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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

PARTE 3

Caio chegou pouco mais de meia hora depois. Quando a porta se abriu, Lúcia foi até ele antes mesmo que eu pudesse levantar os olhos. Ainda segurava a pasta do apartamento como se, ao mantê-la nas mãos, pudesse descobrir algum erro escondido entre aquelas páginas.

— Você sabia disso? — perguntou, quase sem cumprimentá-lo. — Sabia que o apartamento era dela?

Caio olhou primeiro para a mãe, depois para as malas encostadas perto da porta. Seu rosto se contraiu. — Sabia.

Uma palavra.

Foi tudo.

Mas aquela palavra tirou de Lúcia o resto da segurança que ainda lhe sobrava.

— E nunca me contou?

Caio passou a mão pelo rosto. Parecia exausto. — Mãe, o apartamento já era da Marina antes da gente se casar. Eu nunca disse que era meu.

— Nunca disse que não era! — ela rebateu.

Eu estava parada perto da porta do quarto. Até então não tinha interferido. Mas aquela frase fez alguma coisa se encaixar dentro de mim.

Lúcia não tinha inventado sozinha toda aquela certeza.

Caio talvez nunca tivesse mentido diretamente, mas também nunca a corrigira.

Pensei em todas as vezes em que ela tinha falado “a casa do meu filho” na minha frente. Todas as vezes em que havia decidido onde um móvel deveria ficar, qual cortina deveria ser trocada, quem poderia visitar, o que eu deveria fazer.

Caio estava presente em muitas dessas ocasiões.

E nunca dizia nada.

— Então era isso — falei.

Ele me olhou.

— O quê?

— Você sabia que sua mãe achava que este apartamento era seu.

Caio ficou em silêncio.

Não precisei perguntar uma segunda vez.

A resposta estava naquele silêncio.

Lúcia virou-se para ele, indignada. — Por que você deixou que eu acreditasse nisso?

Caio respirou fundo. — Porque toda vez que eu tentava contrariar você, virava uma discussão. E eu achei mais fácil não entrar nesse assunto.

Eu ri sem humor.

— Mais fácil para quem?

Ele abaixou os olhos.

Durante o casamento, eu tinha escutado muitas justificativas parecidas. “Não vale a pena discutir com a minha mãe.” “Deixa ela falar.” “Você sabe como ela é.” “Depois ela esquece.”

Só que quem precisava engolir tudo era eu.

A facilidade dele sempre tinha sido paga por mim.

Lúcia ainda parecia mais ofendida por ter descoberto a verdade do apartamento do que pelas coisas que havia dito comigo havia menos de uma hora.

— Mesmo assim, vocês foram casados! — insistiu. — Meu filho morou aqui por três anos!

— Morou — respondi. — E agora não mora mais.

Caio fechou os olhos por um instante.

— Marina…

— Não.

Minha voz o interrompeu antes que começasse.

— O divórcio já está feito. Não existe mais nada para discutir sobre o casamento. Agora só precisamos resolver os pertences.

Apontei para as malas.

— Eu separei roupas, sapatos, relógios, documentos e coisas pessoais. O que faltar, você pode retirar hoje ou combinar outro horário com a portaria.

Lúcia abriu os braços.

— Você vai colocar tudo para fora como se ele fosse um estranho?

Olhei para ela.

— Hoje de manhã, seu filho assinou um divórcio comigo. Legalmente e na prática, ele não mora mais aqui. Isso não é humilhação. É consequência.

Ela ficou vermelha.

— Consequência? Depois de tudo o que essa família fez por você?

Caio finalmente ergueu a voz.

— Mãe, chega.

Foi a primeira vez naquela tarde que ele a interrompeu de verdade.

Lúcia o encarou como se tivesse levado um tapa.

— O quê?

— O apartamento é da Marina. Você não pode falar como se estivesse expulsando ela daqui.

Tarde demais.

Tão tarde que eu não senti alívio.

Aquela defesa era o que eu tinha esperado durante três anos.

Recebê-la depois do divórcio fazia com que parecesse apenas uma confirmação de tudo que já tinha acabado.

— Obrigada — falei. — Mas eu não preciso mais que você me defenda.

Caio ficou imóvel.

Eu continuei.

— Preciso apenas que leve suas coisas.

Durante a hora seguinte, ele percorreu o apartamento recolhendo o que ainda faltava. Livros da estante. Alguns equipamentos do escritório. Casacos do armário da entrada. Uma caixa com cabos, carregadores e objetos que eu nem sabia para que serviam.

Lúcia o acompanhava em silêncio.

De vez em quando me lançava um olhar cheio de ressentimento.

Eu não respondia.

Não havia mais nada que eu quisesse ganhar daquela mulher.

Nem aprovação.

Nem compreensão.

Quando as malas e caixas ficaram próximas à porta, Caio chamou um carro para levá-las. Depois se aproximou de mim.

— Vou pegar o resto amanhã.

— Avise antes.

— Tá.

Ele hesitou.

— Marina… eu sinto muito.

Olhei para ele.

Pela primeira vez desde o cartório, senti alguma coisa diferente do vazio.

Não era saudade.

Era cansaço.

— Você sente muito porque acabou — respondi. — Eu sentia muito enquanto ainda estava acontecendo.

Ele não respondeu.

Lúcia já esperava no corredor, visivelmente impaciente.

Caio pegou duas malas, voltou para buscar as outras e, antes de sair, olhou uma última vez para a sala.

Talvez só naquele momento tivesse entendido que aquela porta não era mais uma porta para a qual ele pudesse voltar quando quisesse.

Quando o elevador se fechou, tranquei o apartamento.

Fiquei alguns segundos com a mão sobre a chave.

Então olhei para o sofá onde Lúcia tinha se sentado com sua xícara de chá, horas antes, como dona da minha vida e da minha casa.

O sofá continuava no mesmo lugar.

Mas alguma coisa essencial tinha mudado.

Desta vez, quando o silêncio tomou conta do apartamento, ele era meu.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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