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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Lúcia deu um passo para a frente assim que ouviu o barulho da caixa. — Você ficou maluca? Esses relógios são do Caio! Tirei as abotoaduras da gaveta e coloquei ao lado deles, sem pressa. — Eu sei de quem são.

Peguei também o dinheiro que estava guardado ali e coloquei tudo dentro de um envelope. Lúcia acompanhou meus movimentos como se eu estivesse cometendo um crime na frente dela. — Então por que está mexendo nas coisas dele? Fechei a gaveta. — Porque elas precisam sair daqui.

Ela ficou me encarando, tentando entender o que eu queria dizer. Em vez de explicar, fui até o banheiro e recolhi a nécessaire de Caio, o barbeador e alguns frascos que estavam do lado dele da bancada. Coloquei tudo na mala. Depois voltei ao quarto e comecei a separar os sapatos.

A cada item, o rosto de Lúcia parecia ficar mais confuso. No início, ela tinha certeza de que estava me vigiando para impedir que eu levasse alguma coisa da família Mendes. Agora, porém, eu estava fazendo exatamente o contrário. Eram as coisas de Caio que desapareciam dos armários.

— Espera aí. Ela finalmente segurou meu braço, mas soltou imediatamente quando virei o rosto para encará-la. — Por que você está arrumando tudo dele? — Porque ele não mora mais aqui.

Lúcia soltou uma risada nervosa. — Você é quem está indo embora, Marina. Esta é a casa do meu filho. Fechei o zíper da primeira mala e me levantei. — Não é.

A expressão dela mudou. — Como assim, não é? Você morou aqui porque se casou com ele! Passei por ela e fui até uma gaveta do armário onde eu mantinha os documentos importantes. Lúcia veio atrás de mim, ainda falando, mas parei de prestar atenção.

Peguei a pasta do imóvel e voltei para a sala. Coloquei a matrícula e os documentos sobre a mesa onde a xícara de chá ainda estava. — Leia. Lúcia olhou para os papéis, depois para mim, como se achasse que eu estava tentando enganá-la.

— O apartamento é meu patrimônio particular e sempre esteve registrado em meu nome. Isso também constou na documentação do divórcio. Apontei para os papéis. — Portanto, não sou eu quem vai embora.

Lúcia pegou a matrícula com as duas mãos. Leu o meu nome uma vez, voltou ao início e leu de novo. A cor do rosto dela mudou devagar. — Isso não pode estar certo.

— Está certo. Voltei ao quarto para pegar outra mala. — Você pode conferir quantas vezes quiser.

Ela veio atrás de mim de novo, mas agora já não parecia uma fiscal. Parecia alguém procurando desesperadamente uma explicação que mantivesse intacta a realidade na qual vivera durante três anos. — Caio nunca falou isso.

Parei diante dela. — Pergunte a ele. O apartamento já era meu antes do casamento e continua sendo meu depois dele. Então, quando eu disse que estava arrumando as coisas, eu estava falando das coisas de Caio.

Lúcia apertou os documentos contra o peito. — Você não pode simplesmente expulsar meu filho da própria casa! — Posso pedir que ele retire os pertences dele da minha casa. E é exatamente o que estou fazendo. Minha voz continuava baixa, mas não havia hesitação.

Ela procurou o celular na bolsa com movimentos apressados. Não tentei impedi-la. Enquanto Lúcia ligava para Caio, voltei ao quarto e continuei separando os objetos que pertenciam a ele. Pela primeira vez desde que eu chegara, ela já não tinha nada a dizer sobre o que eu podia ou não tocar.

Ouvi quando Caio atendeu. A voz de Lúcia saiu aguda, atropelada, perguntando se ele sabia que o apartamento estava no meu nome. Houve alguns segundos de silêncio. Depois ela ficou branca.

Quando desligou, me encarou. — Ele está voltando. Fechei a segunda mala e a coloquei ao lado da primeira. — Ótimo. Assim ele mesmo pode levar as coisas.

Naquele momento, alguma coisa realmente mudou dentro daquela casa. Durante três anos, Lúcia tinha entrado ali como se eu fosse a convidada e ela, a proprietária. Agora estava parada no meio da sala, segurando os documentos que provavam o contrário, enquanto as malas do próprio filho esperavam perto da porta.

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