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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

Dois anos se passaram.

Eu já tinha cinco anos quando ouvi o nome de Fernanda novamente de um jeito que realmente compreendi.

Não foi por causa de uma nova briga.

Não houve ligação inesperada.

Não apareceu ninguém em nossa porta.

Foi porque encontrei, por acaso, uma fotografia antiga em um álbum digital enquanto minha mãe procurava imagens de uma viagem.

Henrique aparecia ao lado de Fernanda.

Eu reconheci primeiro meu irmão.

Depois fiquei olhando para a mulher.

— Quem é ela?

Minha mãe não fechou a tela.

Também não inventou uma resposta.

— É Fernanda.

Fiquei em silêncio.

O nome acendeu uma lembrança.

— A que bateu em mim?

— Sim.

Olhei de novo.

Na fotografia, ela sorria.

Henrique também.

A imagem me confundiu.

— Ele gostava dela?

Minha mãe sentou ao meu lado.

— Gostava.

— Mas ela era ruim.

Minha mãe pensou antes de responder.

— Ela fez uma coisa muito errada com você. Pessoas não são desenhos com uma parte escrita “boa” e outra escrita “má”. O que importa é que cada pessoa é responsável pelo que escolhe fazer.

Eu ainda não parecia convencida.

— Então o Henrique gostava dela mesmo assim?

— Ele gostava antes de saber que ela era capaz de fazer aquilo.

Voltei a olhar para a fotografia.

Aquilo me ensinou alguma coisa que eu ainda não sabia nomear.

Pessoas que nos machucam nem sempre chegam parecendo monstros.

Às vezes sorriem em fotografias.

Às vezes são convidadas para nossa casa.

Às vezes alguém em quem confiamos também confiou nelas.

Perguntei a Henrique sobre isso naquela noite.

Ele não fugiu da conversa.

— Eu gostava dela, sim.

— Ficou triste quando terminou?

Henrique respirou fundo.

— Fiquei.

— Mesmo depois de ela bater em mim?

— Fiquei triste pela pessoa que eu achava que ela era. E fiquei muito bravo com a pessoa que ela mostrou ser naquele dia.

Pensei.

— Você queria voltar?

— Não.

— Por quê?

Ele apontou para meu peito.

— Porque gostar de alguém não obriga você a aceitar tudo dessa pessoa.

A frase ficou comigo.

Foi também naquela época que meus pais decidiram explicar, em palavras adequadas à minha idade, que havia uma carta guardada.

Não me deram.

Apenas disseram que existia.

— Eu tenho que ler? — perguntei.

— Não — respondeu minha mãe.

— Posso ler quando crescer?

— Pode.

— Posso nunca ler?

— Também.

Foi provavelmente a resposta de que eu mais gostei.

Eu não precisava tomar uma decisão para satisfazer nenhum adulto.

Nem Fernanda.

Nem Henrique.

Nem meus pais.

Naquele período, minha vida já estava cheia de outras coisas.

Escola.

Amigas.

Aulas de desenho.

Discussões bobas com meus primos.

Tentativas desastrosas de ensinar meu avô a usar aplicativos no celular.

Henrique continuava trabalhando demais, mas reservava pelo menos duas noites por semana para jantar em casa.

Ele já não contava histórias todas as noites.

Às vezes eu mesma lia livros curtos para ele.

Quando errava uma palavra, Henrique tentava corrigir.

— Eu sei — reclamava.

— Se soubesse, não teria errado.

— Você é chato.

— E você é pequena.

— Tenho cinco anos.

— Exatamente.

Nossa relação parecia diferente daquela de quando eu tinha três.

Era menos construída em torno de ele fazer tudo por mim.

E mais em torno de estarmos presentes na vida um do outro.

Foi nesse período que meu pai recebeu uma última comunicação relacionada ao antigo caso.

As medidas que ainda restavam tinham chegado ao fim, e não havia nenhum novo incidente registrado.

Fernanda tinha cumprido o que lhe fora imposto.

Meu pai mostrou a informação à família.

Meu avô perguntou:

— Então agora ela pode aparecer?

Henrique respondeu antes de todos.

— Cumprir uma consequência não cria direito de voltar para nossa vida.

Meu pai assentiu.

A resposta era simples.

O processo podia terminar.

Os limites continuavam sendo nossos.

Ninguém precisou renovar a raiva para mantê-los.

Alguns meses depois, em uma festa beneficente ligada a uma instituição que meu pai apoiava, Henrique viu Fernanda pela primeira vez desde o ocorrido.

Eu não estava presente.

Ela estava do outro lado do salão.

Os dois se reconheceram.

Fernanda parou.

Henrique também.

Ela não tentou se aproximar.

Ele não foi até ela.

Depois de alguns segundos, cada um seguiu em uma direção diferente.

Quando me contou, anos depois, disse que aquele momento foi quando percebeu que a história realmente tinha perdido poder sobre ele.

Não porque tivesse perdoado.

Não porque tivesse esquecido.

Mas porque não precisava mais fazer nada.

Não precisava confrontá-la.

Não precisava puni-la.

Não precisava exigir explicações adicionais.

O limite já existia.

E bastava.

Naquela mesma semana, aprendi a andar de bicicleta sem rodinhas.

Henrique correu atrás de mim durante alguns metros segurando o banco.

— Não solta!

— Não vou soltar ainda.

Pedalei.

— Agora?

— Ainda não.

— Agora!

Ele soltou.

Continuei andando.

Quando percebi que estava sozinha, quase perdi o equilíbrio.

Mas consegui corrigir.

Olhei para trás.

Henrique estava parado no meio da rua interna do condomínio, com as mãos na cintura e um sorriso enorme.

— Você soltou!

— Você mandou!

— Eu achei que ia cair!

— Mas não caiu.

Parei a bicicleta.

— E se eu cair da próxima vez?

Ele respondeu:

— Levanta.

— E se doer?

— Eu vou estar por perto.

Sorri.

Era praticamente a mesma promessa que ele fazia quando eu tinha três anos.

Só que agora significava outra coisa.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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