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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

PARTE 4

A segunda entrevista foi mais difícil do que a primeira. Havia duas pessoas na sala, perguntas mais específicas e um teste que me obrigou a recuperar habilidades que eu não usava havia três anos. Em alguns momentos, senti que estava lenta. Em outros, percebi que muita coisa ainda estava ali.

Quando saí, não sabia se tinha ido bem o suficiente.

O que eu sabia era que não queria mais voltar para casa e passar o resto do dia esperando uma resposta.

Então sentei em um café próximo, abri o computador e comecei a estudar o que eu tinha sentido mais dificuldade em responder.

Aquilo virou hábito.

Durante a semana, eu acordava cedo, caminhava um pouco pelo bairro, revisava materiais da minha área e enviava currículos. À tarde, resolvia assuntos do divórcio ou organizava o apartamento.

A mudança mais importante não era financeira.

Era perceber que meu dia tinha deixado de girar em torno do que Bruno fazia.

Enquanto isso, a negociação do divórcio avançava devagar.

Os advogados tinham conseguido chegar a alguns consensos sobre bens e despesas, mas ainda havia pontos importantes em discussão. Ninguém apertava um botão e fazia oito anos de vida compartilhada caberem em uma planilha perfeita.

Também havia uma diferença entre aquilo que eu queria e aquilo que Bruno queria.

Eu queria encerrar.

Ele queria ganhar tempo.

Numa das reuniões, o advogado dele propôs que adiássemos a conclusão por alguns meses.

Perguntei o motivo.

A resposta foi vaga: Bruno acreditava que decisões tomadas “num momento de forte emoção” poderiam mudar.

Meu advogado me olhou antes de responder.

Eu mesma falei:

— Digam a ele que a emoção já mudou. A decisão, não.

Dois dias depois, Bruno apareceu no meu prédio.

Ele não subiu.

Mandou uma mensagem dizendo que estava na portaria e perguntou se eu poderia descer por cinco minutos.

Pensei em recusar.

Depois decidi ir.

Não porque devesse uma conversa a ele, mas porque queria deixar uma coisa clara pessoalmente.

Bruno estava encostado no carro.

Parecia cansado.

— Você está diferente — disse quando me aproximei.

— Faz poucas semanas.

— Para mim parece mais.

Cruzei os braços.

— O que você veio dizer?

Ele respirou fundo.

— Eu falei com o advogado. Vou parar de tentar adiar.

Esperei.

— Mas eu quero entender uma coisa. Você decidiu se divorciar antes de saber da gravidez?

— Sim.

Ele pareceu surpreso.

— Então não foi isso.

— Nunca foi.

— Foi a viagem?

Balancei a cabeça.

— Também não.

A expressão dele mudou.

— Então o que foi?

Eu o encarei por alguns segundos.

— Foi você escolher outra pessoa várias vezes e depois me convencer de que cada escolha isolada era pequena demais para justificar minha reação.

Bruno abriu a boca, mas não falei por cima dele.

— A carona na chuva era pequena. As mensagens eram pequenas. Trazer a Júlia de volta no segundo dia do nosso casamento era pequeno. Viajar com ela no meu lugar era pequeno. Ficar na mesma suíte era pequeno. E, no fim, eu é que sempre parecia exagerada porque cada coisa, sozinha, podia ser explicada.

Ele desviou o olhar.

— Eu errei.

— Errou.

— Mas oito anos…

— Não apagam isso.

Bruno apertou os lábios.

— Eu achei que você nunca fosse embora de verdade.

A frase me acertou com uma clareza quase dolorosa.

Não era uma desculpa.

Mas talvez fosse a primeira vez que ele chegava perto da verdade.

Durante anos, Bruno tinha contado com o fato de que eu ficaria.

Minha paciência tinha virado segurança para ele.

Meu amor tinha virado margem.

— Pois é — respondi. — Você achou errado.

Antes de entrar novamente no prédio, ele me chamou.

— Lívia.

Olhei para trás.

— A Júlia está pressionando para eu resolver tudo logo.

Eu não consegui esconder a ironia.

— Nesse ponto, nós duas concordamos.

Subi.

Na manhã seguinte, recebi uma ligação da empresa onde tinha feito as entrevistas.

Eles queriam me contratar.

O salário era menor do que o que eu ganhava antes de parar de trabalhar, e a função também não era exatamente no nível em que eu havia deixado minha carreira.

Ainda assim, aceitei.

Não porque fosse a oportunidade perfeita.

Mas porque era real.

Meu primeiro dia aconteceu numa segunda-feira chuvosa.

Passei quase toda a manhã tentando decorar nomes, entender processos e lembrar senhas. À tarde, cometi um erro pequeno num relatório e precisei refazer parte do trabalho.

Voltei para casa cansada.

Também voltei satisfeita.

Pela primeira vez em três anos, aquele cansaço vinha de algo que eu mesma havia escolhido construir.

Na mesma semana, Bruno decidiu aceitar uma reunião de mediação.

Meu advogado explicou que o objetivo não era obrigar ninguém a ceder, mas reduzir pontos de conflito e tentar chegar a termos possíveis para os dois.

Eu concordei.

Não queria prolongar a guerra.

Queria apenas sair dela sem abrir mão do que era justo.

Quando entrei na sala da mediação, Bruno já estava sentado.

Ele levantou os olhos quando me viu.

Durante alguns segundos, a expressão dele foi estranha.

Talvez porque eu estivesse usando roupas de trabalho.

Talvez porque eu tivesse chegado sozinha.

Ou talvez porque finalmente estivesse percebendo que a vida que ele imaginava congelada à espera dele já tinha começado a andar.

A conversa foi longa.

Falamos da casa.

De contas.

De bens adquiridos juntos.

Da empresa e dos valores que precisavam ser verificados com documentos, sem suposições.

Houve momentos de tensão.

Mas, pela primeira vez, Bruno não tentou me convencer de que eu estava exagerando.

Quando discordava, discordava do número.

Quando eu discordava, fazia o mesmo.

Era quase estranho.

No final, ainda não tínhamos um acordo completo.

Mas havíamos reduzido bastante o que restava em disputa.

Do lado de fora, Bruno me alcançou.

— Você começou a trabalhar?

— Comecei.

Ele pareceu procurar uma resposta adequada.

— Está gostando?

— Estou reaprendendo.

Ele assentiu.

— Eu achei que você fosse voltar quando percebesse como era difícil.

— Eu sabia que seria difícil antes de sair.

Bruno baixou os olhos.

Foi a primeira vez que ele pareceu entender que dificuldade não era o mesmo que arrependimento.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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