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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

PARTE 4

No domingo à noite, fui jantar na casa da minha mãe.

Fazia meses que eu não me sentava naquela mesa. Não porque tivesse rompido completamente com a família, mas porque nossa convivência havia se transformado, aos poucos, em uma sequência de cerimônias em que todos sabiam o que podia ser dito e, principalmente, o que devia permanecer escondido.

Minha mãe me esperava na sala.

— Você emagreceu.

Foi a primeira coisa que disse.

— Estou bem.

Ela assentiu, embora parecesse pouco interessada na resposta.

Durante o jantar, o assunto demorou menos de dez minutos para chegar ao divórcio.

— Você poderia ter esperado — disse ela. — Não precisava anunciar isso exatamente agora.

— Eu não anunciei para chamar atenção. Corrigi uma informação que estava sendo usada contra mim.

— Mesmo assim, havia outras maneiras.

Coloquei os talheres sobre o prato.

— Que maneira você teria escolhido? Continuar deixando as pessoas acreditarem que eu ainda era casada com um homem que levou jornalistas a um hospital para me pressionar?

Minha mãe desviou o olhar.

Ela tinha visto as notícias.

Todos tinham.

— Daniel sempre foi educado conosco.

— Ser educado com vocês não muda o que aconteceu comigo.

O silêncio ficou pesado.

Foi então que ela falou de Camila, minha prima.

Segundo minha mãe, minha ausência no casamento criaria comentários desnecessários. Eu lembrei que já havia recusado o convite antes de qualquer escândalo público.

— Não quero transformar o casamento dela em palco para perguntas sobre o meu divórcio.

— Mas fugir também gera perguntas.

— Não estou fugindo. Estou escolhendo não ir.

Pela primeira vez naquela noite, minha mãe pareceu perceber que eu não estava pedindo permissão.

A conversa mudou.

Não ficou agradável, mas ficou mais honesta.

Antes de sair, ela perguntou se eu pretendia voltar para Daniel caso a situação de Joana fosse resolvida.

Olhei para ela por alguns segundos.

— Não.

Uma palavra.

Sem explicação.

Sem defesa.

Foi estranho perceber quanto tempo eu havia gasto, ao longo dos anos, tentando tornar minhas escolhas aceitáveis para outras pessoas.

Na manhã seguinte, a situação de Vale Verde avançou.

A avaliação independente confirmou uma faixa próxima de R$ 1,6 bilhão. Além disso, duas empresas manifestaram interesse em analisar o ativo caso abríssemos um processo competitivo.

Nada garantia uma venda naquele valor.

Mas a ideia de que R$ 1,2 bilhão era a única saída havia desaparecido.

Chamei o conselho da empresa.

Decidimos suspender a negociação exclusiva com o Grupo Carvalho e abrir uma rodada limitada de propostas.

Era a primeira mudança concreta provocada pela tentativa de pressão comercial.

A segunda veio poucas horas depois.

Sérgio me telefonou pessoalmente.

Seu tom estava diferente.

— Natália, talvez possamos rever a estrutura.

— Envie uma nova proposta quando o processo for aberto.

— Não precisamos transformar isso em competição.

— Eu também achava que não precisávamos transformar meu casamento em ferramenta de negociação.

Ele ficou em silêncio.

— Daniel disse alguma coisa a você? — perguntou.

— O bastante já foi dito.

Desliguei.

Eu não sabia exatamente até que ponto Daniel tinha participado das conversas comerciais. Não transformaria suspeita em fato. O que eu sabia era que sua família permitira que o vínculo comigo fosse usado como parte da confiança em torno daquele consórcio.

Isso bastava para mudar minha postura.

Na mesma tarde, Daniel apareceu na recepção da minha empresa.

Marina perguntou se eu queria mandar que ele fosse embora.

Pensei por alguns segundos.

— Dez minutos.

Ele entrou na minha sala parecendo alguém que não dormia havia dias.

Não senti satisfação ao vê-lo assim.

Também não senti vontade de consolá-lo.

Daniel se sentou sem esperar que eu oferecesse.

— A Joana continua internada.

— Eu sei.

— A família está fazendo testes.

— Também sei.

Ele levantou os olhos.

— Você falou com o hospital?

— Falei com um médico. Sem pedir detalhes particulares dela.

Daniel respirou fundo.

— Então você sabe que é sério.

— Eu nunca disse que não era.

Ele apertou as mãos.

— Faça o teste.

A forma direta do pedido me surpreendeu menos do que teria surpreendido alguns dias antes.

— Não.

— Natália…

— Você pediu para conversar sem ser por causa da Joana. E desde que entrou aqui só falou dela.

Ele abriu a boca e fechou de novo.

— Eu queria pedir desculpas também.

— Pelo quê?

A pergunta pareceu desconcertá-lo.

Talvez ele esperasse que “desculpa” fosse suficiente.

— Pela imprensa. Pelo jeito como fiz tudo.

— E pelo casamento?

Ele ficou imóvel.

Não precisei dizer o nome de Joana.

Daniel sabia.

— Eu errei com você.

— Isso é diferente de dizer o que você fez.

Ele passou a mão pelo rosto.

— Eu me envolvi emocionalmente com ela quando ainda estávamos juntos. E depois deixei as coisas passarem de um limite que não deveriam ter passado.

Não havia revelação para mim naquela frase.

A traição já fazia parte do motivo pelo qual havíamos nos divorciado.

O que mudou foi ouvi-lo finalmente descrevê-la sem tentar suavizar.

— Obrigada por dizer com clareza — respondi. — Mas isso não muda minha decisão.

Ele levantou os olhos.

— Sobre o teste?

— Sobre nós.

Daniel ficou alguns segundos sem falar.

Então perguntou, quase num sussurro:

— E se você fosse a única pessoa compatível?

A pergunta poderia ter me atingido como uma acusação.

Mas, depois de conversar com o médico, eu sabia exatamente o que responder.

— Você ainda não sabe se eu sou compatível.

— Mas se fosse?

— A decisão continuaria sendo minha.

Ele abaixou a cabeça.

Eu não precisava desejar a morte de Joana para recusar a ideia de que salvar alguém era uma dívida que podia ser cobrada do meu corpo.

Antes de sair, Daniel parou junto à porta.

— A postagem dela está fazendo tudo pior. Eu pedi para apagar.

— Isso cabe a vocês.

— Ela está com medo.

— Eu também tive medo muitas vezes durante nosso casamento. Nem por isso transformei você em propriedade minha.

Ele saiu sem responder.

Naquela noite, a publicação de Joana desapareceu das redes sociais.

Não houve pedido de desculpas.

Não houve explicação.

Mas a mensagem que havia iniciado a campanha contra mim já não estava mais lá.

Era uma mudança pequena.

Ainda assim, pela primeira vez desde aquelas trinta e seis ligações, a pressão começava a recuar.

E eu não tinha cedido para que isso acontecesse.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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