
PARTE 2
Às oito e meia da manhã, eu já estava no escritório. Marina havia separado capturas das publicações públicas de Joana, matérias que começavam a aparecer e mensagens enviadas às páginas da empresa. Em poucas horas, uma situação médica que deveria pertencer a uma família e a uma equipe de saúde havia sido transformada em julgamento público.
O jurídico entrou na minha sala às nove. Minha primeira pergunta foi simples: havia algum exame demonstrando que eu era compatível com Joana? A resposta foi exatamente a que eu esperava. Eu nunca tinha feito um teste de compatibilidade para ela.
Pedi então que o comunicado começasse por esse ponto, sem atacar ninguém. Eu não divulgaria prontuários, diagnóstico ou detalhes da vida de Joana. Diria apenas que jamais havia sido submetida ao teste necessário para afirmar que poderia ser doadora e que qualquer procedimento médico envolvendo meu corpo dependeria exclusivamente do meu consentimento.
Antes que o texto fosse finalizado, Daniel ligou novamente. Dessa vez, atendi no telefone da empresa. Ele começou dizendo que precisava falar comigo pessoalmente, mas eu o interrompi e perguntei por que havia jornalistas no hospital.
Do outro lado, ele ficou em silêncio por alguns segundos. Depois afirmou que estava desesperado, que Joana piorava e que as pessoas precisavam entender a urgência. Perguntei se ele tinha contado aos jornalistas que eu nunca havia sido testada.
A respiração dele mudou. Daniel tentou dizer que um teste poderia ser feito rapidamente, que eu e Joana éramos amigas havia muitos anos e que valia a pena tentar. Foi então que ficou claro: ele não sabia se eu era compatível. Ele simplesmente havia decidido que minha recusa em me submeter ao exame podia ser apresentada como recusa em salvar uma vida.
— Então você levou meu nome para a imprensa antes mesmo de saber se minha medula serve para ela — eu disse. Daniel tentou responder, mas não deixei. — Você não está pedindo ajuda. Está tentando me obrigar a dizer sim.
Ele disse que não queria me obrigar, apenas não sabia mais o que fazer. Respondi que desespero não transformava meu corpo em obrigação. Também deixei claro que qualquer nova menção pública ao meu nome, à empresa ou ao nosso antigo casamento seria tratada pelo jurídico.
Assim que desliguei, autorizei a publicação do comunicado. O texto não mencionava Joana diretamente além do indispensável e não revelava seu diagnóstico. Em menos de uma hora, a informação de que eu nunca havia sido testada começou a circular junto das matérias que antes me acusavam.
Ao meio-dia, Marina entrou trazendo outra informação. A família Lima havia procurado discretamente a assessoria da minha empresa pedindo que o divórcio não fosse confirmado publicamente. Não dei uma resposta imediata, porque queria saber primeiro por que aquilo era tão importante para eles.
Foi então que pedi ao jurídico uma segunda nota, desta vez sobre minha vida pessoal. Curta, objetiva e sem acusações: eu e Daniel Lima estávamos legalmente divorciados havia quatro dias e não mantínhamos qualquer relação conjugal ou representação conjunta em assuntos pessoais ou empresariais.
Daniel me ligou menos de dez minutos depois da publicação. Não atendi. Em seguida vieram três mensagens dizendo que eu estava “complicando tudo” e que poderíamos ter conversado antes.
Às duas e meia, saí para a reunião com Sérgio Carvalho. No caminho, Marina comentou que o anúncio do divórcio já havia causado movimentação entre pessoas ligadas ao projeto de Vale Verde. Isso confirmou que o silêncio da família Lima não era apenas sentimental.
Cheguei ao Grupo Carvalho cinco minutos antes das três. Sérgio me recebeu pessoalmente e, depois das formalidades, colocou sobre a mesa a avaliação de R$ 1,2 bilhão. Eu não toquei no documento.
— Antes de discutirmos preço — falei — quero entender por que uma negociação da minha empresa vinha sendo conduzida como se a família Lima ainda tivesse qualquer influência sobre minhas decisões.
O sorriso de Sérgio desapareceu.
Naquele instante, percebi que as trinta e seis ligações de Daniel haviam aberto um problema muito maior do que ele provavelmente imaginava. Pela primeira vez desde o divórcio, não era eu quem precisava explicar uma escolha.
E eu não pretendia sair daquela sala sem respostas.
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