
PARTE 7
Dois meses depois do divórcio, Caio precisou voltar ao apartamento uma última vez.
Não porque tivesse esquecido roupas ou documentos.
Desta vez, havia um motivo simples: alguns livros dele ainda estavam guardados em uma prateleira alta do escritório e eu queria liberar o espaço.
Combinamos um horário.
Quando o interfone tocou, o porteiro avisou:
— O senhor Caio está aqui. A senhora Lúcia veio com ele.
Fiquei em silêncio por dois segundos.
— Pode liberar.
Eu poderia ter recusado a entrada dela.
Mas algo em mim queria descobrir se aquela mulher ainda conseguia transformar minha própria sala num lugar onde eu me sentia pequena.
Quando a porta abriu, Lúcia entrou devagar.
Não se sentou.
Não caminhou até a cozinha.
Não tirou o casaco.
Era a primeira vez que eu a via dentro do apartamento como uma visita.
Caio percebeu também.
— Os livros estão no escritório — falei.
Ele assentiu e foi buscá-los.
Lúcia ficou comigo na sala.
Olhou para a poltrona, agora longe da janela.
Depois para a parede que eu tinha pintado.
— Você mudou bastante coisa.
— Algumas.
Ela passou os olhos pelo ambiente.
— Caio também mudou.
Eu não respondi.
— Alugou aquele apartamento pequeno.
— Ele comentou.
— Nem precisava ter saído da minha casa.
A frase tinha a mesma velha necessidade de controlar tudo, mas agora vinha sem a antiga segurança.
— Talvez ele tenha achado que precisava — respondi.
Lúcia apertou os lábios.
— Você colocou isso na cabeça dele?
Quase ri.
Dois meses antes, aquela pergunta teria me irritado.
Naquele dia, apenas me pareceu cansativa.
— Não.
— Mas depois de vocês se separarem ele começou com essa história de “limites”, de tomar decisões sozinho…
— Lúcia, se Caio decidiu morar sozinho, pergunte a ele por quê.
Ela me encarou.
— Você sempre tem resposta para tudo agora.
— Não. Só parei de responder pelo seu filho.
Aquilo a calou.
Caio voltou com uma pilha de livros nos braços.
— Está tudo aqui?
— Acho que sim.
Ele colocou os livros numa caixa.
Lúcia continuou em silêncio.
Antes de sair, porém, olhou para mim novamente.
— Você sabe que ele ainda gosta de você.
Caio imediatamente ficou tenso.
— Mãe.
Levantei a mão.
— Tudo bem.
Olhei para ela.
— O sentimento dele não muda minha decisão.
— Nem se ele estiver diferente?
— Eu não me divorciei para obrigá-lo a mudar.
A frase pareceu surpreender os dois.
Continuei.
— Se ele mudou, isso pode ser bom para a vida dele. Mas eu não sou prêmio por bom comportamento.
Caio baixou os olhos.
Lúcia ficou incomodada.
— Você fala como se tivesse sido a única pessoa que sofreu.
— Não falei isso.
— Meu filho também perdeu um casamento.
— Sim.
Mantive a voz calma.
— E esse é um dos efeitos das escolhas que ele fez dentro dele.
Ela não respondeu.
Caio fechou a caixa.
— Vamos, mãe.
Dessa vez, Lúcia não discutiu.
Quando chegou à porta, parou.
— Eu realmente achava que este apartamento era dele.
— Eu sei.
— Ninguém nunca me explicou.
Olhei para Caio.
Ele sustentou meu olhar.
Lúcia percebeu.
Pela primeira vez, pareceu compreender que aquela justificativa não a absolvia.
Talvez Caio tivesse alimentado o engano com o silêncio.
Mas ela tinha decidido agir como dona sem jamais me perguntar nada.
— Mesmo que fosse dele — falei — você não teria o direito de me tratar da forma como tratou.
O rosto dela endureceu, mas não o suficiente para responder.
Caio saiu primeiro.
Antes de acompanhar o filho, Lúcia olhou uma última vez para a sala.
Naquele olhar havia alguma coisa diferente.
Não arrependimento completo.
Talvez apenas a percepção de que ela não comandava mais aquele espaço.
Fechei a porta.
Mais tarde, Caio mandou uma mensagem.
“Desculpa por ela ter falado sobre a gente.”
Respondi:
“Não precisa pedir desculpa por tudo que ela faz. Só precisa continuar colocando os limites que você disse que queria colocar.”
A resposta demorou.
“Você tem razão.”
Na semana seguinte, ele não entrou mais em contato.
Nem na outra.
A ausência dele, que antes teria parecido estranha, começou a se tornar normal.
Eu voltei a usar o escritório.
Tirei os livros antigos da prateleira vazia e coloquei meus próprios materiais.
Montei uma mesa mais confortável.
Comprei uma luminária.
Comecei a trabalhar algumas noites ali, com a janela aberta e música baixa.
Uma noite, parei no corredor e observei o apartamento.
A mesma sala.
O mesmo piso.
As mesmas janelas.
Mas a casa já não parecia carregar a expectativa de que alguém pudesse entrar a qualquer momento e dizer como eu deveria viver.
Foi quando compreendi que limite não era uma parede levantada contra os outros.
Era a porta que eu finalmente tinha aprendido a fechar quando precisava.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














