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LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

PARTE 10

Algumas semanas depois, a reforma da sala terminou.

Não foi uma reforma grande.

Pintei as paredes, troquei algumas luminárias e retirei um móvel pesado que eu nunca tinha gostado, mas que Lúcia dizia ser “sofisticado demais para jogar fora”.

Quando os trabalhadores terminaram e foram embora, fiquei sozinha no meio da sala.

Por alguns minutos, não fiz nada.

Apenas observei.

Era curioso pensar que o apartamento continuava sendo o mesmo do dia do divórcio.

O mesmo endereço.

O mesmo andar.

As mesmas janelas.

Mas eu não era a mesma pessoa que tinha entrado ali naquela tarde.

Naquele dia, eu acreditava que meu maior gesto de coragem tinha sido colocar a documentação do imóvel sobre a mesa e mandar Lúcia e Caio levarem as próprias coisas.

Hoje eu sabia que aquilo tinha sido apenas o começo.

Mandar alguém sair de uma casa era simples perto de tirar da própria cabeça os anos de culpa, concessões e silêncio.

Durante muito tempo, eu tinha tentado descobrir em que momento o casamento começou a acabar.

Não havia um único momento.

Não tinha sido o cartório.

Não tinha sido a briga com Lúcia.

Nem mesmo o dia em que percebi que Caio deixava a mãe acreditar que aquele apartamento era dele.

O casamento tinha se desgastado em centenas de ocasiões pequenas.

Toda vez que eu dizia “isso me machuca” e recebia como resposta “não liga”.

Toda vez que Lúcia ultrapassava um limite e Caio me pedia paciência.

Toda vez que eu abria mão de discutir porque queria paz.

Só que paz construída em cima do silêncio de uma pessoa não é paz.

É apenas ausência de barulho.

Naquela manhã, recebi uma última mensagem de Caio.

Não era sobre nós.

“Minha mãe me contou que pegou a caixa. Obrigado por ter deixado ela buscar pessoalmente. Vou trocar de número da empresa nas próximas semanas, então quis avisar que não há mais nenhuma pendência nossa. Cuide-se.”

Li.

Pensei.

E respondi:

“Não há mais nenhuma pendência. Cuide-se também.”

Depois apaguei a conversa da lista principal.

Não bloqueei.

Não fiz disso uma cerimônia.

Apenas arquivei.

Era onde aquela história precisava ficar.

Mais tarde, minha irmã chegou com comida e duas plantas para a varanda.

Entrou, olhou para a sala e abriu um sorriso.

— Agora parece sua.

Eu ri.

— Sempre foi.

Ela entendeu o que eu queria dizer.

— Você sabe o que eu quis dizer.

Sabia.

Colocamos as plantas perto da janela.

Pedimos comida.

Sentamos no chão porque eu ainda não tinha decidido qual mesa comprar.

Em determinado momento, ela perguntou:

— Você se arrepende?

Olhei para o apartamento.

Pensei em Caio.

Pensei em Lúcia.

Pensei na mulher que eu tinha sido durante aqueles três anos.

— De ter me divorciado?

— É.

Balancei a cabeça.

— Não.

— Nem um pouco?

— Eu me arrependo de ter demorado tanto para acreditar no que eu mesma estava sentindo.

Minha irmã ficou em silêncio.

— Mas acho que precisava chegar ao meu próprio limite.

Depois que ela foi embora, caminhei até a varanda.

A cidade estava acesa lá embaixo.

Encostei os braços no parapeito.

Eu não sabia como seria minha vida daqui a um ano.

Não sabia se me apaixonaria de novo.

Não sabia se algum dia me casaria outra vez.

Também não precisava saber.

Pela primeira vez em muito tempo, o futuro não parecia uma prova que eu precisava passar para atender às expectativas de outra pessoa.

Era apenas espaço.

No dia seguinte, decidi fazer uma coisa que vinha adiando.

Peguei a antiga plaquinha discreta que ficava perto da porta, onde apareciam os sobrenomes “Marina e Caio Mendes”, e a retirei.

Durante anos, eu tinha mantido o sobrenome dele em várias pequenas coisas sem pensar.

Na correspondência.

Em alguns cadastros.

Naquela placa.

Não havia raiva naquele gesto.

Só correção.

Encomendei outra.

A nova trazia apenas:

“Marina.”

Quando ficou pronta, eu mesma a coloquei na porta.

Afastei alguns passos para olhar.

Era quase engraçado que uma mudança tão pequena parecesse tão definitiva.

Enquanto eu ajustava a placa, ouvi o elevador abrir.

Por um segundo, meu corpo reagiu como antigamente.

Esperei a voz de Lúcia.

Os passos rápidos.

Uma ordem.

Nada disso aconteceu.

Era apenas uma vizinha voltando com sacolas de mercado.

Cumprimentei.

Ela sorriu.

O elevador se fechou.

Entrei em casa.

Tranquei a porta.

E naquele instante compreendi que a verdadeira vitória nunca tinha sido provar para minha ex-sogra que o apartamento estava no meu nome.

Os documentos já faziam isso.

Minha vitória foi entender que eu não precisava de documento nenhum para provar que minhas decisões também pertenciam a mim.

Caio perdeu o casamento porque escolheu o conforto do silêncio durante tempo demais.

Lúcia perdeu o direito de entrar na minha vida como se pudesse comandá-la porque confundiu preocupação com autoridade e família com posse.

Ambos tiveram que aprender a conviver com as consequências.

Eu também tive.

A diferença era que, pela primeira vez, eu podia escolher o que fazer com as minhas.

Apaguei as luzes da sala.

Passei pelo corredor.

Entrei no quarto.

A cama já não tinha “meu lado” e “o lado dele”.

Era apenas minha cama.

A casa já não tinha um lugar reservado para alguém que apareceria para dizer como os móveis deveriam ficar.

Era apenas minha casa.

E eu já não precisava ocupar pouco espaço para evitar incomodar ninguém.

Antes de dormir, deixei a janela um pouco aberta.

O vento movimentou lentamente a cortina.

Deitei no centro da cama.

Fechei os olhos.

Durante três anos, eu tinha tentado salvar um casamento cedendo pedaços de mim para manter todos satisfeitos.

Naquela noite, não havia ninguém para satisfazer.

Nenhuma sogra para convencer.

Nenhum marido esperando que eu suportasse mais um pouco.

Nenhuma voz dizendo onde eu podia ficar.

E foi assim, no silêncio da casa que sempre tinha sido minha, que finalmente entendi que minha vida também era — e continuaria sendo — uma escolha minha.

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