
PARTE 10
Quase um ano depois do dia em que o vídeo de Theo no mercado de usados apareceu nas redes sociais, Camila acordou antes do despertador.
Ficou alguns segundos olhando para o teto do quarto.
A rotina da casa parecia completamente comum.
Na cozinha havia uma lancheira esperando para ser preparada, um copo que Theo esquecera sobre a mesa na noite anterior e um roteiro cheio de marcações perto da cafeteira.
Era justamente aquela normalidade que a fazia perceber o quanto sua vida havia mudado.
A série para a qual entrara com um papel pequeno havia sido renovada.
Sua personagem ganhara mais espaço na nova temporada, e Camila começaria uma sequência maior de gravações na semana seguinte.
Não era a atriz mais famosa do país.
Não voltara ao ponto onde estivera antes do escândalo.
E não queria.
Agora escolhia os trabalhos com mais cuidado, recusava contratos que exigiam exposição excessiva e já não aceitava que urgência fosse usada para fazê-la assinar qualquer coisa sem ler.
A reparação recebida do Grupo Torres permanecia investida em grande parte.
Camila não a tratava como prêmio.
Era compensação por algo que jamais deveria ter acontecido.
Sua renda atual vinha novamente do próprio trabalho.
Theo apareceu na cozinha com o cabelo bagunçado.
— Hoje é sábado?
— É.
— Então o Felipe vem às nove.
Camila olhou para o relógio.
— Se você não tomar café logo, ele vai chegar antes de você terminar.
Theo se sentou imediatamente.
Nos últimos meses, passara a chamar Felipe de pai em algumas situações e de Felipe em outras.
Ninguém havia corrigido.
A primeira vez que “pai” escapara naturalmente, Felipe ficara alguns segundos sem saber o que dizer.
Theo nem percebera.
Camila sim.
Preferira continuar arrumando os pratos.
A relação dos dois já não precisava de cerimônias.
Felipe aprendera os horários da escola, conhecia o pediatra, sabia qual desenho Theo fingia não gostar e até conseguia identificar quando o menino dizia que estava “bem” apenas para não admitir que perdera uma partida de xadrez e ficara frustrado.
Também cometia erros.
Uma vez esqueceu uma atividade escolar.
Em outra ocasião, deixou Theo dormir tarde demais numa sexta-feira e recebeu uma criança mal-humorada durante todo o sábado seguinte.
Camila reclamou.
Felipe pediu desculpas.
E a vida continuou.
Aquilo era muito mais valioso do que qualquer demonstração grandiosa.
Às nove em ponto, o interfone tocou.
Felipe chegou sozinho.
Theo correu para pegar a mochila e anunciou que queria passar numa livraria antes do almoço.
— Você precisa de algum livro? — perguntou Felipe.
— Não.
— Então por que quer ir?
Theo olhou para ele como se a resposta fosse óbvia.
— Porque eu quero ver se encontro algum que precise.
Camila riu.
Felipe balançou a cabeça.
Antes de saírem, ele pediu:
— Camila, quando eu voltar, podemos conversar cinco minutos?
Ela assentiu.
Não sentiu medo.
Durante anos, qualquer pedido de conversa feito por Felipe parecia anunciar uma decisão capaz de alterar sua vida.
Agora era apenas uma conversa.
No fim da tarde, Theo voltou carregando dois livros e dizendo que havia convencido Felipe a comprar apenas um inicialmente, mas depois descobrira uma promoção.
— Você gastou mais porque estava em promoção? — perguntou Camila.
Felipe tirou os sapatos na entrada.
— Não quero falar sobre isso.
Theo começou a rir.
Depois correu para o quarto.
Felipe permaneceu na sala.
— Eu queria te contar antes que saísse na imprensa — disse. — Vou deixar a presidência executiva da divisão de entretenimento no fim do ano. Continuarei no conselho do grupo, mas outra pessoa vai assumir a operação diária.
Camila se surpreendeu.
— Por quê?
— Porque a empresa cresceu de uma forma em que muitas decisões ficaram dependentes demais de mim. O conselho já vinha discutindo mudanças desde a revisão do seu caso. Concordei que faz sentido.
Camila observou o rosto dele.
— Você está fazendo isso por causa do que aconteceu comigo?
— Não só. Mas o que aconteceu mostrou um problema que eu não queria enxergar.
Ela assentiu.
Felipe continuou:
— E quero ter uma rotina que não faça o Theo precisar marcar horário com meu assistente para saber quando vai me ver.
Camila ficou em silêncio.
Um ano antes, talvez tivesse interpretado a decisão como mais uma tentativa dele de provar alguma coisa.
Agora não precisava decidir qual era o significado oculto.
As escolhas de Felipe pertenciam a Felipe.
— Espero que funcione para vocês dois — disse.
Ele sorriu de leve.
— Eu também.
Felipe se preparou para ir, mas parou perto da porta.
— Tem outra coisa.
Camila esperou.
— Eu nunca te pedi desculpas de um jeito completo.
Ela ergueu ligeiramente as sobrancelhas.
Felipe não se aproximou.
— Eu te culpei por ter desaparecido da minha vida sem procurar entender por quê. Depois, quando surgiu aquele vídeo, usei o que eu sentia para justificar uma decisão empresarial que eu nunca deveria ter tomado daquela maneira. Eu tinha poder suficiente para exigir fatos e preferi usar esse poder para fechar uma porta.
Camila ouviu.
— Quando descobri o Theo, minha primeira reação foi pensar nos cinco anos que eu perdi. Demorei para entender que, enquanto eu pensava no que perdi, você estava vivendo as consequências do que eu fiz.
Ele respirou fundo.
— Então eu sinto muito. Não porque queira alguma coisa de você. Só porque eu devia ter dito isso sem esperar recompensa.
Camila demorou alguns segundos.
Não havia resposta capaz de corrigir seis anos.
Ainda assim, algumas palavras mereciam ser reconhecidas.
— Obrigada por dizer.
Felipe assentiu.
Não pediu perdão.
Não perguntou se ela mudara de ideia sobre os dois.
Apenas se despediu.
Na segunda-feira, Camila voltou ao estúdio.
Dessa vez, não como a mãe desconhecida de um menino que viralizara.
Também não como a ex-atriz que tentava limpar o próprio nome.
Entrou com o roteiro debaixo do braço, cumprimentou a equipe e foi para a maquiagem.
Uma jovem atriz que trabalharia com ela naquele dia perguntou, meio constrangida, se podia pedir um conselho.
Camila sorriu.
— Depende. Sobre o quê?
— Sobre como não ficar desesperada com tudo o que falam da gente na internet.
Camila pensou no passado.
Pensou no vídeo.
Nos contratos cancelados.
Na carta jurídica.
Na primeira noite de “Pequenos no Comando”.
Pensou também em Theo contando notas numa pequena banca de mercado, sem imaginar que aquele vídeo abriria uma porta que ela passara anos acreditando estar fechada para sempre.
— Escute o que puder te ajudar a melhorar — respondeu. — Mas não entregue a outras pessoas o direito de decidir quem você é.
A atriz assentiu.
Camila entrou no set.
Quando as luzes acenderam, não sentiu que estava recuperando a antiga vida.
A antiga vida já havia terminado.
E talvez essa fosse a melhor parte.
Depois da gravação, buscou Theo na escola.
Ele entrou no carro falando sobre um projeto que queria fazer para a feira da turma.
Camila ouviu tudo enquanto dirigia para casa.
O celular tocou duas vezes dentro da bolsa.
Ela não verificou.
Nenhuma ligação precisava decidir seu caminho naquele instante.
Ao parar no sinal, olhou pelo retrovisor e viu Theo no banco de trás, distraído com um caderno.
Camila sorriu.
Durante muito tempo, acreditara que vencer significaria provar para todos que haviam errado sobre ela.
Agora entendia de outro jeito.
Vencer era poder escolher um trabalho sem medo, dizer não sem culpa, permitir que o filho conhecesse o pai sem abrir mão de seus próprios limites e olhar para o futuro sem esperar que outra pessoa lhe concedesse permissão.
O sinal abriu.
Camila colocou o carro em movimento.
E, pela primeira vez em muitos anos, o próximo caminho pertencia inteiramente às escolhas dela.
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