
PARTE 8
Quase três meses depois, recebi uma mensagem de Lúcia.
Não de Caio.
Dela.
Foi a primeira vez que ela falou diretamente comigo desde a tarde em que veio buscar os últimos livros.
“Marina, gostaria de conversar com você. Não é sobre voltar com o Caio. Se você não quiser, eu entendo.”
Li duas vezes.
A antiga Lúcia jamais teria escrito aquela última frase.
“Se você não quiser.”
Ela costumava anunciar.
Determinar.
Entrar.
Nunca perguntar.
Esperei até o dia seguinte antes de responder.
“Podemos conversar em um café. Trinta minutos.”
Escolhi um lugar público.
Não porque tivesse medo.
Porque não queria transformar meu apartamento novamente em palco daquela relação.
Cheguei primeiro.
Lúcia apareceu cinco minutos depois.
Parecia desconfortável.
Sentou na minha frente e pousou a bolsa sobre o colo.
Durante alguns segundos, ninguém falou.
Então ela respirou fundo.
— Eu não vim pedir para você voltar com meu filho.
— Você já disse.
Ela assentiu.
— Caio também deixou claro que não quer que eu faça isso.
Aquilo me surpreendeu um pouco.
Não pela decisão dele.
Pelo fato de ela estar respeitando.
— Então por que queria falar comigo?
Lúcia passou os dedos pela alça da bolsa.
— Porque eu fiquei com raiva de você.
— Eu sei.
— Ainda fiquei por algumas semanas.
Ela me olhou.
— Achei que você tinha destruído a família.
Não respondi.
— Depois comecei a perceber algumas coisas.
Esperei.
— Caio quase não falava comigo. Quando falava, dizia que precisava resolver a própria vida. Eu achava que era culpa sua.
— Não era.
— Hoje eu sei.
Ela disse aquilo com dificuldade.
— Eu comecei a lembrar de coisas que falei para você.
Meu corpo ficou tenso.
Não porque eu quisesse brigar.
Porque aquelas frases ainda tinham peso.
— Eu falei muito sobre filhos.
— Falou.
— E fiz você se sentir como se não tivesse valor naquela família.
Olhei para ela.
Era a primeira vez que Lúcia dizia algo tão próximo de assumir responsabilidade.
Mesmo assim, não quis facilitar para ela.
— Não foi “como se” — respondi. — Foi exatamente isso que você fez.
Ela apertou os lábios.
Depois assentiu.
— Foi.
O silêncio que veio depois foi desconfortável.
Mas não vazio.
Lúcia continuou:
— Eu queria netos. Queria que Caio tivesse a família que eu imaginava para ele. E comecei a agir como se o que eu queria tivesse mais importância do que o casamento de vocês.
— Teve muitas vezes em que você falou comigo como se eu fosse um obstáculo.
— Eu sei.
— E sobre o apartamento, você não só achava que era dele. Você usava essa ideia para me colocar abaixo de você.
Ela baixou os olhos.
— Sim.
Aquilo me atingiu mais do que eu esperava.
Durante anos, eu tinha desejado que ela reconhecesse.
Agora que reconhecia, percebi que não existia uma frase capaz de devolver aqueles anos.
— Eu não espero que você me perdoe — disse Lúcia.
— Ainda bem.
Ela ergueu o rosto.
— Mas eu queria pedir desculpas.
Respirei fundo.
— Eu aceito que você reconheça o que fez. Isso é diferente de dizer que tudo está bem.
— Eu entendo.
— E isso não muda a nossa relação.
— Eu sei.
Pela primeira vez, não tentou negociar.
Não falou de Caio.
Não falou de netos.
Não falou em família.
Apenas ficou ali.
— Tem uma coisa que eu preciso dizer — continuei. — Você não perdeu uma nora porque eu não correspondi ao que queria. Você perdeu espaço na minha vida porque me tratou sem respeito.
Lúcia não desviou o olhar.
— Eu sei.
— E Caio perdeu o casamento porque escolheu o silêncio enquanto isso acontecia.
Ela respirou fundo.
— Ele disse a mesma coisa.
Aquilo fechava um círculo estranho.
Durante três anos, eu tinha sido a única pessoa dizendo que havia um problema.
Agora os dois conseguiam nomeá-lo.
Tarde demais para salvar o casamento.
Mas talvez não tarde demais para que não repetissem aquilo em outras relações.
Terminamos o café dentro dos trinta minutos combinados.
Quando levantamos, Lúcia hesitou.
— Marina.
— Sim?
— Aquele apartamento nunca foi meu.
Eu fiquei em silêncio.
Ela deu um sorriso triste.
— Nem quando eu achava que era do Caio.
— Não.
— Eu entendo isso agora.
Assenti.
Não abracei.
Não prometi amizade.
Não disse que estava tudo perdoado.
Apenas fui embora.
No caminho para casa, senti uma coisa inesperada.
Não satisfação.
Não revanche.
Alívio.
Aquela mulher finalmente tinha reconhecido um limite que eu não precisava mais lutar para provar.
Quando entrei no apartamento, a luz do fim da tarde atravessava a janela da sala.
Deixei a bolsa sobre a mesa.
Sentei na poltrona que eu mesma tinha escolhido onde colocar.
E percebi que aquela conversa não tinha me devolvido nada.
Também não precisava.
Eu já tinha recuperado o que importava antes mesmo de Lúcia pedir desculpas.
Minha voz.
Minha casa.
Minha decisão.
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