
No dia do divórcio, minha ex-sogra mandou que eu levasse só minhas roupas — e vigiou cada coisa que entrou na mala
PARTE 1
Eu mal tinha terminado de assinar os papéis do divórcio quando minha ex-sogra conseguiu chegar ao apartamento antes de mim.
Quando abri a porta, ela já estava no meio da sala, acomodada no sofá com uma xícara de chá nas mãos, como se fosse a dona daquele lugar.
— Meu filho tem o coração mole. Eu, não. Hoje você só vai levar as roupas que são suas.
Não respondi.
Fui direto para o quarto e comecei a arrumar as coisas.
Ela veio atrás, seguindo cada movimento meu. Sempre que eu colocava alguma coisa na mala, ela se aproximava para conferir, como se tivesse medo de que eu roubasse até uma agulha daquela casa.
Continuei em silêncio, com o rosto impassível.
Dez minutos depois, finalmente percebeu que havia alguma coisa errada.
— Por que você está arrumando as coisas da nossa casa?
Abri uma gaveta, tirei a documentação do imóvel e a coloquei sobre a mesa da sala.
— Este apartamento está no meu nome. Então agora vocês dois podem sair daqui.
Trinta minutos.
Foi mais ou menos isso que bastou para colocar um ponto-final em três anos de casamento.
Eu e Caio Mendes entramos no cartório ainda como marido e mulher. Quando saímos, o divórcio estava formalizado, e aquilo que durante três anos chamáramos de casamento havia se transformado em alguns papéis assinados.
O céu estava cinzento.
Combinava com a sensação dentro de mim.
Ou talvez nem isso.
A verdade era que meu coração já tinha se cansado de doer havia algum tempo. Naquele momento, o que restava era uma espécie de silêncio.
Caio parou ao meu lado na calçada.
— Quer que eu leve você para casa?
Olhei para ele.
— Não precisa. A gente não tem mais esse tipo de relação.
Ele ficou alguns segundos em silêncio, com uma expressão difícil de decifrar. Parecia querer dizer alguma coisa, mas no fim apenas soltou um suspiro.
— Tá bom. Então vai com cuidado.
Não olhei para trás.
Levantei a mão para um táxi, entrei e passei o endereço.
Era o endereço do apartamento onde eu tinha vivido durante todos aqueles três anos.
Talvez, a partir daquele dia, eu finalmente pudesse chamar aquele lugar de minha casa sem sentir que precisava pedir licença.
O carro parou em frente ao prédio.
Paguei a corrida, desci e ergui os olhos para o décimo sexto andar.
A luz estava acesa.
Lúcia Mendes já estava lá.
Ou, pensando melhor, provavelmente nem tinha saído.
Entrei no prédio, peguei o elevador e apertei o botão do meu andar.
Durante a subida, fiquei observando os números mudarem no painel metálico.
Quando as portas se abriram, caminhei pelo corredor até o apartamento.
Sobre o tapete da entrada havia dois pares de sapatos.
Um masculino.
Outro feminino.
Os meus e os de Caio.
Tínhamos tirado aqueles sapatos antes de sair naquela manhã.
Era quase irônico.
Quando atravessamos a porta pela primeira vez naquele dia, ainda éramos marido e mulher.
Na volta, já éramos apenas duas pessoas que um dia tinham dividido a mesma vida.
Peguei a chave, coloquei na fechadura e girei.
A sala estava completamente iluminada.
No sofá, bem no centro, estava Lúcia.
Minha ex-sogra segurava uma xícara de chá com toda a tranquilidade do mundo. Sentava-se ali com a segurança de quem acreditava ser a verdadeira dona da casa.
Pensando bem, ela sempre tinha acreditado nisso.
Ao ouvir a porta, nem se mexeu.
Continuou soprando o chá lentamente.
Só depois que troquei os sapatos e caminhei até a sala ela levantou o rosto.
O desprezo em seus olhos não fazia o menor esforço para se esconder.
— Terminou tudo?
Não respondi.
Ela colocou a xícara sobre a mesa.
— Melhor assim.
Levantou-se e alisou o casaco caro que vestia.
— A família Mendes precisa de uma nora que dê continuidade à família. Alguém que nos dê netos.
Sua boca se curvou numa expressão satisfeita.
— Você ocupou esse lugar durante três anos. Já estava mais do que na hora de deixar espaço para outra pessoa.
Era o mesmo tom que eu tinha ouvido inúmeras vezes durante o casamento.
Cada frase dela parecia vir com uma ponta escondida.
Durante três anos, por causa de Caio, eu tinha engolido muita coisa.
Agora não havia mais motivo.
Olhei para aquela mulher como olharia para qualquer desconhecida.
Minha indiferença pareceu incomodá-la mais do que uma discussão teria incomodado.
Ela franziu a testa.
— Está olhando o quê? Ainda acha que meu filho vai ficar do seu lado?
Soltou uma risada curta.
— Escuta bem, Marina.
Apontou o dedo na minha direção, quase encostando no meu rosto.
— Meu filho tem o coração mole. Eu, não.
Sua voz ficou mais alta.
— Hoje você só vai levar as suas roupas.
Ela apontou para o corredor.
— Todo o resto fica aqui. Nem uma agulha você vai tirar desta casa. Entendeu?
A sala pareceu ficar mais silenciosa depois daquelas palavras.
Lúcia tinha o ar satisfeito de alguém que acreditava ter acabado de anunciar uma vitória.
Fiquei olhando para ela por alguns segundos.
Então dei um pequeno sorriso.
— Terminou?
Ela piscou, surpresa.
Talvez esperasse lágrimas.
Talvez esperasse que eu discutisse, implorasse ou tentasse explicar alguma coisa.
Não fiz nada disso.
Virei as costas e caminhei para o quarto principal.
Atrás de mim, ouvi seus passos.
Lúcia me seguiu imediatamente.
Rápidos.
Pesados.
Desconfiados.
Empurrei a porta do quarto.
Tudo continuava como tínhamos deixado naquela manhã.
A cama ainda estava desarrumada.
A cortina permanecia aberta apenas pela metade.
Sobre a penteadeira estava o batom que eu não tinha guardado antes de sair.
Abri o guarda-roupa.
Metade das roupas era minha.
A outra metade, de Caio.
Lúcia ficou parada atrás de mim, com os braços cruzados, como uma fiscal.
— Estou avisando. Não tente fazer gracinha.
Não respondi.
— Separe direito as suas coisas. Não vá pegar nada do Caio por engano. As roupas dele são caras.
Ignorei.
Ao lado do guarda-roupa estava a maior mala que eu tinha separado antes.
Preta.
Grande.
Coloquei-a deitada no chão e abri o zíper.
O clique da trava pareceu chamar ainda mais a atenção dela.
— Pra que uma mala desse tamanho?
Lúcia soltou um som de desdém.
— Suas roupas nem ocupam tudo isso.
Continuei sem dizer nada.
Passei os olhos pelas minhas blusas e vestidos.
Então estendi a mão para o outro lado.
Peguei um dos ternos de Caio.
Armani.
Era o que ele mais gostava.
Dobrei cuidadosamente e coloquei dentro da mala.
Lúcia arregalou os olhos.
— O que você está fazendo?
Avançou rapidamente, tentando pegar o terno.
Endireitei o corpo e olhei para ela.
— Não encoste em mim.
Não levantei a voz.
Não precisei.
Alguma coisa no meu jeito fez sua mão parar no meio do caminho.
Ela ficou alguns segundos imóvel.
Provavelmente nunca tinha me visto olhar para ela daquela forma.
— Você… por que está pegando as roupas do meu filho? Eu já disse que você só pode levar as suas!
Sua voz ainda era arrogante, mas agora havia uma ponta de insegurança.
— Estou arrumando as coisas.
— Arrumando o quê? Isso é nosso!
— Uhum.
Foi tudo o que respondi.
Peguei uma camisa de Caio.
Depois uma gravata.
Dobrei as duas e coloquei na mala.
Em seguida vieram os suéteres.
As calças sociais.
Uma peça depois da outra.
Eu continuava com movimentos tranquilos, quase metódicos.
Lúcia ficou me observando, completamente perdida.
Abriu a boca algumas vezes, mas não conseguiu decidir o que dizer.
Talvez estivesse tentando entender se eu tinha enlouquecido depois do divórcio.
Quando terminei com as roupas de Caio, puxei a gaveta do criado-mudo.
Ali estavam os relógios dele.
As abotoaduras.
E um maço de dinheiro que ele costumava esconder para gastar em jogos.
Peguei a caixa dos relógios.
Joguei dentro da mala.
Ela caiu sobre as roupas com um som seco.
Obrigado por acompanhar até aqui 🙌📖 Isso é só o começo… A próxima parte já está nos comentários 👇🔥 Se você não encontrar, toque em “Ver todos os comentários” 💬✨














