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LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

PARTE 10

Cheguei cedo para a etapa final do divórcio.

Ricardo já estava lá.

Quando me viu, levantou-se automaticamente, como se ainda fôssemos o casal que chegava junto a todos os compromissos importantes.

Depois percebeu o próprio gesto e voltou a se sentar.

Eu me acomodei alguns lugares distante dele.

Nossos advogados revisaram os pontos que já haviam sido discutidos: patrimônio, responsabilidades financeiras, convivência com Bia e demais acordos construídos ao longo dos meses.

Não havia grande disputa restante.

Mesmo assim, ouvir cada item em voz alta me causou uma sensação estranha.

A vida de sete anos cabia agora em documentos, horários e assinaturas.

Quando chegou minha vez de confirmar a decisão, ninguém fez discurso.

Perguntaram se eu estava de acordo.

Respondi:

— Sim.

Uma palavra.

Só isso.

Mas eu sabia quanto havia custado chegar até ela.

Depois de concluirmos aquela etapa, saímos praticamente ao mesmo tempo.

Ricardo me chamou antes que eu alcançasse o elevador.

— Helena.

Parei.

Ele veio até mim, mas manteve distância.

— Posso perguntar uma última coisa?

Assenti.

— Se Camila não tivesse morrido naquela noite… você acha que ainda estaríamos casados?

A pergunta me acompanhara em silêncio por muito tempo.

Talvez, sem o acidente, eu demorasse mais para descobrir.

Talvez Ricardo continuasse adiando.

Talvez Camila exigisse uma escolha.

Talvez outra coisa revelasse tudo.

Não havia como saber.

— Talvez ainda estivéssemos casados — respondi.

Ricardo abaixou os olhos.

— Então foi aquilo que acabou com a gente.

Balancei a cabeça.

— Não.

Ele me encarou.

— O acidente revelou o que já estava acontecendo.

Fiz uma pausa.

— O que acabou com nosso casamento foram as decisões que você tomou antes daquela noite e tudo o que eu aceitei durante anos para manter uma relação que já não me fazia bem.

Ricardo ficou em silêncio.

Não tentou discutir.

— Eu queria poder voltar atrás.

— Eu sei.

— Às vezes penso que, se eu tivesse terminado com ela antes…

— Talvez algumas coisas fossem diferentes.

— Ou se eu tivesse conversado com você quando comecei a me sentir infeliz.

— Talvez.

Ele respirou fundo.

— Não existe jeito de consertar?

Olhei para ele.

Ali estava o homem com quem eu havia dividido sete anos, criado uma filha, construído uma casa e imaginado envelhecer.

Ainda conseguia reconhecer o Ricardo que me fizera rir no início.

O pai que Bia amava.

O homem que agora parecia finalmente enxergar parte do próprio egoísmo.

Mas reconhecer essas coisas não me obrigava a reconstruir um casamento que eu já não queria.

— Existe jeito de você consertar muita coisa na sua vida — respondi. — Só não significa voltar a ser meu marido.

Ele engoliu em seco.

Depois assentiu.

— Entendi.

Dessa vez, não havia pedido escondido na palavra.

Entramos no elevador juntos.

Quando as portas se abriram no térreo, seguimos em direções diferentes.

Não houve abraço.

Não houve beijo de despedida.

Não houve promessa de amizade.

Houve respeito.

Para mim, bastava.

Naquela tarde, Bia estava com meus pais.

Fui buscá-la depois do trabalho.

Ela entrou no carro falando sem parar sobre a apresentação da escola que aconteceria na semana seguinte.

— O papai vai?

— Vai.

— E você?

— Claro.

— Então vocês vão sentar juntos?

Pensei.

— Talvez perto.

Ela aceitou a resposta e começou a falar sobre outra coisa.

Crianças às vezes compreendem mudanças melhor do que adultos quando percebem que continuam seguras.

A apresentação aconteceu numa sexta-feira.

Ricardo chegou antes de começar e guardou um lugar próximo para mim.

Sentamos com um espaço entre nós.

Meus pais ficaram na fileira de trás.

Quando Bia entrou no palco, procurou a plateia até encontrar nossos rostos.

Ricardo levantou a mão.

Eu também.

Ela sorriu.

Naquele momento, percebi que havíamos conseguido preservar algo importante sem fingir que o restante ainda existia.

Continuávamos sendo pais.

Não precisávamos continuar sendo marido e mulher para isso.

Depois da apresentação, Ricardo perguntou se podia levar Bia para tomar sorvete.

Era o fim de semana dele.

— Claro.

Bia segurou a mão do pai e depois voltou correndo para me abraçar.

— Domingo eu volto!

— Estarei esperando.

Ricardo fez um aceno discreto antes de sair.

Fiquei observando os dois até desaparecerem no estacionamento.

Minha mãe se aproximou.

— Está bem?

Olhei para ela.

— Estou.

E estava.

Não perfeitamente.

Ainda havia dias difíceis.

Algumas lembranças surgiam sem aviso.

Às vezes eu passava diante de uma loja e via um corta-vento bege. Às vezes alguém pedia lombo agridoce em um restaurante. Às vezes uma música que Ricardo gostava tocava no rádio.

Mas lembrança não era prisão.

Eu podia sentir e continuar.

Meu trabalho avançava devagar.

Meses depois, passei a assumir novas responsabilidades e consegui aumentar minha renda.

Não fiquei rica.

Não transformei minha vida numa história de sucesso instantâneo.

Eu apenas voltei a confiar que conseguiria cuidar de mim.

Essa confiança valia mais do que qualquer reviravolta.

Ricardo continuou fazendo terapia e mantendo a rotina com Bia.

De vez em quando, ainda cometia erros.

Atrasava alguns minutos.

Esquecia alguma coisa da escola.

Tentava opinar demais sobre decisões que já eram minhas.

Quando isso acontecia, eu colocava o limite.

E, pouco a pouco, ele aprendeu a escutar.

Nunca perguntei se voltou a se relacionar com alguém.

Não era mais assunto meu.

Também não tive pressa para conhecer outra pessoa.

Pela primeira vez, estar sozinha não parecia um intervalo entre dois relacionamentos.

Parecia uma vida completa.

Certo domingo, Bia voltou da casa do pai e perguntou o que teríamos para o jantar.

Abri a geladeira.

— Ainda não decidi.

Ela apontou para um pacote de carne.

— Você podia fazer aquele lombo agridoce.

Fiquei imóvel por um segundo.

Depois ri.

— Achei que você tivesse esquecido.

— Eu gosto.

Olhei para minha filha.

Lembrei da noite em que dissera que nunca mais faria aquele prato para Ricardo.

Durante algum tempo, evitei a receita porque parecia pertencer ao meu casamento.

Mas não pertencia.

Eu tinha aprendido.

Eu tinha preparado.

Minhas mãos tinham aperfeiçoado cada detalhe.

Não precisava abandonar algo que eu sabia fazer apenas porque um dia fizera por alguém que não soube valorizar.

— Está bem — respondi. — Hoje a gente faz.

Bia correu para a cozinha.

— Posso ajudar?

— Pode.

Ela lavou as mãos e subiu num pequeno banquinho.

Enquanto eu cortava a carne, ela misturava o molho com uma concentração exagerada.

— Assim?

— Mais devagar.

— Mamãe, você gosta desse prato agora?

Parei por um instante.

Provei um pouco do molho.

Estava bom.

Sorri.

— Acho que gosto quando faço porque quero.

Bia não entendeu completamente, mas sorriu também.

Quando terminamos, coloquei dois pratos sobre a mesa.

Nenhum lugar ficou reservado para Ricardo.

Nenhum de nós esperava alguém chegar.

Sentamos, comemos e conversamos sobre a escola, meu trabalho e o filme que Bia queria assistir.

O lombo estava no ponto certo.

Crocante por fora.

Macio por dentro.

Durante anos, eu acreditara que aprender aquela receita era prova do quanto eu conseguia me adaptar para merecer amor.

Naquela noite, finalmente entendi outra coisa.

Cuidar de alguém podia ser amor.

Mas abandonar a si mesma nunca seria.

Depois do jantar, Bia foi buscar o filme.

Fiquei sozinha por alguns segundos diante da mesa.

Olhei para a casa silenciosa, para meu prato vazio e para o espaço que eu finalmente aprendera a ocupar sem pedir licença.

Então sorri.

Porque, pela primeira vez em muitos anos, minha vida não era uma tarefa que alguém havia definido para mim.

Era uma escolha que eu mesma estava fazendo.

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