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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

PARTE 5

Dois meses depois, a rotina da família Menezes já não girava exclusivamente em torno do que tinha acontecido.

Isso não significava que todos tivessem esquecido.

Significava que começávamos a colocar o episódio no lugar certo.

Era uma coisa grave que tinha acontecido comigo.

Não era tudo o que eu era.

Henrique voltou a trabalhar presencialmente alguns dias por semana.

Na primeira manhã em que saiu cedo, ficou quase dez minutos perto da porta.

— Você volta para o jantar? — perguntei.

— Volto.

— Então pode ir.

Ele levantou uma sobrancelha.

— Estou sendo expulso?

— Você está atrasado.

Minha mãe riu do outro lado da sala.

Henrique finalmente saiu.

No escritório, porém, ele encontrou outro tipo de consequência.

A notícia de que seu relacionamento tinha terminado já circulava entre executivos e parceiros comerciais.

Algumas pessoas faziam perguntas discretas.

Outras tentavam oferecer apoio sem conhecer os detalhes.

Henrique decidiu não transformar o assunto em justificativa para decisões profissionais.

Fernanda nunca tinha trabalhado no Grupo Menezes e sua família possuía negócios independentes.

Por isso, ele determinou que ninguém cancelasse contratos, parcerias ou negociações apenas por causa da relação pessoal entre eles.

— O que aconteceu comigo não é licença para prejudicar funcionários que não têm nada a ver com isso — explicou ao nosso pai.

A postura surpreendeu alguns parentes.

Meu avô, principalmente.

— Eu cancelaria tudo.

— Eu sei — respondeu Henrique.

— E ainda dormiria muito bem.

— Também sei.

Meu avô encarou o neto durante alguns segundos e depois soltou um resmungo.

— Você está ficando parecido com seu pai.

Meu pai sorriu.

— Isso foi elogio?

— Não abuse.

Enquanto os adultos aprendiam a separar responsabilidade pessoal de vingança, eu aprendia outra coisa: dizer não.

A psicóloga começou a perguntar durante as brincadeiras o que eu queria e o que não queria.

Depois minha mãe levou o exercício para casa.

— Posso pentear seu cabelo?

Às vezes eu respondia sim.

Às vezes dizia não.

Antes, provavelmente alguém simplesmente teria começado a pentear.

A mudança parecia pequena, mas devolvia a mim uma parte da segurança que Fernanda tinha tirado quando segurou meu rosto sem permissão.

Henrique levou mais tempo para entender.

Certa noite, tentou me pegar no colo automaticamente.

— Não.

Ele congelou.

— Não?

— Quero andar.

Henrique me colocou no chão imediatamente.

Caminhei pelo corredor satisfeita.

Ele me seguiu a dois passos de distância.

— Não precisa vir atrás.

— Estou indo para o mesmo lado.

— Mentira.

— Nina!

Eu ri e saí correndo.

Pouco a pouco, nossa relação mudou.

Ele continuava me mimando.

Continuava contando histórias.

Continuava sendo a pessoa que eu procurava quando tinha medo.

Mas deixou de agir como se amar alguém significasse impedir que qualquer coisa desagradável chegasse perto dessa pessoa.

Era um aprendizado difícil para ele.

Talvez porque, durante anos, toda a família tivesse repetido a mesma frase: Nina é a única menina, Nina é o tesouro da casa, Nina precisa ser protegida.

Depois da agressão, meu pai começou a questionar até que ponto aquelas palavras poderiam me fazer bem.

— Se continuarmos dizendo que ela é frágil demais para tudo, um dia ela acreditará — comentou com minha mãe.

Meu avô ouviu.

— Ninguém disse que ela é frágil.

— Quando nove homens correm porque ela derrubou uma colher, a mensagem fica parecida.

A discussão durou quase meia hora.

No fim, estabeleceram outra regra informal: ninguém correria para resolver por mim o que eu conseguia resolver sozinha.

No dia seguinte, derrubei suco no chão.

Nove pares de olhos se voltaram para mim.

Meu primo mais novo chegou a levantar da cadeira.

Meu pai tossiu.

Ele sentou novamente.

Peguei um pano com ajuda da funcionária e comecei a limpar.

Demorei.

Espalhei ainda mais suco.

Minha mãe precisou se virar para esconder o sorriso.

Mas terminei.

— Pronto.

Meu avô bateu palmas.

— Pai — advertiu minha mãe.

— Não posso nem comemorar?

O caso envolvendo Fernanda continuava em andamento.

A gravação, a avaliação médica e os depoimentos tinham sido formalmente entregues pelos canais adequados.

Nossa família não controlava o ritmo.

Fernanda também passou a ser representada por advogados e deixou de procurar Henrique diretamente.

Isso trouxe certa paz.

Até que, por meio dos representantes legais, chegou um pedido específico.

Ela queria escrever uma carta para mim.

Não queria me encontrar.

Não pedia que eu respondesse.

Dizia apenas desejar assumir responsabilidade pelo que tinha feito.

Henrique rejeitou a ideia imediatamente.

Minha mãe, porém, não respondeu tão depressa.

— A carta seria para Nina ou para aliviar Fernanda?

— Exatamente — disse Henrique.

Meu pai sugeriu que deixassem o documento com os advogados e não o entregassem naquele momento.

Eu tinha três anos.

Não precisava carregar o arrependimento de uma adulta.

— Quando Nina for maior, se um dia quiser saber, decidimos com ela — concluiu minha mãe.

Henrique concordou.

Aquilo também representava uma mudança.

No começo, todos queriam decidir por mim para me proteger.

Agora começavam a aprender que algumas decisões poderiam simplesmente esperar até que eu tivesse idade para participar delas.

Naquela noite, Henrique me contou uma história sobre uma menina que aprendia a atravessar uma ponte sozinha.

No final, perguntei:

— O irmão dela estava onde?

— Do outro lado.

— Por que não carregou ela?

Henrique sorriu.

— Porque ela sabia andar.

Fiquei pensando.

— Mas ele esperou?

— Esperou.

Ajeitei a cabeça no travesseiro.

— Então tá bom.

Henrique apagou a luz.

Antes de sair, porém, ouviu minha voz no escuro.

— Henrique?

— Oi.

— Se eu chamar, você vem?

Ele respondeu sem hesitar:

— Sempre.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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