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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

PARTE 6

Júlia ficou vários segundos mexendo no copo de água antes de começar. Eu não disse nada para ajudá-la. Depois de tantas mensagens agressivas, ela teria de escolher as próprias palavras. Quando finalmente levantou os olhos, a primeira coisa que fez foi admitir que sabia que a mãe queria ficar com os documentos.

— Eu sabia que ela ia pedir — disse.

Aquilo não era exatamente uma surpresa. Eu tinha visto a mensagem “Conseguiu?” na tela do celular de Sônia. Mesmo assim, ouvi-la reconhecer participação mudou alguma coisa entre nós.

Júlia explicou que Sônia vinha dizendo havia dias que eu era jovem demais e que, depois da morte do meu pai, alguém precisava “assumir a frente”. Na cabeça das duas, isso significava controlar os papéis, acompanhar o banco, participar do inventário e, mais tarde, me convencer sobre o destino do apartamento. Júlia insistiu que elas não tinham um contrato pronto, comprador escondido ou documento falsificado.

Eu acreditei nessa parte porque nada do que eu encontrara até então indicava algo assim.

O problema era mais simples.

E talvez justamente por isso mais feio.

Elas achavam que poderiam me colocar diante de decisões já encaminhadas até que eu cedesse.

— Minha mãe dizia que você nunca ia saber lidar com um imóvel desse valor — continuou Júlia. — Ela achava que, se estivesse com os documentos, você teria que perguntar tudo para ela.

— E passar para outro nome?

Júlia respirou fundo.

— Ela queria descobrir o que era possível fazer. Eu não sei até onde ela iria.

Dessa vez, não havia como transformar a resposta numa confissão maior do que era. Júlia não sabia. Eu também não. A única coisa certa continuava sendo o que estava gravado.

Perguntei por que ela estava me contando aquilo agora.

Júlia riu sem humor.

— Porque minha mãe está dizendo para todo mundo que a ideia foi minha.

Eu me recostei na cadeira.

Então era aquilo.

A união entre as duas começara a ruir quando surgira uma consequência real.

Júlia disse que Sônia repetia em casa que só tinha ido ao cartório porque a filha a pressionara. Júlia, por sua vez, dizia que apenas perguntara pelos documentos porque a mãe já havia falado do plano antes. A discussão entre elas aumentava a cada dia.

— Eu não quero ficar no meio disso — falei.

Júlia pareceu irritada.

— Você já está no meio.

— Não. O apartamento é meu problema. A briga entre vocês duas é de vocês.

Ela ficou em silêncio.

Depois perguntou se eu pretendia denunciar a mãe dela.

Respondi que meu objetivo era concluir o inventário e proteger o patrimônio. Se surgisse alguma tentativa concreta de falsificação, fraude ou uso indevido dos meus dados, eu tomaria as medidas necessárias. Mas eu não criaria acusações apenas para punir alguém por ter me ferido.

Júlia me encarou por alguns segundos.

— Você mudou.

— Meu pai morreu.

A resposta saiu antes que eu pensasse.

Nós duas ficamos quietas.

Havia uma diferença entre amadurecer e simplesmente não ter mais alguém para resolver as coisas por você. Eu ainda não sabia qual das duas estava acontecendo comigo.

Antes de irmos embora, pedi a Júlia apenas uma coisa.

— Não quero mais mensagens exigindo que eu fale com sua mãe. Se ela precisar tratar do inventário ou devolver alguma coisa, minha advogada tem contato com ela.

Júlia assentiu.

Foi a primeira vez que ela aceitou um limite sem discutir.

Nos dias seguintes, ela realmente parou de me ligar.

Sônia, porém, adotou outra estratégia.

Começou a telefonar para parentes mais velhos e pedir que intermediassem uma reconciliação. Duas pessoas me procuraram dizendo que eu deveria “virar a página” porque a família já havia sofrido demais com a morte do meu pai.

Eu respondia sempre da mesma forma.

— Posso ser educada com minha tia. Isso não significa devolver a ela o controle das minhas decisões.

Alguns entendiam.

Outros achavam que eu estava sendo dura.

Eu parei de tentar escolher qual opinião deveriam ter sobre mim.

Ao mesmo tempo, o inventário chegava a uma fase mais concreta. Os documentos do apartamento estavam regulares, as informações financeiras haviam sido reunidas e as obrigações necessárias começavam a ser calculadas e encaminhadas. A cada reunião, minha dependência da interpretação de Sônia diminuía.

Foi quando recebi uma mensagem inesperadamente simples da própria Sônia.

“Quero meus recibos do funeral de volta.”

Não havia pedido de desculpas.

Não havia acusação.

Apenas uma solicitação objetiva.

Separei os originais que pertenciam a ela, mantive cópias do que precisava e combinei a entrega através do escritório da advogada.

A troca aconteceu sem que nos víssemos.

Naquela noite, percebi algo curioso.

Durante semanas, Sônia havia insistido que “família resolve família”.

No entanto, o momento mais tranquilo desde o funeral tinha sido justamente aquele em que cada pessoa recebeu o que lhe pertencia, tudo foi registrado e ninguém precisou levantar a voz.

Talvez o problema nunca tivesse sido a formalidade.

Talvez fosse a impossibilidade de usar culpa e afeto quando tudo estava claramente definido.

Alguns dias depois, um parente organizou um almoço de aniversário e convidou nós duas.

Eu quase recusei.

Depois decidi ir por uma hora.

Não queria permitir que o conflito determinasse todos os lugares onde eu podia estar.

Quando cheguei, Sônia já estava sentada à mesa.

Ela levantou os olhos.

Eu disse apenas:

— Oi, tia.

Ela respondeu:

— Oi.

Foi desconfortável.

Mas ninguém explodiu.

Ninguém discutiu o apartamento.

Para mim, aquela pequena normalidade já era uma mudança.

No caminho de volta para casa, recebi uma mensagem de Júlia.

“Obrigada por não ter falado da gravação na frente de todo mundo.”

Olhei para a tela.

Eu ainda não sabia se aquilo era gratidão, medo ou apenas alívio.

Respondi:

“Não estou tentando humilhar ninguém. Só não vou fingir que não aconteceu.”

Dessa vez, ela escreveu apenas:

“Entendi.”

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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