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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

O contrato de Vale Verde entrou na fase final de negociação.

Enquanto os advogados discutiam garantias, prazos e obrigações, eu me ocupei do trabalho que havia adiado durante a viagem para Maceió. A proposta de investimento que Marina mencionara ainda no primeiro telefonema continuava sobre minha mesa.

Era quase engraçado pensar nisso.

Quando Daniel me ligou trinta e seis vezes, minha vida já tinha problemas, responsabilidades e projetos que não tinham absolutamente nada a ver com ele.

Mesmo assim, por alguns dias, sua urgência tentou ocupar tudo.

Agora eu retomava espaço.

A negociação de Vale Verde avançava sem interferência da família Lima.

O Grupo Carvalho reorganizou seu projeto.

A empresa de Daniel seguiu outro caminho.

Nenhum deles desapareceu do mercado.

Nenhum império caiu.

A consequência foi muito mais realista: perderam uma oportunidade que haviam acreditado poder conduzir em condições mais favoráveis.

Isso bastava.

Na minha vida pessoal, o efeito também apareceu de formas pequenas.

Comecei a usar apenas um dos celulares nos fins de semana.

Voltei a almoçar sem deixar o aparelho sobre a mesa.

Passei uma tarde inteira em uma livraria sem verificar mensagens.

Pareciam coisas ridículas para quem observava de fora.

Para mim, eram sinais de que eu não estava mais esperando a próxima crise.

Minha mãe me convidou para tomar café.

Dessa vez fui.

Ela contou que Camila havia perguntado por mim e que, ao saber por que eu preferia não comparecer ao casamento, simplesmente respondeu que entendia.

— Sua tia é que fez o drama todo — minha mãe admitiu.

— Eu imaginei.

— Talvez eu devesse ter perguntado antes de assumir que seria um problema.

— Talvez.

Ela me olhou.

— Você não facilita.

Sorri.

— Estou aprendendo a não facilitar mesmo.

Minha mãe riu.

Foi a primeira risada verdadeira entre nós em muito tempo.

Na saída, encontrei uma mensagem de Marina.

“Hospital Santa Augusta telefonou. Pediram para retornar quando puder.”

Meu estômago se contraiu por reflexo.

Liguei.

O doutor Renato falou comigo.

Explicou apenas que a família de Joana havia concluído uma etapa importante dos testes e que havia surgido uma possibilidade de transplante com doador aparentado. Ainda seriam necessários exames adicionais antes de qualquer decisão definitiva.

Não disse quem.

Eu não perguntei.

— Então ela pode ter uma alternativa?

— Existe uma possibilidade concreta sendo avaliada.

Fechei os olhos por um segundo.

Senti alívio.

Não culpa.

Alívio.

— Espero que dê certo.

Depois da ligação, fiquei sentada no carro por alguns minutos.

Durante semanas, milhares de pessoas tinham discutido meu dever de salvar Joana como se a medicina fosse uma equação com apenas duas opções: eu dizia sim ou ela morria.

A realidade nunca tinha sido tão simples.

Havia exames.

Família.

Tratamentos.

Equipes.

Riscos.

Alternativas.

E incerteza.

Transformar tudo aquilo em uma acusação contra mim havia sido mais conveniente do que verdadeiro.

À noite, Joana confirmou a notícia por mensagem.

“Meu irmão está fazendo os exames finais. Existe chance de ele ser doador.”

Ali estava a resposta.

Um irmão conhecido de sua família, submetido ao processo normal que os médicos haviam recomendado desde o início.

Não havia milagre.

Ainda não havia garantia.

Apenas uma possibilidade médica real sendo investigada.

Respondi:

“Tomara que dê certo.”

Ela escreveu:

“Eu também.”

No dia seguinte, Daniel apareceu em uma entrevista curta sobre um evento empresarial.

Um jornalista perguntou sobre o divórcio e sobre a situação de Joana.

Ele poderia ter evitado.

Em vez disso, respondeu que havia errado ao permitir que uma questão médica privada fosse transformada em pressão pública e que ninguém deveria atacar sua ex-esposa por uma decisão que cabia somente a ela.

Vi o vídeo uma vez.

Depois fechei.

Marina perguntou:

— O que achou?

— Que ele deveria ter dito isso no primeiro dia.

— Mas disse agora.

— Sim.

Eu não precisava negar qualquer mudança de Daniel para justificar não voltar.

Essa era outra coisa que eu estava aprendendo.

Uma pessoa pode reconhecer erros.

Pode melhorar.

Pode pedir desculpas.

E mesmo assim não receber de volta aquilo que perdeu.

À tarde, assinei a versão final do contrato de Vale Verde.

O valor ficou acima de R$ 1,6 bilhão, com condições que nosso conselho considerou adequadas.

Depois da assinatura, Marina abriu uma garrafa de espumante sem álcool no escritório.

— À decisão certa.

Ergui o copo.

— À decisão nossa.

A equipe riu.

Mais tarde, sozinha, olhei a cópia do contrato.

Se eu tivesse aceitado a primeira pressão, teríamos vendido por centenas de milhões a menos.

Se eu tivesse aceitado a pressão sobre meu corpo, teria feito um exame que não queria apenas para acalmar pessoas que não respeitavam minha escolha.

Os dois problemas eram completamente diferentes.

Mas a lição por trás deles parecia a mesma.

Urgência dos outros não podia continuar sendo usada para atropelar meus limites.

Naquela noite, Daniel pediu para me encontrar uma última vez.

A mensagem dizia:

“Não é sobre Joana. Não é sobre negócios. Não vou insistir se você disser não.”

Fiquei alguns minutos olhando para a tela.

Então respondi:

“Amanhã, seis da tarde. Café do lobby do Hotel Central.”

Eu não estava reabrindo uma porta.

Estava escolhendo fechá-la olhando para ela.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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