
Três anos depois de me tirar da televisão, Felipe viu meu filho de cinco anos na internet e reconheceu o próprio rosto nele
PARTE 1
Já fazia três anos desde que Felipe Torres havia usado a própria influência para fechar todas as portas da televisão para Camila Nogueira.
A decisão fora executada de maneira rápida e implacável. De uma noite para outra, gravações foram canceladas, contratos encerrados e propostas desapareceram. Camila simplesmente deixou de existir para o mercado do entretenimento.
Nesse mesmo período, Felipe transformou Helena Duarte em uma das artistas mais requisitadas do país e viu a divisão de entretenimento do Grupo Torres triplicar de tamanho.
Ainda assim, em algumas madrugadas, quando voltava sozinho para a cobertura silenciosa em Campinas, ele se pegava lembrando dos olhos de Camila sem entender exatamente por quê.
Naquela noite, enquanto passava distraidamente pelas notícias mais comentadas nas redes sociais, encontrou um vídeo curto retirado de um programa de variedades.
— Descubra de quem é aquele menino que está vendendo brinquedos no mercado de usados — disse ao assistente, quase casualmente.
Meia hora depois, Henrique entrou no escritório com um tablet nas mãos. A expressão dele estava tão desconcertada que quase deixou o aparelho escapar.
— Senhor Felipe… a mãe do menino é Camila Nogueira. Ele tem cinco anos e nasceu depois que ela se afastou da vida pública.
Henrique engoliu em seco antes de virar a tela na direção do chefe.
— Olhe para o rosto dele. Os traços são praticamente iguais aos seus.
A xícara de café escapou da mão de Felipe e bateu sobre a mesa de madeira. O líquido escuro se espalhou lentamente.
Do outro lado das janelas do escritório, as luzes de Campinas se estendiam pela noite. Felipe não se moveu.
Seus olhos continuaram presos à tela.
No vídeo, um menino de cinco anos estava diante de uma pequena banca em um mercado de objetos usados. Alguns brinquedos já utilizados estavam organizados sobre uma mesa improvisada.
Ele não gritava para chamar compradores como as outras crianças.
Apenas se agachou diante de outro menino que passava, falou com ele durante alguns segundos e, pouco depois, conseguiu trocar uma caixa antiga de blocos por um brinquedo novo que a outra criança carregava.
Em menos de três minutos de vídeo, o garoto completou quatro negociações.
No fim da atividade, havia conseguido o maior valor disponível entre todos os participantes.
Quando contava as notas, estreitava ligeiramente os olhos e fazia os cálculos com uma tranquilidade incomum para uma criança daquela idade.
Os comentários passavam rapidamente pela tela.
“Esse menino dá medo de tão esperto.”
“Temos um futuro empresário aí.”
“Ele parece muito com alguém famoso, mas não consigo lembrar com quem.”
Felipe também não conseguiu dizer nada.
Assistiu ao trecho três vezes.
A cada repetição, aquela sensação apertava mais sua garganta.
A forma como o menino levantava o rosto. O jeito de comprimir os lábios enquanto pensava. A expressão concentrada.
Era como observar uma versão infantil de si mesmo.
— Quero todas as informações sobre ele.
Henrique abriu o arquivo que já havia preparado.
— Theo Nogueira, cinco anos. Registrado com o sobrenome da mãe. O campo destinado ao nome do pai está em branco. Estuda na Escola Infantil Céu Azul, na zona oeste de Campinas. Camila é a única responsável legal registrada.
Felipe ergueu os olhos.
— Onde ela está agora?
— O programa se chama “Pequenos no Comando”. As gravações estão acontecendo em um complexo de estúdios em Paulínia. Camila participa apenas como mãe de uma das crianças. A produção a apresenta como mãe em tempo integral. Não mencionaram que ela já trabalhou como atriz.
Felipe se levantou.
O movimento foi lento, mas seus dedos apertaram com força a lateral do tablet.
— Prepare o carro. Vamos para Paulínia.
Henrique olhou para o relógio.
— Senhor Felipe, já passou da uma da manhã.
— Eu mandei preparar o carro.
No local das gravações, os corredores permaneciam iluminados mesmo durante a madrugada.
Camila estava sentada em uma cadeira de plástico na área de descanso, com o cronograma do dia seguinte aberto sobre os joelhos.
Theo dormia em uma cama dobrável ao lado dela.
Na mão pequena, ainda segurava uma bolinha de gude que havia conseguido durante a atividade no mercado de usados.
O celular de Camila vibrou.
Era uma mensagem de Larissa.
“Cami, o vídeo entrou nos assuntos mais comentados. Está em 17º.”
Camila ficou olhando para a tela.
Seu dedo parou no ar por alguns segundos.
Outra mensagem apareceu.
“Já começaram a procurar fotos antigas suas. Tem gente dizendo que o Theo parece muito com o Felipe Torres.”
Camila apoiou as costas cansadas na cadeira e soltou lentamente o ar que prendia.
Esperou três segundos antes de responder.
“Eu sei.”
Larissa enviou três áudios seguidos.
Camila não ouviu nenhum.
Virou o celular com a tela para baixo e olhou para o filho.
Theo dormia profundamente, mas mantinha as sobrancelhas levemente franzidas. Até durante o sono havia nele uma espécie de atenção que parecia madura demais para cinco anos.
Camila conhecia aquele rosto desde o primeiro dia de vida.
E, a cada ano que passava, os traços do menino pareciam lembrá-la com mais força de coisas que preferia deixar para trás.
Seis anos antes, quando saiu da vida de Felipe, ela já estava grávida.
Nunca contou a ele.
Naquele dia, Camila havia parado diante da porta do escritório de Felipe segurando o resultado do primeiro ultrassom.
Antes de entrar, ouviu Helena chorando.
Depois veio a voz de Felipe, mais suave do que Camila esperava ouvir.
— Você sofreu muito nesses últimos anos.
Helena respondeu entre soluços:
— Felipe… então finalmente você conseguiu tomar uma decisão?
Camila permaneceu imóvel do lado de fora.
Os dedos apertaram o papel do ultrassom.
Ela não conseguiu entrar.
Muito menos contar sobre a gravidez.
Nos anos seguintes, Helena começou a conquistar espaço na televisão enquanto Camila continuou tentando sustentar a própria carreira.
Até que, quando Theo tinha dois anos, tudo desmoronou.
Um vídeo cuidadosamente editado fez Camila parecer alguém que humilhava uma artista em posição mais frágil.
As redes sociais se voltaram contra ela.
Contratos foram cancelados.
A agência rompeu o vínculo durante a noite.
E Felipe não ficou apenas assistindo.
A estrutura jurídica ligada ao Grupo Torres enviou a Camila uma notificação afirmando que, se ela não removesse declarações consideradas falsas, seriam tomadas medidas legais.
Com Theo no colo e a carta nas mãos, Camila viu todas as portas se fecharem antes mesmo que tivesse uma chance real de explicar sua versão.
— Senhora Camila?
Uma jovem da produção colocou a cabeça pela porta.
Camila voltou ao presente.
— Sim?
— O cronograma de amanhã foi antecipado em uma hora. Começamos às sete.
— Tudo bem.
Camila se levantou apenas o suficiente para ajeitar cuidadosamente o cobertor sobre Theo.
A funcionária hesitou antes de acrescentar:
— Ah, o produtor também pediu para avisar que amanhã teremos a visita de um investidor importante. Ele pediu que todos os pais tenham atenção especial com roupa e comportamento.
Camila assentiu.
Não fez nenhuma pergunta.
Quando a funcionária foi embora, ela permaneceu sentada olhando para o teto.
Um investidor importante.
O principal patrocinador do programa era justamente uma empresa de entretenimento pertencente ao Grupo Torres.
Camila fechou os olhos.
Sem perceber, apertou o cronograma sobre os joelhos.
Tinha chegado.
Era apenas uma questão de tempo.
Às sete da manhã, as luzes do estúdio já estavam acesas.
Seis duplas de pais e filhos ficaram lado a lado enquanto o diretor explicava a atividade do dia.
Camila ocupava uma das extremidades da fila.
Theo segurava a mão da mãe e observava tudo em silêncio.
Os outros pais conversavam entre si, embora alguns lançassem discretamente olhares para Camila com uma distância que não precisava ser explicada.
No centro estava Lúcia, mãe de uma pequena atriz chamada Dora, uma das participantes mais populares daquela temporada.
Lúcia se aproximou de Renato, um ator conhecido que também participava do programa, e comentou em voz alta:
— Vocês viram os assuntos mais comentados ontem? Aquele trecho do mercado de usados ficou muito bem editado, não ficou?
Enquanto falava, olhou deliberadamente para Camila.
Havia ironia no sorriso dela.
Renato entrou na conversa.
— O menino é esperto, isso ninguém pode negar. Mas criança viraliza por qualquer coisa. O importante é ver como ele vai se sair nos próximos episódios.
O diretor bateu palmas para chamar a atenção de todos.
— Certo, pessoal. A atividade de hoje se chama “Meu Pequeno Administrador”. Cada família vai receber R$ 100. As crianças terão que ir ao mercado, escolher os alimentos e preparar os ingredientes do almoço da família.
Algumas crianças imediatamente ficaram animadas.
Dora puxou a mão da mãe e começou a pular, enquanto outro menino já dizia que queria gastar todo o dinheiro com frango frito.
O diretor continuou:
— As regras são simples. Quem conseguir comprar uma variedade maior de alimentos, mantendo uma combinação nutricional equilibrada dentro do orçamento, vence a atividade.
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