
Três dias depois do divórcio, meu ex ligou 36 vezes para pedir que eu doasse medula à mulher que acabou com nosso casamento
PARTE 1
Na trigésima quinta ligação, eu estava em uma praia de Maceió, com os pés afundados na areia branca e o mar azul se estendendo diante de mim. O celular vibrava dentro da bolsa com tanta insistência que parecia querer saltar para fora.
Baixei os olhos para a tela.
Daniel Lima.
Meu ex-marido.
O mesmo homem que, três dias antes, havia assinado comigo os papéis do divórcio no cartório.
Recusei a chamada.
O celular ficou em silêncio por apenas três segundos.
Então veio a trigésima sexta ligação.
Dessa vez, atendi.
— Natália, onde você está?
A voz dele estava apressada, carregada de um desespero que eu nunca tinha ouvido durante os três anos do nosso casamento. Daniel sempre fora controlado, tranquilo até demais. No dia em que assinamos o divórcio, sua mão sequer tremeu ao segurar a caneta.
— Maceió.
— Você ficou louca? Volte para São Paulo agora.
Eu ri, sem humor.
— Daniel, nós nos divorciamos.
Houve uma breve pausa.
— A Joana está mal.
Joana Rocha.
Ao ouvir aquele nome, até a brisa do mar pareceu mais fria.
Joana tinha sido minha colega de quarto na faculdade, minha melhor amiga e, mais tarde, a mulher que esteve no centro do fim do meu casamento.
— O que aconteceu com ela?
— Ela precisa de um transplante de medula óssea. — Daniel hesitou por um instante. — Os exames já saíram. Não encontraram um doador compatível no registro nacional.
Naquele momento, finalmente entendi por que ele tinha me ligado trinta e seis vezes.
— Você quer que eu volte para doar medula para ela?
Do outro lado, houve dois segundos de silêncio.
— Natália, eu sei que estou pedindo demais. Mas ela pode morrer.
Fiquei parada à beira-mar, descalça, sentindo a água avançar sobre meus tornozelos enquanto segurava o celular junto ao ouvido. Milhares de quilômetros nos separavam, mas eu conseguia ouvir com clareza a respiração daquele homem.
— Daniel, sabe o que existe de mais absurdo nisso tudo?
— O quê?
— Você me liga trinta e seis vezes não porque se arrependeu do divórcio, não porque sentiu minha falta, mas porque sua nova namorada precisa da minha medula.
Desliguei.
Desliguei o aparelho.
E o coloquei de volta dentro da bolsa de praia.
Fiquei diante do mar por um longo tempo.
As ondas chegavam, cobriam meus pés e recuavam novamente.
Mesmo com o celular desligado, eu ainda tinha a impressão de senti-lo vibrar. Talvez fosse apenas reflexo. Durante três anos de casamento, Daniel nunca havia me telefonado tantas vezes. Quando começou a se aproximar de Joana, no entanto, disposição nunca lhe faltou. Houve uma época em que chegava a publicar oito atualizações por dia nas redes sociais.
Abaixei-me e retirei outro celular da bolsa.
Sim.
Eu tinha dois celulares.
Na agenda daquele aparelho não havia Daniel, Joana nem qualquer pessoa da família Souza.
Disquei um número.
— Marina.
— Presidente Natália. — Ela atendeu quase imediatamente, com a voz objetiva de sempre. — Como estão as coisas em Maceió?
— Ótimas. A comida está excelente.
— Enquanto isso, a proposta de investimento do Grupo Carvalho continua esperando sua assinatura, e o relatório de avaliação do terreno de Vale Verde chegou hoje…
— Deixe os dois por enquanto. Preciso que investigue uma coisa para mim.
— Pode falar.
— Há uma paciente internada no Hospital Santa Augusta chamada Joana Rocha. Ela precisa de um transplante de medula. Quero as informações médicas que podem ser obtidas oficialmente sobre o caso e o andamento da busca por doador.
Marina ficou em silêncio por um segundo.
— Joana Rocha? Aquela Joana?
— Ela mesma.
— Entendi.
Encerrei a ligação e guardei o segundo aparelho.
Fiquei no hotel até o meio-dia seguinte. Depois fiz o check-out e comprei uma passagem para o voo da tarde.
Não por causa das trinta e seis ligações de Daniel.
Eu tinha negócios para resolver.
Quando meu avião pousou em São Paulo, já passava das sete da noite.
Assim que saí do terminal, vi um Maybach preto parado na área de desembarque. Marina estava ao lado do carro, usando um terno escuro e segurando uma pasta.
— Presidente Natália.
Entrei.
— Conseguiu verificar a situação de Joana?
— Sim. — Marina me entregou a pasta. — O diagnóstico registrado é de uma doença grave da medula, e a equipe realmente considera necessário o transplante. Ela está internada na hematologia do Hospital Santa Augusta. O médico responsável é o doutor Renato Alves.
Folheei algumas páginas.
— E quanto à compatibilidade?
— Até agora não foi localizado um doador adequado no registro. Mas há uma observação recomendando a realização de testes em familiares.
Fechei a pasta.
— Interessante.
Marina me olhou de lado.
— Presidente, a senhora não está pensando em realmente…
— Estou pensando em ir para a empresa. A situação de Joana pode esperar.
O carro atravessou as avenidas iluminadas de São Paulo e parou diante de um edifício comercial no coração da região empresarial.
O quadragésimo sexto andar ainda estava completamente iluminado.
O prédio era meu.
Troquei os sapatos dentro do elevador, coloquei os saltos e ajeitei o cabelo. Assim que as portas se abriram, os funcionários que ainda estavam no escritório se levantaram.
— Boa noite, presidente Natália.
Assenti e segui diretamente para minha sala.
Marina entrou atrás de mim e fechou a porta.
— O relatório de Vale Verde.
Ela colocou sobre a mesa uma pasta grossa.
— A avaliação veio em R$ 1,2 bilhão, cerca de trinta por cento abaixo do que esperávamos.
Abri o documento.
— Quem está pressionando o preço para baixo?
— O Grupo Carvalho.
Passei mais algumas páginas.
— O que Sérgio Carvalho está tentando fazer?
— Ainda não sabemos com certeza. Mas nas últimas semanas ele se aproximou bastante do Grupo Lima.
Minha mão parou sobre o papel.
— Grupo Lima? A família de Daniel?
— Exatamente. No mês passado, o pai dele entrou como parceiro em uma proposta conjunta para um novo projeto do Grupo Carvalho.
Recostei-me na cadeira.
Havia três dias que eu e a família Lima não tínhamos mais qualquer vínculo pessoal.
Mas negócios nunca dependeram de sentimentos.
— Marque uma reunião com Sérgio Carvalho para amanhã à tarde.
— Certo. Há mais uma coisa.
Marina hesitou.
Olhei para ela.
— O quê?
— Sua mãe ligou para a empresa.
— O que ela queria?
— Pediu que a senhora fosse jantar em casa. Além disso, o casamento da sua prima Camila Souza foi confirmado para o dia doze do próximo mês. Toda a família foi convidada.
Peguei a caneta sobre a mesa e assinei a capa do relatório de Vale Verde.
— Diga à minha mãe que posso ir ao jantar. Ao casamento da Camila, não vou.
— Entendido.
Marina chegou até a porta, mas parou antes de sair.
— Presidente, há uma coisa que eu não sei se deveria comentar.
— Comente.
— A família Lima ainda não tornou o divórcio público. Para quem está de fora, vocês continuam casados. Parece que Daniel tem algum motivo para manter as coisas assim.
Coloquei a caneta sobre a mesa.
— O que Daniel quer não importa mais. O que importa é o que eu quero.
Naquela noite, permaneci na empresa até quase onze horas.
Depois da última reunião, voltei para meu apartamento, tomei banho e fui para a cama.
Com as luzes apagadas, as janelas do sexagésimo terceiro andar mostravam uma enorme extensão da cidade.
Meu celular emitiu um som.
Mensagem de Daniel.
“Natália, eu sei que você voltou para São Paulo. Podemos nos encontrar amanhã? Não é por causa da Joana.”
Fiquei encarando a tela por quase dez segundos.
Durante três anos de casamento, ele sempre me chamou simplesmente de Natália.
Três dias depois do divórcio, de repente sua mensagem parecia mais cuidadosa.
Não respondi.
Deixei o celular ao lado do travesseiro e fechei os olhos.
Na manhã seguinte, Marina telefonou pontualmente.
— Presidente, o secretário de Sérgio Carvalho confirmou. Três da tarde, na empresa dele. E houve uma novidade no Hospital Santa Augusta.
— O que aconteceu?
— Daniel foi ao hospital esta manhã. E levou jornalistas.
Endireitei-me na cama.
— Jornalistas?
— Tudo indica que estão tentando criar pressão pública. A narrativa seria algo como “ex-esposa se recusa a salvar uma vida”.
Levantei-me e servi um copo de água.
— Ele perdeu a cabeça?
— Talvez a iniciativa tenha vindo de Joana. Ela tem mais de oitocentos mil seguidores nas redes sociais. Ontem publicou uma frase dizendo que “há alguém que poderia me salvar, mas não quer”. Os comentários explodiram.
Tomei um gole de água e coloquei o copo sobre a bancada.
— Peça ao jurídico para preparar um comunicado.
Marina aguardou.
— Publicamos agora?
— Não.
Olhei pela janela para a cidade já desperta.
— Preparem tudo. Mas segurem por enquanto.
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