
PARTE 2
Ricardo ficou em silêncio por alguns segundos, como se procurasse uma resposta que não o denunciasse. Quando falou de novo, a voz já estava mais baixa, mas a tensão continuava ali. — Ninguém disse que você causou nada. — Então pare de falar comigo como se eu tivesse alguma obrigação de correr para lá porque você perdeu o controle.
Ele respirou fundo e perguntou como eu sabia a cor da roupa da mulher. Respondi que tinha olhado pela janela, exatamente como qualquer morador curioso poderia fazer depois de ouvir a movimentação na rua. Não mencionei mais nada. Se ele queria dizer alguma coisa, teria de fazê-lo sozinho.
— Helena, aquela mulher… — começou ele, mas parou. Esperei sem ajudá-lo. Depois de alguns segundos, ele mudou a frase: — Talvez eu conheça. Foi a primeira vez naquela noite que ele admitiu alguma coisa concreta.
— Talvez? — perguntei. Ricardo disse que trabalhava com uma mulher que costumava usar uma jaqueta parecida e que só queria ter certeza. Perguntei por que um simples casaco tinha sido suficiente para fazê-lo abandonar a filha no meio do jantar. Ele não respondeu.
Bia me olhava de vez em quando, tentando entender por que o pai continuava falando tão alto pelo telefone. Eu me recusei a transformar nossa filha em plateia. Disse a Ricardo que encerraria a ligação e que conversaríamos depois, quando Bia estivesse dormindo. Antes que ele protestasse, desliguei.
Terminei o jantar com minha filha, lavei o rosto dela e ajudei-a a colocar o pijama. Bia perguntou mais uma vez se o pai voltaria logo. Eu disse apenas que sim, que ele estava resolvendo um problema lá embaixo. Naquela noite, eu não usaria uma criança de seis anos para ferir o pai, por mais ferida que eu estivesse.
Ricardo voltou quase uma hora depois. Entrou sem fazer barulho e ficou parado na sala, olhando primeiro para mim e depois para o corredor que levava ao quarto de Bia. Seu rosto continuava pálido. — Ela está dormindo? — perguntou. Assenti.
Ele sentou no sofá, mas parecia incapaz de encontrar uma posição confortável. Passava o polegar pela articulação do indicador repetidamente. Quando perguntei quem era a mulher, respondeu que se chamava Camila e trabalhava na mesma empresa. Disse que não sabia se era realmente ela até chegar perto da área isolada.
— E era? — perguntei. Ricardo demorou a responder, mas acabou confirmando com a cabeça. Eu senti um aperto frio no peito, não pela morte de alguém que eu mal conhecia, mas pelo modo como o homem à minha frente parecia ter perdido o chão. A reação dele dizia muito mais do que a palavra “colega”.
Perguntei por que Camila estava na frente do nosso prédio. Ricardo desviou os olhos e respondeu que não sabia. Então perguntei se ela sabia onde morávamos. Mais uma vez, vi o polegar roçar o indicador. — Acho que sim — disse ele.
Não levantei a voz. Apenas perguntei como uma colega de trabalho sabia nosso endereço e por que ele parecia ter esperado encontrá-la lá. Ricardo se irritou, disse que aquele não era o momento para interrogatório e que uma pessoa tinha acabado de morrer. Concordei. Justamente por isso, eu não permitiria que ele usasse a morte dela como escudo para continuar mentindo.
Ricardo se levantou e começou a andar pela sala. Disse que Camila havia mandado mensagens enquanto ele voltava da viagem, que queria conversar pessoalmente, e que ele pedira para ela não aparecer. Quando perguntei sobre o assunto da conversa, ele esfregou o rosto com as duas mãos. — Era uma coisa entre nós dois. Foi tudo o que conseguiu dizer.
— Então existe um “nós dois” — respondi. Ele percebeu tarde demais o que acabara de admitir. Tentou corrigir, dizendo que eu estava distorcendo suas palavras, mas eu já não precisava discutir sem fim. Pedi que naquela noite ele dormisse no quarto de hóspedes.
Ricardo ficou me olhando como se nunca tivesse considerado a possibilidade de eu impor uma regra dentro da própria casa. Disse que eu estava exagerando antes mesmo de saber o que havia acontecido. Respondi que não estava decidindo o futuro inteiro do nosso casamento naquela noite. Estava apenas decidindo onde eu me sentia confortável em dormir.
Antes de ir para o quarto, ele perguntou se eu havia falado com alguém sobre o acidente. Disse que uma moradora tinha me avisado que a polícia preservara a gravação de uma câmera veicular. O rosto dele mudou novamente, e aquela reação foi suficiente para confirmar que ainda havia coisas que ele temia que eu descobrisse. — Amanhã — eu disse — você vai me contar por que Camila veio até aqui.
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