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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

PARTE 7

Na semana seguinte, o Hospital Santa Augusta entrou em contato novamente.

Dessa vez, não para falar sobre mim.

O doutor Renato apenas confirmou, de forma geral, que a família de Joana continuava no processo de avaliação de possíveis doadores e que outras alternativas terapêuticas estavam sendo consideradas pela equipe.

Eu agradeci e não perguntei mais nada.

Aquela informação era suficiente para mim.

Joana não dependia de uma decisão minha para continuar recebendo atendimento.

Talvez nunca tivesse dependido.

No mesmo dia, Daniel pediu uma conversa sobre um assunto empresarial.

Aceitei encontrá-lo na presença de Marina e de um representante jurídico de cada lado.

Era uma escolha deliberada.

Nosso casamento tinha acabado.

Se ele queria falar de negócios, seria tratado como qualquer outro executivo.

Daniel entrou na sala de reuniões e percebeu isso imediatamente.

— Precisava de tanta formalidade?

— Para negócios, sim.

Ele assentiu.

Não discutiu.

A família Lima havia decidido se retirar do projeto conjunto relacionado a Vale Verde. A saída ainda precisava ser organizada com o Grupo Carvalho, mas Daniel queria deixar registrado que sua família não alegaria qualquer direito ou expectativa decorrente do antigo casamento.

Meu advogado tomou nota.

— Por que agora? — perguntei.

Daniel olhou para mim.

— Porque não deveria ter acontecido antes.

— Isso não responde.

Ele respirou fundo.

— Meu pai achava que nossa relação tornava certas negociações mais simples. Eu deixei que ele pensasse assim.

Não era uma confissão dramática.

Era pior pela banalidade.

Daniel não precisava ter planejado nada para se beneficiar da ideia de que eu seria mais fácil de convencer.

Bastava não corrigi-la.

— Você sabia da avaliação de R$ 1,2 bilhão?

— Sabia que o consórcio queria negociar nessa faixa. Não sabia que a avaliação interna da sua empresa era muito maior.

Observei seu rosto.

Eu não tinha como provar mais do que aquilo, e não tentaria inventar intenções.

— Então vamos registrar exatamente isso.

Meu advogado anotou.

Daniel pareceu incomodado.

— Você ainda acha que estou tentando te prejudicar.

— Eu não preciso decidir o que você “está tentando”. Eu tomo decisões com base no que você faz.

Ele ficou em silêncio.

A reunião durou menos de quarenta minutos.

Ao final, quando os advogados já guardavam os documentos, Daniel pediu cinco minutos sozinho comigo.

Recusei.

— Se não é assunto empresarial, não precisamos conversar hoje.

— É sobre nós.

— Então definitivamente não precisamos conversar hoje.

Ele não insistiu.

Essa foi talvez a maior prova de que alguma coisa também mudara nele.

Não porque se tivesse tornado outro homem.

Mas porque finalmente compreendera que insistência não criava direito.

Dois dias depois, minha mãe me mandou uma foto do convite de casamento de Camila com uma mensagem:

“Já expliquei que você não irá. Não vou mais insistir.”

Sorri sozinha.

Era estranho perceber quantos conflitos da minha vida haviam sido alimentados por uma mesma expectativa: a ideia de que, se insistissem o suficiente, eu acabaria cedendo.

Daniel fez isso.

Minha mãe fez isso.

Joana fez isso.

O Grupo Carvalho contou com isso.

Talvez eu mesma tivesse ensinado as pessoas a esperar esse comportamento.

Não por fraqueza.

Por hábito.

Na empresa, as três propostas finais para Vale Verde chegaram.

A maior oferecia quase R$ 1,7 bilhão, mas exigia condições de pagamento e garantias que aumentavam muito o risco.

A menor estava perto de R$ 1,55 bilhão, porém tinha estrutura financeira mais sólida.

O Grupo Carvalho ficou no meio.

Pedi dois dias para a equipe preparar uma comparação completa.

Nada de escolher apenas pelo número mais bonito.

Quando Marina apresentou os cenários, percebemos que a proposta intermediária de outro grupo, sem ligação com os Lima ou Carvalho, tinha melhor equilíbrio entre preço, prazo e segurança.

Era menos espetacular do que aceitar a oferta maior.

E muito mais inteligente.

— Recomendo essa — disse Marina.

— Eu também.

Levamos ao conselho.

Aprovado.

Vale Verde seguiria com um novo comprador.

Quando a decisão se tornou oficial, Sérgio me ligou.

— Então é definitivo.

— É.

— Poderíamos ter feito um bom projeto juntos.

— Talvez.

— Não está fazendo isso por causa do Grupo Lima, está?

— Estou fazendo porque outra proposta é melhor para a minha empresa.

Essa resposta era importante até para mim.

Eu não queria que minha independência se transformasse em reação permanente a Daniel.

Escolher o contrário do que ele queria ainda seria permitir que ele definisse meu caminho.

Eu precisava escolher o que fazia sentido.

Sem ele no centro.

Naquela noite, Joana enviou outra mensagem.

“Minha família recebeu alguns resultados. Ainda estamos conversando com os médicos. Eu queria agradecer por você não ter exposto meu prontuário nem usado minha doença contra mim.”

Li duas vezes.

Depois respondi.

“Espero que o tratamento dê certo.”

Nada mais.

Não éramos amigas novamente.

Talvez nunca fôssemos.

Mas, pela primeira vez, eu conseguia desejar que ela melhorasse sem sentir que esse desejo me obrigava a devolver a amizade que ela havia quebrado.

Poucos minutos depois, Daniel mandou mensagem.

“Soube de Vale Verde. Parabéns pela negociação.”

Eu não respondi.

Dessa vez, porém, não senti raiva ao apagar a notificação.

A indiferença chegava devagar.

Talvez fosse isso que realmente encerrasse um casamento: não a assinatura no cartório, mas o dia em que as escolhas do outro deixavam de ocupar o centro da nossa cabeça.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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