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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

Com o fim das gravações de “Pequenos no Comando”, Theo voltou a ter uma rotina mais próxima da de qualquer criança de cinco anos. Escola durante a semana, desenhos aos domingos, xadrez com Felipe aos sábados e a tendência irritante de tentar negociar mais quinze minutos antes de dormir.

Camila gostou da normalidade.

A exposição diminuía pouco a pouco.

A série em que ela participava ainda não havia estreado, o que lhe deu algumas semanas para reorganizar a vida sem câmeras.

Foi nesse período que sua advogada apresentou a versão final do acordo de convivência e reconhecimento de paternidade.

Felipe já havia feito o reconhecimento formal de Theo.

Agora restava definir responsabilidades práticas.

Camila leu cada página.

Havia horários, férias, decisões médicas, escola e regras sobre exposição pública da criança.

Ela fez alterações.

Felipe também.

Durante a negociação, discordaram duas vezes sobre viagens.

Camila considerou prematuro permitir que Theo viajasse sozinho com Felipe por períodos longos. Felipe achou a restrição excessiva.

Meses antes, uma discordância semelhante poderia ter se transformado numa disputa de autoridade.

Dessa vez, conversaram com os profissionais envolvidos e chegaram a um período gradual: primeiro viagens curtas, depois reavaliação conforme Theo se adaptasse.

Nenhum dos dois conseguiu tudo o que queria.

E isso, curiosamente, fez o acordo parecer mais real.

Quando assinaram, Felipe observou o documento durante alguns segundos.

— Cinco anos atrás eu não sabia que ele existia.

Camila fechou a pasta.

— Agora sabe o horário da aula de natação.

Felipe sorriu.

— E sei que ele odeia mamão.

— Isso também.

Havia leveza na conversa, mas Camila sabia que uma questão ainda permanecia entre eles.

Felipe nunca pedira formalmente para reatar.

Mesmo assim, a proximidade criada pela convivência com Theo trazia de volta pequenas lembranças de quando haviam sido um casal.

Certas piadas.

Certos silêncios confortáveis.

O jeito como ele sabia quando ela estava cansada antes de ela dizer.

Camila percebeu o risco.

Não queria confundir mudança com reparação completa.

Felipe podia ter se tornado um pai presente sem que isso significasse que deveria voltar a ser seu companheiro.

Na mesma semana, a série estreou.

Camila assistiu ao primeiro episódio em casa com Larissa, Theo e um pote enorme de pipoca.

Seu papel era pequeno.

Ela apareceu por menos de dez minutos.

Mesmo assim, quando surgiu na tela, Theo pulou do sofá.

— Mãe! É você!

— Eu sei.

— Você está diferente.

— É maquiagem.

— Sua personagem parece brava.

Larissa começou a rir.

Depois do episódio, Camila recebeu mensagens de antigos colegas e de pessoas que nunca haviam trabalhado com ela.

Algumas críticas elogiaram sua atuação.

Outras quase não mencionaram seu nome.

Ela descobriu que gostava das duas coisas.

Ser ignorada numa crítica comum parecia estranhamente libertador depois de anos em que seu nome só aparecia ligado a um escândalo.

A produtora ofereceu participação em mais episódios.

Camila aceitou depois de negociar o novo contrato.

Pouco depois, uma agência independente a procurou.

Ela fez três reuniões antes de decidir assinar.

Dessa vez, pediu cláusulas que lhe davam mais controle sobre campanhas, entrevistas e uso de imagem.

A vida profissional começava a se sustentar novamente sem depender da reparação do Grupo Torres.

Felipe acompanhava tudo de longe.

Certa noite, depois de buscar Theo, ficou alguns minutos na porta do apartamento.

— Posso te perguntar uma coisa que não tem a ver com ele?

Camila sabia o que viria.

— Pode.

Felipe respirou fundo.

— Existe alguma possibilidade de nós tentarmos de novo algum dia?

Camila não respondeu imediatamente.

Não ficou surpresa.

Também não sentiu a raiva que teria sentido meses antes.

— Eu não sei se quero isso.

Felipe assentiu.

— Entendo.

— Não, deixa eu terminar.

Ele ficou em silêncio.

— Eu consigo ver que você mudou algumas coisas. Consigo ver o que está fazendo pelo Theo. E consigo reconhecer que assumiu publicamente o que fez comigo. Mas nada disso cria uma dívida emocional da minha parte.

— Eu sei.

— Se eu voltasse para você porque agora você se comporta melhor, eu ainda estaria deixando minhas escolhas girarem ao redor do que você faz.

Felipe ouviu sem interromper.

— Passei anos tentando sobreviver às consequências de decisões suas. Depois passei meses observando você corrigir algumas delas. Agora eu preciso descobrir como é viver sem ter você como centro da pergunta.

A frase doeu mais do que Felipe esperava.

Mas não havia crueldade nela.

— Então sua resposta é não?

Camila pensou.

— Minha resposta é: eu não quero reconstruir nosso relacionamento amoroso.

Felipe baixou os olhos por um instante.

Depois assentiu.

— Certo.

— Isso não muda sua relação com Theo.

— Eu sei.

Camila observou cuidadosamente o rosto dele.

— Você sabe mesmo?

Felipe levantou o olhar.

— Vou buscá-lo sábado às nove como combinamos.

Foi a resposta que ela precisava.

No sábado, às oito e cinquenta e oito, o interfone tocou.

Theo correu para pegar a mochila.

Camila percebeu que tinha passado os dois dias anteriores temendo, em alguma parte silenciosa de si, que Felipe se afastasse depois de ser rejeitado.

Ele não se afastou.

Não usou o filho para puni-la.

Não atrasou.

Não ficou frio com Theo.

Quando os dois voltaram no fim do dia, Theo entrou falando sem parar sobre uma partida de xadrez.

Felipe ficou na porta.

— Boa noite, Camila.

— Boa noite.

Não havia promessa romântica.

Não havia reconciliação.

Mas havia uma estrutura nova, construída sobre limites que ambos conheciam.

Camila fechou a porta e percebeu que se sentia em paz.

Não precisava odiar Felipe para não voltar para ele.

Não precisava perdoar cada detalhe para seguir em frente.

E, acima de tudo, não precisava escolher entre proteger o filho e proteger a si mesma.

Podia fazer as duas coisas.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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