
PARTE 6
As semanas seguintes foram menos dramáticas do que eu imaginava.
E talvez por isso tenham sido tão importantes.
Não havia discussões diárias.
Não havia grandes descobertas.
Havia pequenas coisas que precisavam ser separadas.
A conta de internet continuava cadastrada com o telefone de Caio como contato alternativo. Uma assinatura de streaming ainda estava no e-mail dele. O controle extra da garagem tinha sido devolvido, mas o nome dele ainda aparecia no sistema interno do condomínio.
Resolvi tudo aos poucos.
Sem transformar cada mudança num ritual.
Apenas mudando.
Também comecei a abrir armários que eu não mexia havia meses.
Em muitos deles havia objetos de Caio que tinham passado despercebidos durante a primeira retirada.
Um livro técnico.
Uma jaqueta.
Um par de fones.
Uma caixa com papéis de trabalho.
Em vez de usar aquilo como desculpa para chamá-lo, reuni tudo em uma única caixa.
Mandei uma mensagem.
“Encontrei mais algumas coisas suas. Posso deixar na portaria amanhã.”
Ele respondeu poucos minutos depois.
“Pode. Obrigado.”
Só isso.
No dia seguinte, deixei a caixa com o porteiro.
Caio buscou no fim da tarde.
Eu soube porque o aplicativo do condomínio registrou a retirada.
Não nos vimos.
E foi bom perceber que o mundo não acabava quando uma relação deixava de precisar de despedidas presenciais.
Também mexi no quarto.
Durante três anos, Caio dormia do lado direito da cama.
Eu, do esquerdo.
Mesmo depois que ele saiu, continuei dormindo no meu lado.
Até uma noite em que acordei e percebi o absurdo.
A cama inteira era minha.
Rolei para o meio.
Estiquei os braços.
Ri sozinha.
No sábado seguinte, retirei algumas fotos antigas da estante.
Não rasguei.
Não joguei no lixo num impulso.
Guardei numa caixa.
Aquelas imagens tinham feito parte da minha vida.
Negá-las seria tão inútil quanto fingir que ainda significavam a mesma coisa.
No final daquela tarde, minha irmã veio me visitar.
Foi uma das poucas pessoas que nunca tinha insistido para que eu “tivesse paciência” com Lúcia.
Sentou na sala, olhou em volta e apontou para a poltrona.
— Você mudou.
— Mudei.
— Finalmente.
Ri.
Ela sabia quantas vezes Lúcia tinha mandado arrastar aquela poltrona de um lado para outro.
Fizemos café e passamos horas conversando.
Em determinado momento, minha irmã perguntou:
— Você está bem mesmo?
Pensei antes de responder.
— Ainda não sei.
Ela assentiu.
— É uma resposta honesta.
Era.
Eu não estava devastada.
Também não estava magicamente curada.
Às vezes, ao entrar no elevador, lembrava de Caio chegando do trabalho.
Às vezes, ao comprar alguma coisa no mercado, pegava por hábito um produto que ele gostava.
Então percebia e devolvia.
As memórias apareciam.
Mas já não davam ordens.
Cerca de um mês depois do divórcio, Caio me mandou outra mensagem.
“Queria avisar que aluguei um lugar para mim.”
Fiquei olhando para a frase.
Não sabia por que ele achava necessário contar.
Talvez porque, quando saiu do apartamento, tinha ido temporariamente para a casa da mãe.
Respondi:
“Espero que dê tudo certo.”
Ele digitou por algum tempo.
Depois veio outra mensagem.
“Eu também saí da casa dela porque percebi que precisava aprender a viver sem colocar minha mãe no meio de todas as decisões.”
Não respondi imediatamente.
Havia uma parte de mim que, durante o casamento, teria comemorado aquelas palavras.
Era exatamente o que eu tinha pedido tantas vezes.
Espaço.
Limites.
Autonomia.
Mas agora pertenciam à vida dele.
Não à nossa.
Escrevi:
“É uma decisão importante. Espero que você mantenha.”
Ele respondeu:
“Vou tentar.”
Dessa vez, não senti raiva pelo atraso.
Só reconheci o fato.
Caio estava começando um processo que eu tinha começado antes dele.
A diferença era que eu não podia mais basear minhas escolhas na velocidade da mudança dele.
Naquela mesma semana, retirei o nome de Caio do contato de emergência do condomínio.
Coloquei o da minha irmã.
Quando salvei a alteração, fiquei alguns segundos olhando para a tela.
Era uma mudança burocrática.
Pequena.
Mas dizia muito.
Durante anos, Caio tinha sido a primeira pessoa para quem alguém ligaria se alguma coisa acontecesse comigo.
Agora não era mais.
E aquilo não me deixou desamparada.
Só me lembrou que os lugares na nossa vida também precisam ser atualizados quando as relações mudam.
No domingo, pintei uma das paredes do quarto.
Escolhi uma cor que eu gostava.
Nenhuma aprovação.
Nenhuma consulta.
Nenhuma discussão.
Quando terminei, sentei no chão cercada por jornais e potes de tinta.
Minhas mãos estavam sujas.
Meu cabelo, preso de qualquer jeito.
E eu me senti estranhamente leve.
Eu não estava reconstruindo uma casa.
Estava aprendendo a não pedir autorização para morar na minha própria vida.
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