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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

PARTE 5

Dois dias depois, recebi uma mensagem de Joana.

Não era longa.

“Preciso falar com você. Sem Daniel.”

Fiquei olhando para a tela por algum tempo.

Durante a faculdade, Joana sabia quando eu estava triste antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa. Dividimos quarto, provas, noites sem dinheiro suficiente para pedir comida melhor e planos que pareciam enormes naquela época.

Talvez por isso a traição tivesse doído de um jeito que Daniel nunca conseguiu compreender.

Ele havia quebrado um casamento.

Joana havia quebrado também uma amizade.

Não respondi imediatamente.

No fim da tarde, mandei apenas o endereço de uma sala privada em um centro médico próximo ao hospital e um horário para o dia seguinte. Eu não entraria no quarto dela nem transformaria a conversa em espetáculo.

Quando cheguei, Joana já estava lá em uma cadeira de rodas, acompanhada por uma funcionária do hospital que saiu assim que me viu.

Ela parecia mais frágil do que nas fotos publicadas nas redes sociais.

Mas doença não apaga responsabilidade.

Sentei-me diante dela.

— Você pediu para conversar.

Joana apertou as mãos no colo.

— Eu apaguei a postagem.

— Eu vi.

— Eu não coloquei seu nome.

— Não precisava. Daniel estava ligando para mim, pessoas próximas sabiam do divórcio, jornalistas apareceram no hospital e a expressão “ex-esposa” começou a circular. Não era difícil juntar as partes.

Ela desviou o olhar.

— Eu estava desesperada.

— Eu sei.

Joana pareceu surpresa.

Talvez esperasse uma discussão.

— Saber que você estava desesperada não transforma o que fez em algo certo.

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

Não senti prazer nisso.

— Os médicos disseram que minha situação era grave. Eu pensei que… se as pessoas soubessem…

— Que me pressionariam.

Ela não negou.

Ficamos alguns segundos em silêncio.

— Daniel disse que você talvez pudesse ser compatível — falou.

— Daniel não sabia disso.

Joana ergueu a cabeça.

— O quê?

— Eu nunca fiz o teste.

Seu rosto mudou.

Dessa vez, a surpresa pareceu genuína.

— Ele disse que você precisava fazer porque havia uma chance.

— Isso é muito diferente de dizer que existe alguém que pode salvar você e não quer.

Joana fechou os olhos.

Pela primeira vez desde o início de tudo, percebi que Daniel não tinha criado sozinho a distorção, mas também não tinha explicado as coisas com a mesma precisão para todos.

Isso não inocentava ninguém.

Apenas tornava a situação menos simples.

— Minha família está fazendo os exames — disse ela depois de algum tempo.

— Espero que encontrem uma alternativa.

Joana me olhou diretamente.

— Você não vai fazer?

Respirei fundo.

— Não.

Ela apertou os lábios.

— Mesmo depois de tudo que fomos?

A pergunta me atingiu de uma forma inesperada.

— Justamente por lembrar de tudo que fomos, eu gostaria que você entendesse o que está pedindo.

— Eu posso morrer.

— Eu sei.

— E você consegue dizer não assim?

— Consigo dizer não a um exame que está sendo exigido de mim depois que você participou da destruição do meu casamento e permitiu que milhares de pessoas me tratassem como culpada por uma compatibilidade que ninguém sequer confirmou.

Joana chorou em silêncio.

Eu continuei:

— Isso não significa que eu queira que você morra. Significa que minha compaixão não elimina meus limites.

Ela levou algum tempo para responder.

— Eu achei que, quando você descobrisse sobre mim e Daniel, você brigaria por ele.

Soltei uma respiração curta.

— Eu não queria vencer você. Eu queria não precisar disputar meu próprio marido.

A frase pareceu doer mais do que qualquer acusação.

Joana abaixou a cabeça.

— Ele dizia que vocês já estavam distantes.

— Nós estávamos.

Aquilo era verdade.

— Mas distância dentro de um casamento não dá autorização para uma terceira pessoa entrar nele.

Ela assentiu lentamente.

Não pedi detalhes sobre quando tinham começado.

Não precisava reabrir cada ferida para saber por que eu havia saído.

Antes de irmos embora, Joana fez algo que eu não esperava.

— Eu vou publicar uma correção.

Olhei para ela.

— Não faça por mim se for só para diminuir a culpa.

— Eu disse uma coisa que não era verdadeira. Eu preciso corrigir.

No fim daquela noite, ela publicou.

Escreveu que ninguém havia sido confirmado como doador compatível e que sua postagem anterior fora feita durante um momento de medo. Pediu que as pessoas parassem de atacar terceiros e afirmou que sua família continuava seguindo as orientações médicas.

Não citou meu nome.

Não precisava.

A repercussão foi rápida.

Algumas pessoas continuaram me criticando.

Outras admitiram que a história havia sido apresentada de forma errada.

Eu não comemorei.

A internet raramente devolve por completo aquilo que destrói.

Mas havia uma diferença importante: Joana havia assumido publicamente pelo menos uma parte de sua responsabilidade.

Na manhã seguinte, o processo de Vale Verde recebeu a primeira manifestação formal de interesse além do Grupo Carvalho.

Era de um fundo imobiliário que já conhecia a região e queria avaliar o projeto.

Marina entrou na minha sala sorrindo.

— Agora eles sabem que não são os únicos.

— É exatamente isso que eu queria.

— Vai vender para quem pagar mais?

— Não necessariamente.

Olhei os relatórios.

— Quero a proposta que faça mais sentido para a empresa. Preço importa, mas contrato, prazo e risco também.

Marina assentiu.

Era bom voltar a discutir problemas que podiam ser medidos em planilhas.

No final do dia, Daniel enviou outra mensagem.

“Joana me contou que vocês conversaram.”

Não respondi.

Logo depois veio outra.

“Ela disse que vai parar de pedir que você faça o teste.”

Continuei sem responder.

Então chegou a terceira.

“Eu também vou parar.”

Dessa vez, li duas vezes.

Não porque tivesse vontade de agradecer.

Mas porque aquela era a primeira vez, desde as trinta e seis ligações, que Daniel reconhecia que minha resposta não estava aberta a negociação.

Bloqueei a tela.

Minha decisão não precisava da aprovação dele.

Ainda assim, o fato de ele finalmente parar de pressionar mudava alguma coisa importante.

A partir dali, se Daniel quisesse falar comigo, teria de encontrar outro assunto além do meu corpo.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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