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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

O início das filmagens da série mudou a rotina de Camila. Pela primeira vez em anos, ela precisava conciliar horários de estúdio, leitura de roteiro, a escola de Theo e os últimos compromissos de “Pequenos no Comando”.

Antes, essa sobrecarga teria sido exclusivamente dela.

Agora havia uma possibilidade diferente.

Felipe já fazia parte da rotina de Theo havia alguns meses e vinha cumprindo os horários acordados.

Camila decidiu testar uma mudança.

— Quinta-feira eu vou gravar até tarde — disse durante uma conversa com ele. — Theo sai da escola às quatro. Você pode buscá-lo, ficar com ele e trazê-lo para casa às oito?

Felipe demorou um segundo para responder.

Era a primeira vez que ela lhe confiava o filho sem permanecer no mesmo lugar.

— Posso.

— A cadeirinha do carro precisa estar instalada corretamente. Ele janta às seis e meia. Não dê refrigerante porque depois ele não dorme. E se acontecer qualquer coisa…

— Eu ligo para você.

Camila percebeu que estava prestes a repetir todas as instruções.

Parou.

— Certo.

Na quinta-feira, passou parte da tarde olhando o celular entre uma cena e outra.

Não havia mensagens.

Às seis e quarenta, recebeu uma foto enviada por Felipe.

Theo estava sentado à mesa, com arroz espalhado ao lado do prato e uma expressão satisfeita.

A legenda dizia apenas: “Comeu. Negociou a quantidade de brócolis. Perdemos a negociação.”

Camila riu sozinha.

Quando chegou em casa, Theo já estava de pijama.

Falou durante dez minutos sobre como Felipe havia errado a entrada da escola porque usara a portaria principal em vez da saída infantil.

— Ele não sabe nada — concluiu Theo.

— Ele está aprendendo — respondeu Camila.

A frase ficou na cabeça dela.

Felipe estava aprendendo.

E aprender significava errar coisas pequenas sem transformar cada erro em tragédia.

Era diferente de perdoar o passado.

Camila não precisava esquecer o homem que havia fechado portas para reconhecer que o pai presente diante de Theo estava tentando agir de outra maneira.

No Grupo Torres, Felipe também começou a reduzir sua presença direta nos projetos ligados a Helena.

Não a demitiu nem cancelou contratos válidos.

Seria repetir com ela o mesmo abuso de poder que cometera com Camila.

Os contratos existentes seguiram até o fim, avaliados pelas mesmas regras aplicadas aos demais artistas.

Helena percebeu a mudança.

Em uma reunião, perguntou se estava sendo punida.

— Não — respondeu Felipe. — Estou corrigindo uma relação profissional que ficou dependente demais de decisões pessoais.

— Por causa da Camila?

— Por causa do que aconteceu quando eu misturei decisões pessoais com poder empresarial.

Helena permaneceu em silêncio.

Não era a resposta que queria ouvir.

Também não havia muito que pudesse contestar.

Camila soube dessa conversa apenas muito tempo depois.

Naquele momento, estava mais preocupada com a própria filmagem.

O retorno não foi fácil.

No primeiro dia, errou uma fala três vezes.

No segundo, demorou a encontrar a marca de câmera.

Depois de três anos longe de um set dramático, seu corpo lembrava menos do que ela imaginara.

À noite, chegou em casa frustrada.

Theo percebeu.

— Você foi ruim?

Camila soltou uma risada surpresa.

— Hoje, um pouco.

— Amanhã você tenta de novo.

Ela olhou para o filho.

A resposta era tão simples que parecia cruelmente eficiente.

No dia seguinte, tentou de novo.

As cenas começaram a fluir.

O diretor parou de tratá-la como alguém retornando de um escândalo e passou a tratá-la apenas como integrante do elenco.

Era exatamente isso que Camila desejava.

Não queria ser “a atriz injustiçada”.

Queria ser atriz.

Enquanto isso, a popularidade de Theo no programa continuava crescendo.

A produção recebeu propostas de publicidade infantil.

Camila recusou a maioria.

Aceitou apenas uma campanha educativa que exigia poucas horas de gravação e permitia que parte do cachê fosse depositada numa conta destinada ao futuro do próprio Theo.

Felipe não participou da negociação.

Quando descobriu, perguntou se ela queria que alguém do grupo revisasse o contrato.

— Já tenho advogada.

— Certo.

Não insistiu.

Essa distância deliberada começou a alterar a relação entre eles.

Durante anos, Camila associara Felipe à sensação de ter pouco espaço.

Agora, toda vez que ele recuava quando ela dizia não, alguma parte dessa associação enfraquecia.

Mas outra parte permanecia.

Uma noite, depois de deixarem Theo dormindo, Felipe pediu cinco minutos na porta do apartamento.

— Eu nunca te perguntei uma coisa.

Camila esperou.

— Naquele dia, seis anos atrás… você foi ao meu escritório para me contar sobre a gravidez?

Ela sentiu o corpo enrijecer.

— Fui.

Felipe baixou a cabeça.

— E ouviu minha conversa com Helena.

— Ouvi.

— Você ouviu só aquela parte?

Camila ficou irritada.

— Não tente transformar isso num mal-entendido conveniente.

— Não estou tentando. O que você ouviu aconteceu. Eu falei com ela daquele jeito.

Camila permaneceu em silêncio.

Felipe continuou:

— Eu devia uma explicação a Helena sobre coisas que tinham acontecido entre nossas famílias e sobre promessas profissionais que eu vinha adiando. Ela queria saber se eu finalmente tinha decidido apoiá-la profissionalmente. Foi disso que estávamos falando.

Camila sentiu uma dor antiga se mover.

— E eu deveria adivinhar isso do corredor?

— Não.

Felipe levantou os olhos.

— Você não deveria ter precisado adivinhar nada. Eu deveria ter sido claro com você muito antes.

Camila respirou devagar.

A explicação não apagava sua decisão de esconder a gravidez.

Também não a transformava automaticamente em erro.

Naquele momento, com o que sabia e com a relação quebrada entre os dois, ela tomara a decisão que conseguira tomar.

— Mesmo que eu tivesse entendido aquela conversa de outro jeito — disse — três anos depois você ainda escolheu não me ouvir.

— Eu sei.

Dessa vez, ele não acrescentou justificativa.

Felipe foi embora.

Camila fechou a porta e ficou algum tempo parada na sala escura.

Pela primeira vez, a lembrança daquele corredor seis anos antes perdeu um pouco da força que tivera sobre ela.

Não porque estivesse errada em ter se sentido ferida.

Mas porque já não precisava construir todo o presente em torno do que havia ouvido naquele dia.

O passado continuava existindo.

Só não precisava continuar comandando cada escolha.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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