
PARTE 4
Na manhã seguinte, acordei mais cedo do que de costume. Durante alguns segundos, ainda esperei ouvir Caio se mexendo do outro lado da cama. Era um hábito de três anos, e hábitos não desaparecem no mesmo instante em que um juiz ou um cartório registra o fim de um casamento.
Estendi a mão.
O lado dele estava vazio.
Não senti vontade de chorar.
Levantei.
A primeira providência que tomei foi falar com a administração do condomínio. Pedi que retirassem Caio e Lúcia da lista de pessoas autorizadas a entrar sem confirmação. Expliquei apenas que o casamento tinha terminado e que, a partir dali, qualquer visita precisaria ser anunciada.
Depois marquei a troca da fechadura.
Não porque eu achasse que Caio entraria escondido.
Mas porque eu queria que nenhuma chave antiga tivesse mais poder sobre aquela porta.
Pouco antes do almoço, ele mandou uma mensagem perguntando se poderia buscar o restante das coisas às duas da tarde.
Respondi apenas:
“Pode.”
Às duas em ponto, o interfone tocou.
Caio estava acompanhado de Lúcia.
Por alguns segundos, pensei em dizer que ela não entraria.
Mas ainda havia objetos dela em um armário do corredor e algumas coisas de Caio espalhadas pelo escritório. Eu queria terminar aquilo de uma vez.
Abri a porta.
Lúcia entrou sem me cumprimentar.
Seu olhar percorreu a sala como se procurasse sinais de que alguma coisa tinha sido roubada durante a noite.
Caio percebeu.
— Mãe.
Ela fingiu não ouvir.
Fui até o corredor, abri o armário e mostrei duas caixas que tinha separado.
— Isso é de vocês.
Caio começou a verificar os itens.
Lúcia, porém, permaneceu parada.
— Então é isso? — perguntou.
Olhei para ela.
— Isso o quê?
— Três anos de casamento e você simplesmente coloca tudo em caixas.
— O casamento não acabou por causa das caixas.
Ela apertou os lábios.
Eu sabia o que vinha a seguir antes mesmo que abrisse a boca.
— Se você tivesse dado um filho ao meu filho, talvez nada disso tivesse acontecido.
O apartamento ficou em silêncio.
Antes, uma frase assim teria me atingido como uma faca.
Eu teria procurado Caio com os olhos, esperando que ele dissesse alguma coisa.
Naquele dia, não procurei ninguém.
— Não use isso para justificar a forma como você me tratou — respondi.
Lúcia abriu a boca.
Continuei.
— Ter ou não ter filhos nunca deu a você o direito de me humilhar dentro da minha própria casa.
— Eu só queria o melhor para o meu filho.
— Não. Você queria decidir o que era melhor para ele.
Caio fechou a caixa que estava segurando.
— Mãe, chega.
Ela se virou para ele.
— Vai ficar do lado dela agora?
Ele demorou um segundo.
— Eu devia ter ficado do lado certo quando ainda éramos casados.
A frase me surpreendeu.
Não porque mudasse alguma coisa.
Não mudava.
Mas porque era a primeira vez que Caio nomeava o próprio erro sem colocar a culpa no temperamento da mãe, na falta de tempo ou no desejo de evitar discussão.
Lúcia ficou sem reação.
Eu também.
Caio respirou fundo.
— Você passou anos tratando a Marina como se ela estivesse usando a nossa família. E eu deixei.
— Caio…
— Não. Eu deixei.
Ele apontou discretamente para a sala.
— Até sobre este apartamento. Você falava como se fosse meu, e eu nunca te corrigi.
Lúcia parecia menor.
Não arrependida.
Ainda não.
Mas abalada.
Peguei a última caixa do corredor e coloquei perto da porta.
— Eu não quero transformar isso em julgamento. Só quero encerrar o que falta.
Caio assentiu.
Passamos mais quarenta minutos separando as coisas.
Não brigamos.
Não discutimos sobre cada objeto.
Quando havia dúvida, eu perguntava.
Quando era dele, ele levava.
Quando era meu, ficava.
Era quase estranho perceber que o que parecia impossível durante o casamento podia ser resolvido com poucas frases depois que eu parei de tentar agradar todo mundo.
Ao terminar, Caio tirou uma chave do bolso.
Colocou sobre a mesa.
— É a minha cópia.
Pegou também o controle da garagem.
— E isso.
Eu os recolhi sem cerimônia.
Lúcia acompanhou o gesto.
Talvez tenha sido naquele momento que ela finalmente entendeu que ninguém estava fingindo.
O filho dela realmente não moraria mais ali.
Antes de sair, Caio parou perto da porta.
— O chaveiro vem hoje?
— Vem.
Ele fez que sim com a cabeça.
— Certo.
Lúcia já estava no corredor.
Eu esperei que ela dissesse alguma coisa.
Ela não disse.
Fechei a porta.
Duas horas depois, um chaveiro trocou o miolo da fechadura.
Foi um serviço simples.
Nenhuma cena.
Nenhum grande gesto.
Mesmo assim, quando ele terminou e me entregou as novas chaves, fiquei olhando para elas por alguns segundos.
Durante três anos, eu tinha acreditado que o problema daquela casa era Lúcia entrar demais.
Mas não era só isso.
O problema era que eu tinha aprendido a pedir permissão em um lugar onde nunca deveria ter precisado pedir.
Coloquei uma chave na minha bolsa.
A outra, guardei.
Naquela noite, fiz uma coisa que parecia pequena.
Mudei a poltrona da sala de lugar.
Lúcia sempre dizia que ficava melhor perto da janela.
Durante três anos, ficou perto da janela.
Arrastei a poltrona para o outro lado da sala.
Sentei.
Olhei em volta.
Nada tinha ficado mais bonito de repente.
Mas, pela primeira vez, o espaço começava a parecer escolhido por mim.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














