
PARTE 5
O projeto de três meses começou numa segunda-feira chuvosa. Eu cheguei cedo demais ao escritório, sentei numa cafeteria próxima e fiquei quase vinte minutos olhando para meu crachá provisório. Parecia uma coisa pequena, mas eu não usava um havia cinco anos.
Meu trabalho era revisar processos internos de uma empresa que estava reorganizando controles financeiros. Eu não ocupava uma posição importante, não tinha equipe própria e precisava pedir ajuda para sistemas que nunca tinha utilizado. Mesmo assim, na primeira semana, percebi algo que me emocionou mais do que gostaria de admitir: minha capacidade profissional não tinha desaparecido.
Ela estava apenas enferrujada.
Eu ainda sabia fazer perguntas difíceis. Ainda sabia identificar inconsistências. Ainda conseguia organizar informações que pareciam confusas para outras pessoas.
Quando recebi o primeiro pagamento do projeto, fiquei olhando para o valor na conta por alguns segundos.
Não era maior do que o dinheiro que Ricardo costumava movimentar.
Mas era meu.
Ganhei aquele dinheiro com minhas horas, meu conhecimento e minha decisão de voltar.
Enquanto minha rotina mudava, a situação na família Almeida começou a produzir as consequências que eles haviam tentado colocar sobre meus ombros.
Ricardo me contou isso durante uma reunião com os advogados.
Bruno e a esposa estavam discutindo cada vez mais. Ele havia prometido a ela que conseguiria o apartamento para resolver a questão da escola e dar uma sensação de estabilidade à família. Como a promessa não se cumprira, ela decidiu procurar outras alternativas de moradia e deixou claro que não esperaria indefinidamente que Bruno “resolvesse a vida”.
Ricardo falou aquilo como se eu devesse sentir culpa.
— O casamento deles está por um fio.
Patrícia permaneceu em silêncio ao meu lado.
— Eu lamento — respondi. — Mas não fui eu quem prometeu meu apartamento.
Ricardo apertou os lábios.
— Você sabe que, se tivesse ajudado, tudo seria diferente.
— Talvez. Meu patrimônio estaria no nome do seu irmão.
— Você fala como se ele fosse um estranho.
— Depois de me dar três tapas, ele deixou bem claro a distância entre nós.
A conversa voltou ao divórcio.
Havia bens adquiridos durante o casamento que precisavam ser avaliados. O carro que Ricardo usava tinha sido comprado depois do casamento. Algumas aplicações financeiras também. A empresa dele exigia análise mais cuidadosa porque havia sido criada antes da união, embora tivesse crescido durante aqueles anos.
Patrícia não prometeu que eu receberia metade de tudo.
Disse que cada item precisaria ser examinado conforme sua origem e a documentação disponível.
Aquela prudência me tranquilizava.
Eu não queria tomar de Ricardo o que não era meu.
Queria apenas que ele parasse de agir como se tudo que fosse meu pudesse ser dele.
Durante a reunião, surgiu também a transferência de R$ 50 mil.
Ricardo se irritou imediatamente.
— Eu já expliquei. Uma pessoa precisava de ajuda.
— O problema não é só quem recebeu — Patrícia explicou com calma. — Precisamos entender a origem dos recursos e como essa movimentação se relaciona ao patrimônio do casal.
Ele olhou para mim.
— Você quer me acusar de alguma coisa agora?
— Eu quero transparência.
Era a palavra que faltara durante anos.
Quando saímos da reunião, Ricardo me alcançou no corredor.
— Helena.
Parei.
— Você quer mesmo me expor desse jeito por causa daqueles R$ 50 mil?
— Eu não contei para ninguém com quem você falou. Você mesmo sabe para quem transferiu.
— Ela não é minha amante.
Eu o encarei.
— Eu não disse que era.
Ele ficou sem resposta.
E foi justamente essa reação que me mostrou quanto nós dois havíamos passado a conversar com fantasmas. Eu desconfiava porque ele escondera o dinheiro. Ele se defendia de uma acusação que eu nem tinha feito. A confiança já estava quebrada antes mesmo de qualquer conclusão sobre aquela mulher.
Naquela semana, dona Sônia apareceu na recepção da empresa onde eu trabalhava.
Não conseguiu subir porque não tinha autorização.
Recebi uma ligação da recepcionista perguntando se eu queria encontrá-la.
Minha primeira vontade foi dizer não.
Depois pensei que talvez fosse melhor estabelecer o limite pessoalmente.
Desci até o saguão.
Minha sogra estava sentada com a bolsa no colo, vestida com uma das roupas que eu mesma havia comprado para ela meses antes.
— Então agora você trabalha — foi a primeira coisa que disse.
— Estou trabalhando.
— Para provar o quê?
— Nada.
Ela apertou a boca.
— O Ricardo está acabado.
— Ele tem família, amigos e condições de cuidar da própria vida.
— Você era a esposa dele.
— Era.
A palavra fez dona Sônia piscar.
— Tudo isso porque o Bruno perdeu a cabeça uma vez?
— Não.
— Então por quê?
Respirei.
— Porque depois que ele perdeu a cabeça, todos vocês mostraram o que achavam que eu deveria aceitar.
Ela desviou os olhos.
Pela primeira vez, não tentou defender diretamente os tapas.
Em vez disso, falou:
— Você podia retirar a denúncia.
— Não.
— Ele tem filho.
— E justamente por ter filho deveria aprender que bater em alguém tem consequências.
Dona Sônia se levantou.
— Você mudou.
Talvez ela esperasse que eu negasse.
Não neguei.
— Mudei.
Voltei para o elevador antes que a conversa começasse a girar em círculos.
Na sexta-feira, Marcelo me chamou à sala dele.
Disse que a equipe estava satisfeita com meu trabalho e que, se eu continuasse naquele ritmo, poderia haver espaço para um contrato mais longo depois dos três meses.
Saí de lá carregando uma pasta de relatórios e uma alegria silenciosa.
Nada estava resolvido.
Meu casamento ainda precisava terminar oficialmente. A divisão patrimonial ainda exigiria tempo. Bruno ainda teria de responder pelo que fizera.
Mas minha vida já não estava parada esperando que a família Almeida decidisse meu próximo passo.
Era isso que mais os incomodava.
E, para mim, era exatamente o começo de que eu precisava.
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