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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

PARTE 4

Meus pais moravam a menos de uma hora dali. Quando cheguei com Bia, minha mãe percebeu imediatamente que havia algo errado, mas não perguntou na frente da neta. Meu pai pegou as malas, levou-as para o quarto onde eu costumava dormir antes de me casar e começou a conversar com Bia sobre qualquer coisa que pudesse distraí-la.

Só depois que ela adormeceu é que contei.

Não detalhei cada mensagem que eu imaginava, cada mentira que Ricardo poderia ter dito ou cada momento dos últimos meses que agora parecia diferente. Falei apenas do que estava confirmado: havia oito meses ele mantinha um relacionamento com uma colega, tinha dito a ela que nosso casamento estava praticamente terminado e a mulher morrera em um acidente diante do nosso prédio quando tentava encontrá-lo.

Minha mãe chorou em silêncio.

Meu pai permaneceu vários minutos com as mãos cruzadas sobre a mesa. Quando finalmente falou, sua primeira pergunta não foi se eu pretendia me divorciar.

— O que você quer fazer agora?

A pergunta me atingiu de maneira inesperada.

Nos últimos anos, quase ninguém me perguntava o que eu queria. As perguntas eram sempre diferentes: o que Ricardo preferia comer, a que horas ele chegaria, se Bia tinha feito a tarefa, se a roupa estava lavada, se eu poderia ajudar em alguma coisa.

— Ainda não sei — respondi.

Meu pai assentiu.

— Então não precisa saber hoje.

Na manhã seguinte, Ricardo pediu para ver Bia. Não me opus. Combinei que ele poderia buscá-la depois do almoço e trazê-la antes do jantar.

Quando chegou, ele parecia mais abatido. Abraçou a filha por bastante tempo e, quando ela correu para buscar um brinquedo, aproximou-se de mim.

— A polícia viu a gravação.

Esperei.

— Eu não estava com Camila quando aconteceu.

— Eu nunca disse que estava.

— Mas você pensou.

— Pensei muitas coisas porque você passou meses mentindo.

Ricardo respirou fundo. Disse que a câmera de um carro estacionado havia registrado parte do acidente e que outra câmera comercial completava o ângulo. Camila estava sozinha na calçada pouco antes de atravessar a rua; não havia ninguém empurrando, perseguindo ou discutindo com ela.

O motorista do veículo também estava sendo ouvido, e a investigação ainda seguiria os procedimentos normais.

Eu não senti alívio por Ricardo.

Senti alívio porque a morte de Camila não parecia esconder uma violência ainda maior.

— Ela estava mexendo no celular — acrescentou Ricardo. — A polícia perguntou sobre as mensagens.

— E o que você respondeu?

Ele hesitou.

— A verdade.

— Qual delas?

Ricardo abaixou a cabeça.

Disse que, pouco antes do acidente, Camila havia mandado mensagens exigindo que ele descesse para conversar. Ele não respondeu. A última mensagem dizia que ela estava cansada de esperar por uma decisão que nunca chegava.

Não pedi para ver.

Não queria transformar as últimas palavras de uma mulher morta em uma arma para usar contra meu marido.

O suficiente era saber que Ricardo havia alimentado uma promessa durante meses e, quando a consequência apareceu diante da porta de casa, tentou fugir dela.

— Ela acreditava que você ia se separar de mim?

— Sim.

— E você pretendia?

— Não sei.

A mesma resposta novamente.

Dessa vez, não senti raiva.

Senti clareza.

— Então você queria manter as duas possibilidades abertas.

Ricardo levantou os olhos.

— Não foi assim.

— Foi exatamente assim. Você queria uma família em casa e outra vida quando saía pela porta. Não precisava escolher enquanto nós duas aceitássemos versões diferentes de você.

Ele tentou dizer que estava arrependido. Eu perguntei se o arrependimento tinha começado antes ou depois da morte de Camila.

Ricardo não conseguiu responder.

Bia voltou correndo para a sala com uma boneca debaixo do braço, e a conversa terminou.

Durante as horas em que ela ficou com o pai, procurei uma advogada de família indicada por uma conhecida da minha mãe. Não marquei uma batalha. Marquei uma consulta.

Eu precisava entender minha situação antes de decidir.

A advogada, doutora Renata, não me prometeu soluções instantâneas. Perguntou há quanto tempo éramos casados, qual era nosso regime de bens, onde Bia morava, como as despesas eram pagas e quais documentos eu tinha acesso.

Respondi o que sabia.

Ela me orientou a reunir documentos básicos, extratos das contas às quais eu já tinha acesso, comprovantes das despesas familiares e informações sobre os bens que conhecíamos em conjunto.

— Não faça movimentos impulsivos com dinheiro — ela avisou. — Primeiro entenda o que existe e quais são seus direitos.

Gostei daquela frase.

Entenda primeiro.

Decida depois.

Durante anos, Ricardo havia me convencido de que eu não precisava acompanhar detalhes financeiros porque ele “cuidava de tudo”. Eu tinha acesso à conta doméstica e sabia das despesas do apartamento, da escola e das compras, mas deixava a maior parte do planejamento nas mãos dele.

Naquela noite, comecei a organizar o que já estava disponível para mim.

Não procurei senhas escondidas.

Não invadi computador.

Não precisei.

Havia documentos do nosso próprio casamento que eu simplesmente nunca havia parado para ler com atenção.

Quando Ricardo trouxe Bia de volta, pediu para conversar comigo no portão.

— Você falou com advogado?

A pergunta me surpreendeu.

— Por quê?

— Porque você está diferente.

— Eu deveria continuar igual?

Ele passou a mão pelo rosto.

— Helena, eu sei que você está com raiva.

— Não é só raiva.

— Então o que você quer?

Pensei na pergunta que meu pai fizera.

Dessa vez, eu tinha uma primeira resposta.

— Quero parar de viver como se a única forma de manter nossa família fosse eu aceitar tudo.

Ricardo ficou em silêncio.

— Isso significa divórcio?

— Significa que estou considerando seriamente essa possibilidade.

Ele empalideceu.

Foi quase a mesma expressão que fizera quando mencionei o casaco bege.

A diferença era que, agora, eu não estava falando de uma tragédia que havia acontecido por acaso.

Estava falando de uma consequência criada pelas escolhas dele.

Ricardo tentou argumentar que Bia precisava de nós dois. Concordei imediatamente.

— Ela precisa do pai e da mãe. Isso não significa que precisa ver a mãe aceitar um casamento em que foi enganada.

— Eu posso mudar.

— Pode.

Ele pareceu se agarrar à palavra.

— Então me deixa provar.

Balancei a cabeça.

— Você pode mudar porque quer ser uma pessoa diferente. Não faça disso uma negociação para eu ficar.

Naquela noite, depois que todos dormiram, sentei na antiga escrivaninha do meu quarto e abri um caderno.

Escrevi três coisas que eu precisava resolver: minha situação financeira, a rotina de Bia e o que eu realmente queria do casamento.

Nenhuma delas dependia de descobrir mais uma mensagem, mais uma mentira ou mais um detalhe sobre Camila.

Pela primeira vez desde o acidente, compreendi que eu não precisava saber tudo sobre a traição para reconhecer o que ela já tinha destruído.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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