
PARTE 3
Sérgio Carvalho ficou alguns segundos em silêncio antes de responder. Ele era conhecido por escolher cada palavra como se estivesse assinando um contrato, e naquele momento não foi diferente. Disse que, desde o início das conversas sobre Vale Verde, o Grupo Lima havia apresentado a proximidade comigo como uma vantagem para a formação do consórcio que pretendia adquirir e desenvolver a área.
Não significava, segundo ele, que Daniel ou o pai controlassem minhas decisões. Mas significava que o Grupo Carvalho acreditava que existia uma ponte familiar capaz de facilitar a negociação, reduzir resistência e, principalmente, evitar que outros investidores entrassem na disputa. A diferença entre uma suposição conveniente e uma estratégia comercial mal calculada era pequena demais para me deixar tranquila.
— E foi com base nessa suposta facilidade que vocês chegaram aos R$ 1,2 bilhão? — perguntei.
Sérgio não respondeu imediatamente. Em vez disso, abriu o relatório sobre a mesa e apontou fatores de mercado, custos de desenvolvimento e riscos regulatórios. Eram argumentos possíveis, mas nenhum explicava sozinho uma redução de trinta por cento em relação às projeções anteriores.
Eu conhecia números demais para ser distraída por uma apresentação bem montada.
— Vou encomendar uma avaliação independente — avisei. — E Vale Verde não será negociado em exclusividade com vocês.
A mudança no rosto de Sérgio foi discreta, mas suficiente. Até aquele momento, ele claramente contava com uma negociação fechada. Minha decisão significava que outros grupos poderiam apresentar propostas e que a pressão sobre o preço perderia força.
— Natália, isso pode atrasar o projeto.
— Melhor atrasar do que vender errado.
Saí da reunião sem fechar negócio.
No carro, Marina recebeu a confirmação de duas consultorias que poderiam iniciar imediatamente uma nova avaliação. Pedi também que nossa equipe verificasse quais empresas tinham interesse real na região. Não queria fabricar uma disputa inexistente, apenas impedir que uma única proposta fosse tratada como se fosse nossa única opção.
Enquanto voltávamos ao escritório, meu celular pessoal recebeu dezenas de notificações. O comunicado sobre o divórcio havia se espalhado muito mais rápido do que a nota jurídica anterior. Pela primeira vez, muita gente percebia que a expressão “ex-esposa”, usada nas matérias daquela manhã, não era força de linguagem.
Daniel finalmente deixou uma mensagem de voz.
Não ouvi de imediato.
Às cinco da tarde, meu advogado entrou na sala com um resumo da repercussão. Algumas páginas haviam corrigido informações depois de saber que eu nunca tinha realizado teste de compatibilidade. Outras mantinham títulos agressivos, mas agora havia questionamentos suficientes para impedir que uma única versão dominasse a conversa.
— Nada de processo por enquanto — determinei. — Primeiro, enviem notificações pedindo correção factual onde houver afirmação falsa.
Eu não queria transformar aquilo em guerra pública.
Queria apenas que parassem de decidir por mim.
Pouco depois das seis, ouvi a mensagem de Daniel.
Sua voz já não tinha o mesmo tom imperativo das ligações anteriores.
“Eu errei levando gente para o hospital. Eu achei que, se você entendesse a urgência, aceitaria pelo menos fazer o teste. Não pensei no que isso faria com você. Preciso conversar pessoalmente.”
A frase quase me fez rir.
Ele não havia pensado.
Durante muito tempo, essa explicação teria me feito questionar se eu estava sendo dura demais. Depois de três anos de casamento e um divórcio que ainda parecia recente demais para caber na palavra “passado”, eu finalmente entendia que alguém não pensar nas consequências para mim também era uma escolha.
Não respondi.
Na manhã seguinte, no entanto, recebi uma ligação inesperada do Hospital Santa Augusta. Não era Daniel nem Joana. Era a equipe administrativa, informando que meu nome havia sido mencionado publicamente em relação ao caso e perguntando se eu autorizava algum contato médico direto.
A pergunta era simples e respeitosa.
Eu disse que aceitaria conversar com o médico responsável, desde que a conversa fosse estritamente sobre procedimento e sem a presença de Daniel ou de qualquer jornalista.
O doutor Renato Alves falou comigo naquela mesma tarde.
Ele começou deixando claro que não poderia revelar detalhes clínicos além do que a própria paciente autorizasse. Depois explicou algo que, para mim, era o ponto central: ninguém poderia afirmar que eu era uma doadora compatível sem os exames adequados, e qualquer teste ou eventual doação deveria ser voluntário.
Perguntei sobre a recomendação de testar familiares.
Ele confirmou que essa era uma etapa importante e que a equipe já estava orientando a família a respeito.
Não pedi nomes.
Não perguntei resultados.
Eu não precisava transformar a doença de Joana em investigação particular para defender minha liberdade.
Antes de desligar, agradeci pela clareza.
Quando contei a Marina que a família estava sendo orientada a realizar testes, ela soltou um longo suspiro.
— Então ainda existem caminhos médicos sendo avaliados.
— Sempre existiram caminhos — respondi. — O problema é que Daniel resolveu me transformar no único caminho antes de saber qualquer coisa.
Naquela noite, minha mãe voltou a ligar.
Dessa vez atendi.
Ela não perguntou como eu estava.
Perguntou por que eu havia tornado o divórcio público sem avisar a família.
Fechei os olhos por um instante.
— Porque o divórcio é meu.
— Natália, as pessoas estão comentando. E o casamento da Camila está chegando. Sua tia já telefonou três vezes.
— Isso não muda o que aconteceu.
Minha mãe insistiu que eu fosse jantar no domingo. Disse que preferia falar pessoalmente e que não queria discutir pelo telefone.
Aceitei.
Não porque ela tivesse direito de decidir alguma coisa.
Mas porque eu estava cansada de deixar conversas pendentes acumularem poder sobre minha vida.
No dia seguinte, a primeira avaliação preliminar de Vale Verde chegou.
R$ 1,63 bilhão.
Ainda não era o relatório final, mas a diferença em relação aos R$ 1,2 bilhão oferecidos pelo consórcio era grande demais para ser ignorada.
Marina colocou os dois documentos lado a lado sobre minha mesa.
— Parece que o divórcio está ficando caro para algumas pessoas.
Balancei a cabeça.
— Não é o divórcio.
Passei a mão sobre o relatório.
— É o fim da certeza de que eu aceitaria tudo calada.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














