
Aos três anos, levei um tapa da namorada do meu irmão — e ela não fazia ideia de quem eu era naquela família
PARTE 1
Eu tinha apenas três anos quando a namorada do meu irmão me deu um tapa no rosto.
Foi um único tapa.
Mas bastou para provocar a fúria de uma família que, havia nove gerações, só via nascer meninos.
Na família Menezes, durante nove gerações consecutivas, não tinha nascido uma única menina.
Por isso, quando vim ao mundo, meu avô, que estava internado na UTI, ficou tão eufórico ao receber a notícia que arrancou a máscara de oxigênio do rosto e tentou se sentar na cama, rindo como uma criança.
Minha mãe ainda nem tinha saído da maternidade quando mandou colocar brincos em mim e pendurou no meu pescoço um pequeno pingente de ouro que simbolizava proteção e vida longa.
Meu pai, naquele mesmo dia, criou um fundo separado exclusivamente para as despesas da única menina da família Menezes.
Meus nove primos apareceram quase ao mesmo tempo no hospital para me conhecer.
Era tanta gente que quase bloquearam o corredor inteiro.
Desde a época em que comecei a andar até aprender a falar direito, fui cercada de cuidados por todos.
Mas, se alguém perguntasse quem mais me mimava…
A resposta era simples.
Meu irmão.
Henrique Menezes.
Ele costumava me pegar no colo e dizer, sorrindo:
— Nesta vida, a Nina é o meu único ponto fraco.
Era ele quem me dava comida quando eu fazia manha.
Era ele quem me colocava para dormir.
Quando saíamos, segurava minha mão com tanta atenção que parecia acreditar que eu poderia cair se ele soltasse por um segundo.
Eu cresci acreditando que, enquanto meu irmão estivesse perto, ninguém teria coragem de me machucar.
Até aquele dia.
O dia em que ele levou a namorada para casa.
Henrique saiu da sala por alguns minutos para atender uma ligação.
Foi o suficiente.
A mulher se agachou diante de mim, segurou meu queixo com força e perguntou:
— Então é você? A interesseira que vive grudada no meu namorado?
Eu nem tive tempo de chamar meu irmão.
Plaft!
O tapa acertou meu rosto.
Eu tinha três anos.
Meu nome era Nina Menezes.
Foi meu avô quem escolheu meu nome. Ele dizia que nossa família tinha esperado por uma menina durante tanto tempo que queria um nome simples, carinhoso e impossível de esquecer.
Minha família era muito rica.
Tão rica que, no meu aniversário de três anos, meu pai reservou um aquário inteiro por algumas horas só para que eu pudesse passar mais tempo perto dos golfinhos.
Mas nada disso me impressionava muito.
Naquela idade, havia uma única pessoa que realmente importava para mim.
Meu irmão.
Henrique tinha vinte e seis anos e era um dos vice-presidentes mais jovens do Grupo Menezes.
Para quem trabalhava com ele, era um homem frio, objetivo e difícil de se aproximar.
Para mim, porém, era simplesmente o irmão que todas as noites se sentava ao lado da minha cama para contar uma história.
Quando eu adormecia, ele ajeitava meu cobertor, beijava minha testa e só então saía do quarto.
Eu realmente acreditava que Henrique era a melhor pessoa do mundo.
Até aquele fim de semana.
Ele raramente passava o sábado inteiro em casa.
Naquela manhã, apareceu sorrindo e disse:
— Nina, hoje uma amiga minha vem nos visitar.
Eu balancei a cabeça obedientemente.
— Tá bom. A Nina vai se comportar.
Achei que fosse apenas uma amiga qualquer.
Algum tempo depois, a campainha tocou.
Eu estava deitada de barriga para baixo sobre o tapete da sala, completamente concentrada em um desenho.
A mulher que entrou era alta e magra, usava salto alto e uma maquiagem bem marcada. O batom era de um vermelho tão forte que me lembrou a tinta mais viva da minha caixinha de aquarela.
Assim que me viu, o olhar dela mudou.
Não era a expressão carinhosa que os adultos normalmente faziam quando encontravam uma criança.
Era um olhar fixo.
Estranho.
Henrique fez a apresentação:
— Nina, esta é a Fernanda Duarte.
Larguei o lápis e cumprimentei educadamente:
— Oi, irmã Fernanda.
Fernanda apenas levantou levemente o canto dos lábios.
Não respondeu.
Foi justamente naquele momento que o celular do meu irmão tocou.
Henrique olhou para a tela e disse:
— Nina, fica boazinha, tá? Vou atender no escritório e já volto.
Balancei a cabeça.
Ele saiu.
A sala ficou apenas comigo e Fernanda.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
Então ouvi o som dos saltos se aproximando pelo piso.
Fernanda parou diante do tapete e se agachou.
Levantei o rosto.
Por um instante, achei que ela queria olhar meu desenho.
Em vez disso, seus dedos seguraram meu queixo com força.
As unhas longas pressionaram minha pele.
Doeu.
— Então é você?
A voz dela saiu baixa.
— A interesseira que vive grudada no meu namorado.
Pisquei, sem entender absolutamente nada.
Fernanda apertou meu rosto ainda mais.
— Vai continuar fingindo?
Olhei para ela assustada.
— Você acha que basta fazer dois coquinhos no cabelo e usar vestido de princesa para todo mundo acreditar que você é criança? Na internet já disseram que não existe princesinha nenhuma na família Menezes. Você só está encostada neles para aparecer e viver como rica.
Meus olhos começaram a arder.
— Moça… tá doendo…
O rosto dela permaneceu cheio de desprezo.
— Para de fazer teatro na minha frente.
E então aconteceu.
Plaft!
O tapa acertou minha bochecha esquerda.
Caí sobre o tapete.
Meu ouvido ficou zunindo.
O lado esquerdo do rosto queimava.
As lágrimas vieram imediatamente.
Abri a boca para chamar meu irmão.
Fernanda colocou a mão sobre minha boca.
— Está chorando por quê?
A voz dela era fria.
— Se tiver juízo, some desta casa. Henrique é meu. Você é uma pessoa de fora. Com que direito fica aqui aproveitando tudo?
Balancei a cabeça desesperadamente.
Eu não era uma pessoa de fora.
Eu era irmã dele.
Irmã de verdade.
Mas não conseguia dizer nada.
A mão dela estava apertando minha boca com tanta força que eu quase não conseguia respirar.
Comecei a me debater.
Chutei o ar.
Meu pé acertou sem querer uma torre de blocos de madeira que estava montada ao lado do tapete.
A torre caiu.
Os blocos se espalharam pelo chão com um barulho seco.
Fernanda finalmente me soltou.
Levantou-se, ajeitou o cabelo e, em poucos segundos, recuperou a postura elegante que tinha quando entrou.
Antes de voltar para o sofá, olhou para mim.
— Escuta bem. Se eu vir você grudada no Henrique outra vez, não vai ser só um tapa.
Depois disso, sentou-se tranquilamente, cruzou as pernas e começou a mexer no celular.
Eu fiquei encolhida no tapete.
Só conseguia chorar baixinho.
Meu rosto doía.
Doía de verdade.
Eu queria chamar meu irmão.
Mas estava com medo.
Medo de ela me bater de novo.
No teto da sala, a pequena luz vermelha da câmera de segurança continuava piscando silenciosamente.
Não sei quanto tempo fiquei chorando.
Quando meu irmão voltou, eu já estava encolhida no canto do sofá.
Por mais que tentasse enxugar as lágrimas, elas continuavam caindo.
Minhas mãos ainda estavam sujas de tinta, e eu tinha espalhado manchas coloridas pelo próprio rosto.
— Nina?
Ouvi a voz do meu irmão na porta.
Henrique atravessou a sala rapidamente.
Em poucos passos, já estava na minha frente.
— O que aconteceu? Alguém machucou você?
A voz ainda era gentil.
Mas mesmo sendo tão pequena, consegui perceber que alguma coisa havia mudado por baixo daquela calma.
Não respondi.
No sofá do outro lado, Fernanda sorriu.
— Não foi nada. Criança cai mesmo. Eu até tentei ajudá-la a levantar, mas ela começou a chorar.
Henrique nem olhou para ela.
Agachou-se diante de mim.
Estendeu os braços devagar.
Quando a mão dele tocou minha bochecha esquerda, meu corpo inteiro se encolheu por reflexo.
— Ai…
Puxei o ar de dor.
Henrique parou imediatamente.
Com enorme cuidado, afastou os fios de cabelo grudados de tinta no meu rosto.
Minha bochecha esquerda estava inchada e vermelha.
Cinco marcas de dedos apareciam nitidamente sobre a pele.
O ar da sala pareceu congelar.
Meu irmão permaneceu imóvel por três segundos.
Depois virou lentamente a cabeça.
Seus olhos encontraram Fernanda.
Eu nunca tinha visto aquele olhar.
Não era uma explosão de raiva.
Era uma frieza silenciosa, dura como um rio congelado no meio do inverno.
— Fernanda.
Ele pronunciou o nome dela calmamente.
— Como você explica a marca da sua mão no rosto da minha irmã?
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