Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

PARTE 4

As semanas seguintes trouxeram um problema que ninguém em casa tinha previsto completamente.

A história começou a circular fora dos portões da nossa casa.

Não havia imagens minhas nem detalhes oficiais, mas pessoas que conheciam Fernanda passaram a comentar que ela havia terminado com Henrique de forma repentina. Outros lembraram das antigas publicações em que eu aparecia ao fundo de fotografias familiares, quase sempre com o rosto escondido ou desfocado.

Foi o suficiente para alimentar rumores.

Havia quem dissesse que Henrique tinha uma “menina misteriosa” vivendo na casa da família.

Outros afirmavam que eu era filha de algum parente distante.

Alguns perfis chegaram a repetir a mesma informação que Fernanda tinha mencionado naquele dia: que a família Menezes não possuía nenhuma menina naquela geração e que qualquer história diferente seria invenção.

Meus pais poderiam ter encerrado a discussão em poucos minutos publicando uma fotografia minha e uma árvore genealógica.

Não fizeram isso.

— Nina não precisa provar para desconhecidos que pertence à própria família — disse minha mãe.

Henrique concordou imediatamente.

A decisão teve um preço.

Sem uma explicação pública detalhada, os comentários continuaram por algum tempo.

Fernanda, pressionada por amigos e pelo andamento do caso, enviou uma declaração por meio de sua advogada dizendo que havia cometido “um grave erro de julgamento” e que não pretendia justificar sua conduta.

Não mencionou meu nome.

Não me culpou.

Também não tentou repetir publicamente a história de que eu fingia ser outra pessoa.

Mesmo assim, Henrique ficou irritado quando leu a expressão “erro de julgamento”.

— Parece que ela escolheu a sobremesa errada — murmurou.

Meu pai fechou o documento.

— A linguagem dela não muda o que aconteceu.

Henrique aprendeu, naquele período, que responsabilização não acontecia na velocidade da raiva.

Havia conversas com advogados.

Havia registros.

Havia avaliações.

Havia procedimentos que não obedeciam ao desejo da família Menezes de resolver tudo imediatamente.

Meu avô detestava esperar.

— No meu tempo…

— No seu tempo você também teria que esperar — cortou minha mãe.

Ele resmungou, mas não insistiu.

Enquanto os adultos lidavam com aquilo, minha rotina começou a voltar ao normal.

Retomei minhas aulas de natação.

Voltei a desenhar na sala.

Durante alguns dias, evitava exatamente o ponto do tapete onde tinha caído.

Ninguém tentou me obrigar a sentar ali.

Certa tarde, porém, meus lápis rolaram para aquele lado.

Fui buscá-los.

Sentei no chão.

Comecei outro desenho.

Minha mãe, que estava lendo no sofá, viu.

Não disse nada.

Apenas continuou lendo.

Mais tarde, contou a Henrique.

Ele sorriu pela primeira vez em dias sem parecer estar se esforçando.

A psicóloga também orientou a família a mudar algumas coisas.

Todos estavam tão acostumados a fazer tudo por mim que, depois da agressão, tinham passado a exagerar ainda mais.

Se eu queria água, três pessoas levantavam.

Se tropeçava, alguém já me pegava no colo antes que eu decidisse se tinha doído.

Se uma visita chegava, perguntavam cinco vezes se eu queria ficar no quarto.

— Proteger não é impedir toda experiência — explicou a psicóloga aos meus pais.

A frase se tornou quase uma regra em casa.

Quando eu dizia “eu consigo”, tentavam me deixar tentar.

Nem sempre funcionava.

Meus nove primos eram os piores.

Depois de descobrirem o que acontecera, apareceram em nossa casa quase em formação militar.

O mais velho prometeu que nenhum desconhecido chegaria perto de mim outra vez.

Outro queria saber por que a segurança não tinha impedido Fernanda de entrar.

O terceiro sugeriu que qualquer futura namorada de Henrique deveria preencher um questionário.

Meu avô achou a ideia excelente.

Minha mãe proibiu imediatamente.

Eu, sem entender a metade da conversa, só queria brincar.

— Vocês estão me atrapalhando — reclamei.

Nove homens adultos se afastaram do tapete quase ao mesmo tempo.

Henrique começou a rir.

Foi uma das primeiras vezes que a casa voltou a parecer realmente leve.

Mas ele ainda carregava culpa.

Uma noite, quando eu já estava quase dormindo, perguntei:

— A Fernanda volta?

Henrique ficou em silêncio por um instante.

— Não.

— Nunca?

— Não para ficar perto de você.

Pensei um pouco.

— Você gostava dela?

A pergunta o surpreendeu.

— Gostava.

— E agora?

Ele ajeitou meu cobertor.

— Agora eu sei uma coisa sobre ela que eu não sabia antes.

— Qual?

Henrique demorou para responder de uma forma que eu pudesse entender.

— Que ela foi capaz de machucar alguém menor quando achou que ninguém estava vendo.

Olhei para ele.

— A câmera viu.

Ele quase sorriu.

— Viu.

Mas então acrescentou:

— Mesmo se não tivesse visto, eu teria escutado você.

Aquela resposta pareceu importante.

Porque, até então, eu acreditava que a câmera tinha me salvado.

Na verdade, ela tinha apenas registrado.

Quem precisava acreditar em mim eram as pessoas.

Na sessão seguinte, contei à psicóloga que meu irmão acreditava em mim.

Ela perguntou como eu me sentia.

Pensei bastante.

— Segura.

Era a primeira vez que eu usava aquela palavra desde o tapa.

E, para Henrique, ouvir aquilo significou mais do que qualquer consequência que ainda pudesse atingir Fernanda.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1