Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

Depois daquela conversa, Lúcia não voltou a me procurar.

Caio também manteve distância.

E, pela primeira vez, o silêncio entre nós não parecia castigo.

Parecia encerramento.

Eu comecei a fazer planos que não incluíam nenhuma reação deles.

Troquei a mesa do escritório.

Comprei uma estante menor.

Marquei a pintura da sala.

Coisas simples.

Durante o casamento, qualquer mudança no apartamento parecia exigir uma reunião informal com três pessoas.

Eu dizia o que queria.

Caio dizia que tanto fazia.

Lúcia aparecia depois e explicava por que minha escolha estava errada.

Sem perceber, eu tinha deixado de decidir.

Agora cada detalhe me lembrava que ninguém precisava concordar.

Um sábado, enquanto esvaziava a parte mais alta de um armário para a pintura, encontrei uma caixa pequena.

Reconheci imediatamente.

Era de Lúcia.

Havia algumas fotografias antigas da família, documentos sem importância para mim e pequenos objetos que ela guardava ali porque, como costumava dizer, “era mais seguro deixar na casa do Caio”.

Fiquei parada com a caixa nas mãos.

Meses antes, aquela descoberta teria me irritado.

Agora só parecia um último vestígio.

Mandei uma mensagem para Caio.

“Encontrei uma caixa da sua mãe no armário. Posso deixar na portaria.”

Ele respondeu pouco depois.

“Pode. Mas ela perguntou se poderia buscar pessoalmente e se despedir. Se você não quiser, eu digo que não.”

Olhei para a tela.

A mudança naquela frase era quase imperceptível.

Antes, Caio teria dito:

“Minha mãe vai passar aí.”

Agora perguntava.

Eu pensei por alguns minutos.

“Pode vir. Domingo, às quatro. Você vem junto.”

No domingo, antes de eles chegarem, terminei de organizar a sala.

A parede antiga já estava pintada.

A mesa de centro tinha mudado de posição.

A xícara que Lúcia costumava usar quando aparecia sem avisar estava guardada no fundo do armário.

Não por raiva.

Porque eu quase nunca usava.

Às quatro, o interfone tocou.

Caio e Lúcia chegaram juntos.

Quando abri a porta, nenhum dos dois entrou.

Eu também não convidei.

Peguei a caixa que estava sobre o aparador.

— É isso.

Lúcia segurou com as duas mãos.

— Obrigada.

Caio olhou para dentro do apartamento.

— Ficou bonito.

— Obrigada.

Houve um silêncio.

Então ele perguntou:

— Posso falar uma coisa?

Olhei para Lúcia.

Ela pareceu entender.

— Eu espero no elevador.

Afastou-se alguns passos.

Caio ficou diante de mim.

— Não vim pedir para voltar.

— Certo.

— Eu só queria dizer que… eu finalmente entendi uma coisa.

Esperei.

— Eu passei muito tempo achando que não escolher lado era uma forma de ser justo.

Ele soltou uma pequena risada amarga.

— Só que não escolher lado, quando alguém está sendo desrespeitado, também é uma escolha.

Não disse nada.

— Eu queria que você soubesse que não coloco mais isso na conta da minha mãe.

Aquilo era importante.

Durante muito tempo, Caio tinha falado de Lúcia como se ela fosse uma força da natureza.

“Ela é assim.”

Como se ninguém pudesse fazer nada.

— Foi ela quem falou aquelas coisas — continuou. — Mas eu era seu marido. E eu deixei.

Assenti.

— Deixou.

Ele respirou fundo.

— Eu achei que algum dia talvez você pudesse me perdoar e a gente…

Parou.

— Mas agora entendo que perdão não significa voltar.

Pela primeira vez, ouvi nele uma aceitação real.

— Exatamente.

— Eu não vou mais insistir.

— Obrigada.

Caio olhou para a porta, depois para mim.

— Eu espero que você seja feliz aqui.

A frase quase me fez sorrir.

— Eu também.

Ele entendeu.

Não “nós”.

Eu.

Caio voltou para perto da mãe.

Lúcia segurava a caixa contra o peito.

Antes de entrarem no elevador, ela falou:

— Cuide-se, Marina.

— Você também.

As portas se fecharam.

Não houve música.

Não houve lágrimas.

Não houve uma frase perfeita capaz de resumir três anos.

Voltei para dentro.

Fechei a porta.

Enquanto terminava de organizar o armário, percebi que não restava nenhum objeto de Caio ou de Lúcia ali.

Nem roupa.

Nem livro.

Nem caixa esquecida.

Nada.

A separação que tinha começado no cartório finalmente tinha chegado a cada canto daquela casa.

Naquela noite, sentei no escritório e abri um caderno.

Comecei a anotar algumas coisas que eu queria fazer nos meses seguintes.

Viajar sozinha por alguns dias.

Voltar a um curso que eu tinha abandonado.

Receber mais minha irmã.

Mudar algumas plantas da varanda.

Não eram promessas grandiosas.

E talvez por isso fossem tão minhas.

Antes de dormir, passei pela sala.

Parei perto da porta.

Lembrei da tarde do divórcio.

Lúcia sentada no sofá.

A xícara de chá nas mãos.

A voz firme dizendo que eu só poderia levar minhas próprias roupas.

Naquele dia, ela acreditava estar decidindo o que eu poderia tirar daquela casa.

No fim, descobriu que a única pessoa que realmente precisava sair da minha vida era aquela versão de mim que permitia aos outros decidir onde eu podia ficar.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1