobre a relação porque a polícia perguntara sobre o vínculo entre ele e Camila. Não havia uma acusação criminal contra ele, mas o setor de recursos humanos queria entender se existira conflito profissional entre os dois.

Camila não respondia diretamente a Ricardo, e ele não era superior hierárquico dela. Mesmo assim, a situação se tornara conhecida no ambiente de trabalho e ele precisava lidar com perguntas e olhares.

Eu não senti satisfação.

Aquele era o tipo de consequência que ele teria de administrar.

Não precisava de mim para aumentar nem diminuir.

— Você acha que eu mereço isso — ele disse.

— Não estou pensando em castigo.

Ele ergueu a cabeça.

— Então no que está pensando?

— Em não viver mais em função das consequências das suas escolhas.

Foi talvez a frase mais verdadeira que eu tinha dito até então.

Quando nos casamos, eu confundia parceria com absorção. Se Ricardo estava estressado, eu precisava facilitar tudo. Se ele brigava com alguém, eu tentava acalmá-lo. Se chegava tarde, eu mantinha a comida quente.

Com o tempo, eu tinha assumido como minha responsabilidade impedir que ele sentisse desconforto.

Agora ele enfrentava um desconforto enorme.

E eu não correria para salvá-lo.

Na semana seguinte, voltei ao apartamento por algumas horas para buscar roupas de Bia e alguns documentos.

Ricardo não estava.

Entrei na cozinha e parei diante do armário onde guardava os utensílios.

Tudo parecia exatamente igual.

A panela que eu usava para a sopa de ovo estava no mesmo lugar. A frigideira preferida dele estava limpa. Os potes de tempero estavam organizados pelas etiquetas que eu mesma havia feito.

Por anos, aquela cozinha tinha sido quase meu território obrigatório.

Naquele dia, pareceu apenas um cômodo.

Peguei o que precisava e fui até o quarto.

No armário, encontrei minhas roupas comprimidas de um lado, enquanto os ternos de Ricardo ocupavam a maior parte do espaço.

Aquilo me fez rir baixinho.

Não havia maldade no arranjo.

Eu mesma fizera daquele jeito.

Pouco a pouco, sem perceber, fui ocupando menos espaço.

Não apenas no guarda-roupa.

Quando Ricardo ligou naquela noite, avisei que havia passado no apartamento.

— Você levou mais coisas?

— Algumas.

— Vai ficar definitivamente com seus pais?

— Ainda estou decidindo.

Ele respirou fundo.

— Eu queria que você voltasse.

— Eu sei.

— A casa parece vazia.

Fechei os olhos.

Meses antes, ouvir aquilo talvez tivesse me comovido.

Agora, eu precisava saber se ele sentia falta de mim ou apenas da vida organizada ao redor dele.

— O que você sente falta, Ricardo?

— De você.

— De quê exatamente?

Ele demorou.

Depois respondeu que sentia falta de conversar comigo à noite, de ouvir Bia correndo pelo corredor, do café da manhã, das refeições, de chegar e encontrar alguém esperando.

Percebi que quase tudo o que descrevia eram coisas que eu fazia.

— Você sente falta de uma rotina.

— Não é só isso.

— Talvez não. Mas você vai precisar descobrir a diferença.

Alguns dias depois, tomei minha primeira decisão realmente concreta.

Disse à doutora Renata que queria iniciar o processo de separação formal.

Ainda não pedi que ela protocolasse imediatamente o divórcio. Queria primeiro organizar uma proposta sobre a rotina de Bia, despesas e uso temporário do apartamento.

Mas deixei de tratar uma possível separação como ameaça.

Passei a tratá-la como caminho real.

Quando contei isso a Ricardo, ele ficou em silêncio por muito tempo.

— Então você já decidiu?

— Decidi que não vou voltar para casa fingindo que podemos retomar de onde paramos.

— Isso não responde.

— É a resposta que tenho agora.

Ricardo fechou os olhos.

— Eu destruí tudo.

— Você feriu muita coisa.

Ele me encarou.

— Não é a mesma coisa?

Balancei a cabeça.

— Não. Porque minha vida não terminou junto com o nosso casamento.

Foi a primeira vez que consegui dizer aquelas palavras sem sentir medo.

Nosso casamento.

Como algo que poderia acabar.

E eu ainda continuar existindo.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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