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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

Meu cunhado me deu três tapas diante da família porque eu me recusei a doar meu apartamento, e meu marido ficou ao lado dele

PARTE 1

Quando o primeiro tapa atingiu meu rosto, antes mesmo da dor chegar de verdade, foi o som que meu cérebro registrou.

“Plaft!”

“Plaft!”

“Plaft!”

Três vezes seguidas.

A sala reservada do restaurante mergulhou num silêncio quase absoluto. Minha cabeça virou para o lado com a força dos golpes, meus ouvidos começaram a zumbir e a parte interna da boca bateu contra os dentes. Em segundos, senti aquele gosto metálico de sangue.

Quem tinha me batido era Bruno Almeida, meu cunhado, irmão mais novo do meu marido. Aos trinta anos, ele ainda não tinha conseguido organizar a própria vida.

Depois de me dar os três tapas, Bruno esfregou a mão, apontou para meu rosto e gritou, tomado pela raiva:

— Helena, você está passando dos limites, não está? Meu irmão sustenta você há anos. Você come na casa dele, vive do dinheiro dele, e agora a gente só está pedindo aquele apartamento velho para resolver a escola do meu filho. Estamos até sendo educados com você! Pare de agir como se fosse dona do mundo!

Virei lentamente a cabeça e encarei aquele homem diante de mim.

Depois olhei para Ricardo, meu marido, que estava sentado ao lado do irmão.

Ricardo evitou meus olhos.

Com uma expressão irritada, apagou o cigarro no pequeno prato à frente e falou, como se eu fosse a pessoa que estivesse causando problemas:

— Helena, olha a situação que você criou. Justamente hoje, num almoço de família. O Bruno bebeu demais. Custava concordar com ele por enquanto e conversar depois?

Aquele era meu marido.

Mantive uma das mãos sobre o rosto ardendo e passei os olhos por cada pessoa sentada à mesa.

A irmã de Ricardo continuava descascando um camarão, sem sequer levantar a cabeça.

Uma tia da família cochichava com a mulher sentada ao lado, observando a cena com aquele interesse de quem assiste a uma discussão que não lhe diz respeito.

E minha sogra, dona Sônia, permanecia na cabeceira da mesa. A mesma mulher para quem eu preparava refeições especiais todos os dias e a quem eu havia presenteado tantas vezes agora me olhava com severidade.

— Está olhando o quê? Sente-se logo! — ordenou.

Depois continuou:

— O Bruno só está preocupado com os estudos do Davi. Você é tia do menino. Não consegue ter um pouco de consideração? Esse apartamento fica vazio mesmo. Passa para o nome do Bruno e, quando o Davi estiver mais velho, vocês resolvem. Precisa fazer essa cara por causa de uma coisa tão pequena?

Respirei fundo. Minha voz saiu rouca.

— Dona Sônia, aquele apartamento é um bem que eu já tinha antes de me casar. Meus pais venderam a pequena fábrica que tinham no interior para me ajudar a comprá-lo.

Ela soltou uma risada fria.

— Seu? Depois que você se casou com o Ricardo, tudo virou coisa da família! Além disso, faz anos que você não trabalha. Quem paga as despesas da casa não é o Ricardo? Se ele não tivesse pago condomínio e outras contas durante todo esse tempo, aquele apartamento já estaria abandonado. Agora que pedimos para você ajudar o irmão dele, parece que estamos arrancando um pedaço do seu corpo.

— Exatamente! — Bruno se apressou em acrescentar.

Ele se inclinou sobre a mesa, falando alto.

— Cunhada, não seja egoísta. Meu irmão ganha quase R$ 1 milhão por ano e nunca reclamou de você ficar em casa sem trabalhar. Agora você acha mesmo que é tão importante assim? Vou deixar uma coisa clara: hoje você vai assinar. Querendo ou não. Se não assinar, pode sair da família Almeida!

Meus olhos desceram para o papel amassado que ele segurava.

No alto estava escrito: “Instrumento de Doação de Imóvel”.

Eles nem estavam mais tentando disfarçar.

Não era um empréstimo temporário.

Não era apenas permitir que Bruno usasse o endereço por algum tempo.

Era uma doação.

Se eu assinasse aquele documento e todos os procedimentos fossem concluídos, o apartamento que meus pais tinham me ajudado a comprar em São Paulo deixaria definitivamente de ser meu.

— Ricardo.

Olhei para a última pessoa em quem ainda havia uma parte de mim querendo acreditar.

Meu marido.

— Você também pensa assim?

Finalmente ele levantou a cabeça. Franziu a testa como se fosse ele quem estivesse sendo colocado numa situação injusta.

— Amor, a vida do Bruno também não está fácil. A esposa dele está cansada de ele não conseguir se estabilizar e falou até em separação. Se ele tiver esse apartamento numa região atendida por uma escola muito disputada, acredita que vai conseguir organizar melhor a vida do Davi e convencer a esposa a ficar. A gente já tem onde morar. Faz isso por mim, só desta vez. Eu estou pedindo.

Ele parecia sincero.

Talvez eu tivesse acreditado se não soubesse que, no mês anterior, ele havia transferido R$ 50 mil para o primeiro amor dele, dizendo apenas que ela estava passando por uma “urgência”.

Olhei para o homem com quem eu dividia a cama havia cinco anos.

Naquele momento, senti uma repulsa difícil de explicar.

Cinco anos antes, eu era auditora, formada por uma universidade respeitada e com uma carreira que avançava rapidamente.

Ricardo ainda era um pequeno empresário tentando fazer o negócio crescer.

Eu entrei naquele casamento levando meu próprio carro e meu apartamento. Também usei contatos que meus pais tinham construído ao longo da vida para apresentar clientes a Ricardo. Quando começamos a planejar ter filhos, abandonei um emprego bem remunerado e passei a cuidar da casa.

E qual tinha sido o resultado?

Na visão daquela família, eu havia me transformado numa mulher sustentada pelo marido.

Uma parasita.

Alguém sem valor próprio.

E agora eles queriam até aquilo que meus pais tinham sacrificado tanto para me dar.

— E se eu não assinar? — perguntei, afastando a mão do rosto.

Bruno arregalou os olhos e agarrou uma garrafa que estava sobre a mesa, fazendo menção de avançar.

— Não vai assinar? Hoje eu acabo com você, sua…

— Bruno! — Ricardo segurou o irmão.

Em seguida, voltou-se para mim.

Seu olhar estava frio.

— Helena, chega. Não transforme isso numa confusão maior. Se você não assinar hoje, talvez esse casamento também não tenha mais motivo para continuar.

Dona Sônia não perdeu a oportunidade:

— Se não vai assinar, vá embora! Nossa família não precisa sustentar gente ingrata. Quero ver, depois do divórcio, quem vai querer uma mulher como você!

Era uma ameaça.

Clara, aberta, sem qualquer tentativa de esconder.

Eles tinham certeza de que eu era fraca.

Tinham certeza de que eu não conseguiria abandonar Ricardo.

Tinham certeza de que eu jamais teria coragem de jogar fora os cinco anos que havia investido naquele casamento.

A Helena de antes talvez tivesse chorado. Talvez tivesse implorado para que parassem. Talvez tivesse cedido em nome daquela coisa que eu costumava chamar de “paz familiar”.

Talvez, depois de horas de pressão, tivesse assinado.

Mas naquele instante…

Aqueles três tapas pareciam ter arrancado de mim alguma coisa que já deveria ter desaparecido havia muito tempo.

Olhei para o rosto arrogante de Bruno.

Depois para a expressão indiferente de Ricardo.

E, por fim, para o olhar cheio de certeza de dona Sônia.

De repente, comecei a sorrir.

— Está rindo de quê? — Bruno berrou. — Sua…

Não respondi.

Peguei minha bolsa.

Virei-me.

E fui embora.

— Se sair por essa porta, não volte! — minha sogra gritou atrás de mim.

— Helena! — Ricardo levantou a voz. — Se você sair agora, nós vamos nos divorciar!

Meus passos hesitaram por uma fração de segundo.

Só uma.

Depois continuei.

Atrás de mim, ouvi o barulho de um prato se quebrando e Bruno voltando a gritar.

Quando atravessei a porta do restaurante, o ar quente de São Paulo atingiu meu rosto machucado e fez minha pele arder ainda mais.

Peguei o celular e vi meu reflexo na tela escura.

Metade do meu rosto estava inchada e vermelha.

Por alguns segundos, meus olhos pareceram perdidos.

Então alguma coisa dentro deles mudou.

Divórcio?

Era exatamente o que eu queria.

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